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Ele Disse Que Se Arrependeu romance Capítulo 297

Valentina apenas acompanhou Tadeu até a porta e foi embora.

Do segundo andar, Cícero observava através da janela a figura dela se distanciando cada vez mais.

A brasa do cigarro que segurava queimou as pontas dos dedos dele, mas ele nem sequer pareceu notar.

Com um movimento robótico, apagou a bituca e abriu a janela para permitir que o ar frio expulsasse a fumaça de dentro do quarto.

A ferida em sua perna, apesar de ter sido tratada, infeccionou e estava cheia de pus. Braços, coxas, ombros... Não restava sequer um palmo intacto no corpo de Cícero.

Com a inflamação arrastando-se por tempo demais e o excesso de antibióticos sobrecarregando o sistema, o corpo começou a ceder, e seu sistema imunológico entrou em colapso. A febre escalou de forma assustadora, tragando a sua consciência para um abismo de neblina e delírios.

Ele chegou a acreditar que, mergulhado naquele torpor febril, talvez as alucinações voltassem.

Mas nada aconteceu.

Mesmo as visões reconfortantes de Valentina haviam se dissipado.

Até sua sombra se apagaria do mundo dele muito em breve; ela dobrava a esquina, sumindo de vista, com a barra de seu casaco sendo levantada suavemente pelo vento, os fios de cabelo deslizando sobre seus ombros.

A sua esposa fora uma mulher bondosa.

No passado, ela enxergava o mundo pelas lentes mais benevolentes e tratava todos com a mais pura sinceridade. Cada sorriso e olhar dela resplandeciam com uma vivacidade inigualável.

Na época em que ela segurava aquele cachorrinho chamado Milho nos braços, agachada, e pedia para que ele tirasse fotos, a cabeça pendia levemente para o lado com um sorriso doce. O rosto ainda carregava um toque de maciez juvenil. Era deslumbrante como um pêssego fresco, radiante como um broto de primavera.

Aquele jeitinho se parecia tanto com o de Tadeu. Era por isso que, há muito tempo atrás, Cícero entrava em pânico; temia que ela, ao bater os olhos na criança, descobrisse na hora que aquele era o filho deles.

Ele sabia o quanto ela o odiava e vivia apavorado com a possibilidade de que o menino se tornasse o alvo da vingança dela.

Ele era um monstro, suas mãos pingavam pecado e sua alma era negra. Ele sabia perfeitamente de tudo isso.

No passado, ele não se importava com nada. A vingança era sua única âncora neste mundo. Quem está morrendo de fome não pergunta se os outros têm o que comer; ele desejava destruir aquele casal maldito todos os dias e achava a presença de Valentina insuportável.

Quando ela sorria, era insuportável. Quando ficava séria, também. Tudo nela o incomodava.

A sua esposa fora uma pessoa inocente.

Ela não havia cometido pecado algum, mas foi arrastada para suportar a dor mais lancinante de todas.

A verdade é que ele nunca quis causar tudo aquilo. Nunca quis machucá-la.

Mas a partir do instante em que Amélia foi trazida de volta como a verdadeira herdeira, algo na aura de Valentina ruiu. Ela se perdeu num mar de desamparo.

E foi então que os cacos de vidro lhe perfuraram os ombros, e uma agonia cortante invadiu seus nervos. O som da respiração falha e dolorida de Valentina bateu em seus ouvidos. Naquele instante infame, o cérebro de Cícero desligou.

Foi esse pequeno segundo de paralisia. No piscar de olhos seguinte, o corpo que estava agarrado ao seu voou rumo à varanda e despencou no vazio.

A altura não era imensa, mas a queda do segundo andar foi fatal.

A cena era um verdadeiro pandemônio, recheada de gritos cortantes e passos histéricos, mas o mundo de Cícero emudeceu. Tudo se silenciou, até sobrar unicamente o baque seco do corpo dela arrebentando contra o chão.

*Pah!*

Soou exatamente como a Valentina saltitante do passado, quando pulava a varanda e escapulia pelos fundos para brincar no jardim.

Mas o baque fora horrendo.

Pesado. Devastador. Aquela batida atravessou a pele e rachou as costelas e os pulmões de Cícero em dezenas de pedaços.

Quando o zumbido agudo em seus ouvidos cessou, Cícero desabou no chão, o peito subindo e descendo com o peso da hiperventilação. O rosto estava mais branco que giz. A artéria do ombro fora perfurada pelos vidros e o sangue esguichava furiosamente. Ignorando toda a dor do mundo, ele rastejou de maneira grotesca até a janela. Nem ele sabia o que estava fazendo, era um transe movido pelo puro instinto primitivo de checar o estado dela lá embaixo.

No último décimo de segundo antes de despencar atrás dela pelo parapeito, Amélia surgiu de trás e cravou os braços em sua cintura, berrando em meio às lágrimas:

— Cícero...

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