Stella
Olho para ela, sentindo uma mistura de raiva e compaixão. O que dizer diante de tanta dor e arrependimento?
— Você não entende o que foi crescer sem saber da sua existência. — Minha voz treme, cheia de mágoa. — Tudo bem que temos nossa avó materna, mas nunca soubemos de você, e quando perguntávamos meu pai se transformava, uma vez chegou a bater em meu irmão, e sem aceitar entrei no meio e apanhei também… E agora descubro que a senhora sempre esteve lá, mas escondida.
Ela abaixa a cabeça, lágrimas ainda escorrendo pelo rosto. Eu não estou muito diferente.
— Eu sei… Eu sei que não posso mudar o passado. Mas quero estar presente agora, se você me permitir.
— E como posso confiar em você? E meu avô não vai te punir? — Minha voz é um sussurro desesperado. — Como posso acreditar que não vai desaparecer novamente?
Ela levanta os olhos, me encarando com uma intensidade que nunca vi antes.
— Porque aprendi, tarde demais, o valor da família. E estou pouco me lixando para o que aquele velho babão pense ou diga. — Ela respira fundo. — E, porque não suporto mais a dor de estar longe de vocês, longe do meu filho. Estou disposta a lutar pelo seu perdão, pela sua confiança. Sei que levará tempo, mas não desistirei, nem agora e nem nunca. Quero minha família completa de novo.
Parte de mim quer abraçá-la, outra parte quer afastá-la. A confusão e a dor são esmagadoras.
— Preciso de tempo. — Digo, finalmente, minha voz, um sussurro rouco. — Não sei se posso perdoar tudo isso de uma vez, não foi diretamente a mim, mas ao meu pai.
Ela assente, compreendendo.
— Eu entendo. — Sua voz é suave, mas firme. — Estarei aqui, esperando. Sempre que precisar de mim.
O silêncio se instala novamente, mas dessa vez, não é tão opressivo. Há uma promessa de algo novo, um começo, talvez. Mesmo que o caminho à frente seja longo e doloroso, há uma pequena esperança de que, no fim, possamos encontrar uma forma de ser família.
…
Eduardo
— Já está tudo pronto, Emma? — pergunto, com o celular no viva-voz enquanto arrumo uma mala pequena.
— Está sim. Acabei de ser informada que ela está no hospital particular no centro. Não sei o que aconteceu, mas ela terá alta amanhã.
— Você sabe o horário da alta? — pergunto.
— Sim, ela sairá às nove horas, então às dez você pode começar tudo.
— Pode deixar.
— O avião já está pronto.
— Perfeito, eu também estou. Vou desligar. Me deseje sorte.
— Vai lá, chefinho. Já deu certo.
Desligo o celular sorrindo. Antes de sair, Bella entra no meu quarto.
— Vai viajar, papai? — pergunta ela, com lágrimas nos olhos.
— Sim, minha princesa. Vou buscar a tia Stella.
Ela arregala os olhos, que começam a brilhar e sorri.
— Que felicidade, papai! Estou com tanta saudade dela.
— Eu também, meu anjo. Mas preciso te perguntar uma coisa.
— O que, papai?

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