Henrique respondeu instintivamente:
— Esperar a notificação da missão, também tem uns novatos na equipe para liderar. O fim do ano está chegando, vão ter muitas avaliações, talvez fique um pouco mais ocupado...
No meio da fala, enquanto o olhar de Isabela se tornava cada vez mais pesado e mais frio, a voz dele foi diminuindo gradualmente até desaparecer.
Ele entendeu o significado no olhar de Isabela.
— Eu... — ele tentou contornar — Vou tentar sair do trabalho mais cedo, e também não vou mais deixar de atender suas ligações como fazia antes. Sempre que você ou o Eloy precisarem, serei o primeiro a chegar. Eu prometo.
— Não precisa. — Isabela o interrompeu. — Peça as contas do seu trabalho.
Henrique parou abruptamente:
— O quê?
— Peça as contas, deixe de ser um policial da força especial. — Isabela ergueu a cabeça e fixou o olhar no fundo de seus olhos. — Não só as forças especiais: polícia criminal, departamento de narcóticos. Qualquer coisa que o obrigue a estar na linha de frente, deixe pra trás.
Henrique franziu a testa, recusando sem sequer pensar duas vezes:
— Não.
Ele só possuía duas grandes obsessões na vida.
Uma era Isabela, a outra era aquela farda.
Ele havia herdado o número da farda de seu pai. Aqueles números o acompanharam por mais de dez anos, muito tempo para terem crescido junto à sua pele e osso e se gravado em sua medula.
Era a única coisa que ainda poderia provar seu valor depois de seus mais de trinta anos de vida neste mundo.
— Isabela, desta vez foi um acidente. — Henrique tentou se explicar. — Eu nem sempre dou tanto azar. Normalmente as forças especiais treinam bastante, mas missões extremas a gente quase nunca esbarra ao longo do ano...
Porém, Isabela não estava disposta a ouvir aquilo.
— Henrique, você faz ideia de como está a sua situação agora?
Ele ficou em silêncio.
Isabela não se surpreendeu com sua postura, hesitante em responder algo. Ela perguntou:
— Se houver uma próxima vez, acha que ainda sairá vivo do setor de emergência? Acredita que a sorte estará sempre do seu lado?
Henrique baixou as sobrancelhas e os olhos, não ousando encará-la.
Antes, ele se arriscava porque a morte, no fim, era só a morte.
A família Ferreira não sentiria falta dele, e tirando os ocasionais sermões de Helena, ninguém realmente se importava se ele sobreviveria ao dia de amanhã.
Mas agora, as coisas eram diferentes.
Isabela havia voltado, e ele tinha Eloy.
Ela estava ao seu lado, e o bolinho fofo ficava nos seus braços, o chamando de "Papai", de modo que o seu coração se derretia.
Ele mais uma vez sentiu a doçura de estar vivo.
E, também, sentia mais desgosto por aquela sua própria versão que havia descansado no passado.
— Eu... eu não sei o que mais eu posso fazer.
Desde que tinha cinco anos de idade, queria ser um policial.

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