Ao acordar, Alita Pires descobriu que estava em um quarto limpo, com as mãos e os pés amarrados.
Aquele estilo familiar de nó a impedia completamente de fazer qualquer coisa.
Cortar as cordas como fizera antes era absolutamente impossível.
Ela parou de se debater, ergueu a cabeça e gritou:
— Ei! Vocês me sequestraram e agora não aparecem! Covardes!
Assim que as palavras saíram de sua boca, a porta se abriu e alguém entrou.
— Alita, quanto tempo.
Alita sentiu uma vertigem momentânea.
Desde que mudara de nome, quase ninguém a chamava pelo nome original, o que soou estranhamente não familiar.
— Armanda.
Ela pronunciou o nome lentamente.
A mulher à sua frente fora sua melhor amiga. Elas haviam vivido juntas nas montanhas da ilha, crescido juntas e aprendido a caçar juntas. A outra até mudara de nome de propósito para ter um parecido com o dela.
Mas, durante uma caçada, Armanda escorregou, caiu no mar e desapareceu.
Alita achava que ela estivesse morta.
Nunca imaginou que a veria novamente ali.
— Armanda? Eu não uso mais esse nome, é muito caipira, me dá nojo só de ouvir. Você também já saiu da ilha há muito tempo, não é? Viu como o mundo lá fora é maravilhoso. Por isso, eu também mudei de nome. Agora me chamo Samanta Pires.
— ...
— ?
— Pfft.
— Que cara é essa?
— E ainda dizem que não somos da mesma terra.
Armanda... ou melhor, Samanta, fechou a cara.
— O que você quer dizer com isso?
— Eu agora me chamo Alita Pires.
— ...
— Por que você me mataria?
— Você sabe muito bem o motivo!
— Eu não sei, e não tenho a menor ideia.
A expressão de Samanta piorou ainda mais. Tremendo de raiva, ela abriu o casaco de supetão, puxou a blusa por baixo e revelou uma cicatriz horrenda na barriga.
— Quando eu caí, os recifes rasgaram a minha barriga. Minhas tripas ficaram expostas na água, e o cheiro de sangue atraiu tubarões. Quase fui devorada! Você sabe como eu sobrevivi? Por que você não me salvou?
Alita ficou atônita e negou instintivamente:
— Eu procurei por você. Quando você caiu, eu pulei logo atrás, mas não consegui te encontrar.
— Mentira! Você nem tentou me procurar! Você não se importa! A minha vida ou a minha morte não significam nada para você! Eu fiquei na água por tantos dias, esperando todos os dias que você viesse me procurar. Todos os dias... e você nunca veio...
O rosto de Samanta se contorceu, como se estivesse presa naquelas memórias dolorosas.
— Depois, um barco passou e me resgatou. Foi assim que eu sobrevivi. E, a partir daquele dia, eu disse a mim mesma que faria você sentir exatamente o que eu senti!
O que Samanta não disse foi que quem a salvou foi um navio pirata. Ela foi resgatada por piratas, que gastaram muitos remédios para curá-la, e, com certeza, não foi por caridade.
Naquele navio, ela sobreviveu por um triz, suportou humilhações e viveu dias piores do que a morte.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Flores Que Florescem Na Lama
Gostaria de ler mais não consigo porque tenho que pagar...