Cada palavra dita parecia compreensível na superfície, mas todas as frases carregavam uma insinuação cínica sobre a suposta falta de vergonha de Cora.
— Não crie coisas na sua cabeça. Comporte-se. — Bernardo continuava tentando acalmá-la.
Adelina não disse nada.
Mas ela estava genuinamente assustada.
Havia os rumores de que Bernardo tinha se ajoelhado para Cora, e os repórteres a bombardeavam de ligações constantemente, perguntando sobre a situação.
Além disso, Bernardo sequer havia entrado em contato com ela durante todo aquele período.
Aquele acúmulo de pequenas coisas fez com que a estrutura de Adelina desabasse por completo.
— Bernardo, eu estou morrendo de medo. Tenho medo de que um dia todos se virem contra mim, me chamando de amante, e de que todo o esforço que fiz ao longo desses anos vá por água abaixo. — Ela suspirou pesadamente. — Os rumores que estão circulando por Lagoa Cristalina estão me deixando apavorada. Os repórteres não param de me ligar e eu já nem sei mais o que responder.
Em momento algum ela culpou Bernardo diretamente, mas cada uma de suas palavras estava carregada de indiretas.
Bernardo não era burro a ponto de não perceber.
Ele baixou o olhar para fitá-la.
Os olhos dela transbordavam lágrimas.
— Escute aqui, eu só estou agradando a Cora por causa das ações da empresa. Ela precisa dar à luz essa criança em segurança. Caso contrário, nossos problemas vão se arrastar por muito mais tempo, e que benefício isso traria para você? — sussurrou ele.
— Me desculpe... — Adelina se desculpou, com a voz embargada. — Eu não deveria te cobrar de forma tão agressiva nem jogar toda a responsabilidade nas suas costas. Eu sei que as coisas já estão muito difíceis para você.
— Não precisa se preocupar, ninguém em Lagoa Cristalina jamais ousará chamá-la de amante. — garantiu Bernardo.
O que Adelina queria, no entanto, ia muito além daquilo.
Mas ela era inteligente o bastante para saber o que podia e o que não podia dizer.
Todos os anos, sem exceção, Bernardo passava aquela data com ela, em vez de passar com a própria esposa.
Essa era, de fato, a maior e mais poderosa afronta a Cora.
— Bernardo. — Como se tivesse se lembrado de algo, Adelina olhou para cima.
— Sim, diga. — murmurou ele.
— Eu nunca exigi que você me assumisse oficialmente perante a sociedade, mas também não quero me transformar na amante sobre a qual todos os repórteres comentam; isso destruiria a minha carreira. Por isso, eu queria te pedir... será que, nesse dia, se os jornalistas perguntarem, você poderia negar que é casado com a Cora? Afinal de contas, os boatos de agora estão tomando proporções assustadoras. — Adelina fez o pedido num tom calmo e ponderado.
Ela até fez questão de demonstrar que não queria colocá-lo numa saia justa:
— Claro, Bernardo, se você não quiser fazer isso, não vou te forçar. Sei que precisamos pensar no panorama geral agora, e a Cora, assim como o bebê que ela carrega, são a prioridade absoluta. Eu compreendo perfeitamente o seu lado.
Usando uma combinação de chantagem emocional e aparente complacência, Adelina o colocava contra a parede, obrigando Bernardo a tomar uma decisão.

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