Henrique entrou em pânico no coração. Mal pensou em desligar a ligação, quando sentiu um olhar recair sobre ele, pesando de um jeito que não conseguia sequer se mover.
Isabela riu de pura raiva.
Aquele inquilino misterioso que alugara seu apartamento por quatro anos, de temperamento peculiar, que nunca aparecia mas pagava o aluguel sempre em dia.
Era, de todas as pessoas, o mesmo homem que no passado sequer voltava para casa.
O corretor continuava falando sem parar na outra linha:
— Sr. Henrique? Diga alguma coisa. As condições estão muito boas mesmo. Ainda tenho algumas outras opções de moradia em mãos, todas com elevador e em muito melhor estado do que aquela. Morar em outro lugar não fará tanta diferença...
Isabela se aproximou e simplesmente puxou o telefone da mão dele:
— Ele ouviu.
Com as mãos vazias, Henrique fez que iria puxá-lo de volta, mas perante o olhar gelado de Isabela, recuou a mão e se comportou obedientemente.
Ela falou ao telefone, com voz fria e calma:
— Não precisa marcar um horário. Eu já estou na frente dele.
O corretor demorou a processar, o cérebro pareceu ter travado:
— Ah... o quê? É a Srta. Almeida? Você está na frente dele? Então...
— Eu mesma negocio o resto com ele. Obrigada.
Ao dizer isso, Isabela encerrou a ligação.
Sem entender, Eloy piscou os grandes olhos arregalados, olhou para o rosto do pai que transparecia culpa e para o rosto impassível de sua mãe.
A cabecinha matutou um pouco até chegar a uma conclusão simples:
— Você roubou alguma coisa da mamãe?
Henrique rapidamente negou:
— Não roubei.
Eloy não acreditou:
— Se você não roubou, por que precisaria se esconder? Só tem culpa quem faz coisa errada.
Henrique comprimiu os lábios em silêncio.
Quatro mil e quinhentos por mês, por quatro anos... Como se poderia chamar um apartamento alugado de roubo?
Ele segurou a respiração, esperando que Isabela o repreendesse por ser tão desprezível.
Mesmo após o divórcio, ainda dormia na cama dela, usava os móveis velhos que ela deixara para trás e assistia à mesma paisagem antiga pela janela que ela vira por anos enquanto crescia.
— Há quanto tempo você mora lá? — Isabela perguntou.
Henrique confessou de forma honesta:
— Quatro anos.
Desde o dia que ela partiu.
Desde o dia em que ele não pôde mais encontrar sequer o menor traço de seu cheiro pelo Residencial Rio Limpo.
Sempre que voltava vivo das missões de alto risco, sempre que a dor o impedia de dormir, ou sempre que estava prestes a enlouquecer com o bombardeio de ligações, ele voltava para aquele apartamento pequeno.
Pensando bem, aquilo realmente era o ar roubado do qual ele precisava para sobreviver.
— Por quê? — Isabela perguntou. — Mesmo que você não quisesse voltar para o Residencial Rio Limpo ou para a família Ferreira, você tem tantas outras propriedades. Não lhe falta lugar para morar.

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