Cícero se debateu violentamente, desesperado para olhar, para ir até ela. Mas sua consciência foi arrancada e ele desabou de rosto no chão, imerso nas trevas.
Até hoje, aquela mesma cena voltava para assombrar suas madrugadas, torturando-o metodicamente, estripando a alma de um homem que havia perdido seu amor para todo o sempre.
Ele fora privado de afeto desde a infância. Cada novo amanhecer trazia a tortura dos loucos e agressores, ensinando-o a normalizar a dor, as humilhações e o fato de ser tratado como um vira-lata sarnento. O que era um amor normal? Ele não tinha a mínima ideia; sequer possuía a capacidade humana para amar.
Um monstro deformado como ele não tinha o direito de amar, nem merecia.
Se apaixonar por alguém seria a sentença de destruição para a outra pessoa.
A expressão de Cícero era deserta de emoção, e suas pálpebras tremiam em espasmos nervosos. Com o olhar caído, ele encarava o anel de casamento no dedo anelar; as bordas estavam tão gastas que as inscrições que haviam sido gravadas com tanto afinco e promessas desapareceram completamente.
Havia pescado aquela aliança das profundezas do mar.
Talvez nunca devesse ter resgatado o anel. Voltar a usá-lo só causou mais arranhões e desgaste, apagando para sempre as palavras antes encravadas no metal com tanto significado. Não restou um mísero fragmento.
Acabou-se tudo.
— Pai.
Um som de passos apressados e respiração curta quebrou o silêncio.
Tadeu subiu correndo as escadas. Quando encontrou Cícero plantado ali, o coraçãozinho dele disparou. Ele quis correr até o pai, mas recuou ao notar a perna estropiada e a postura pendendo desajeitadamente para o lado pelo esforço sobre-humano.
Os olhos da criança se encheram de lágrimas.
— ... Pai... O que aconteceu com o senhor, pai?
Cícero encarou o rosto infantil, que era a cópia incrivelmente precisa do rosto que habitava seus devaneios e alucinações mais cruéis. Ele se forçou a dar alguns passos até o menino.
— Estou bem.
— Pai... — as orbes do garotinho ardiam, prontas para desabar.
Cícero ficou calado por mais um instante antes de erguer a mão manchada e repousá-la com infinito cuidado no topo da cabeça dele. Foi o exato mesmo gesto de afeto feito pela mãe antes de ele sair.
— Não chore.
Tadeu puxou o catarro com força e engoliu em seco:
— Eu não estou chorando.
Apesar da bravata, as bordas dos olhos ficaram ainda mais escarlates.
A mão calejada de Cícero não se moveu da cabeleira macia:
— Foi divertido o tempo que você passou com a sua mãe?
— Foi sim. — Esfregando os punhos nos olhos, a vontade de derramar um choro convulsivo explodiu. — Muito, muito feliz. Foram os dias mais felizes da minha vida.
Os olhos de Cícero baixaram a guarda:
— Entendo. Ela realmente tem esse dom maravilhoso de trazer felicidade pros outros.
Sentindo que algo não estava certo e que aquelas palavras soavam a despedidas veladas, Tadeu arregalou os olhos chorosos.
— Mas os dias do lado do senhor também são muito felizes. Quando você cozinha pra mim, eu fico feliz; quando a gente monta o álbum de recortes, quando coloca os adesivos de pãozinho, quando a gente constrói os Blocos de Montar...


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