Capítulo 1: Vestido de Noiva
Katherine
O retrato de prata sobre a minha mesa era o meu ancoradouro. Na foto, minha mãe sorria com aquela leveza que só ela tinha, os olhos brilhando com o mesmo orgulho de quando inaugurou a agência de design gráfico que hoje era um dos nomes mais fortes de São Francisco. Aquela empresa era o sangue dela, o suor dela. E, em uma semana, seria oficialmente minha. Ou de ninguém.
— Katherine? — A voz de Melissa quebrou o silêncio do meu escritório. Minha assistente entrou com um tablet em mãos e uma expressão preocupada. — A reunião com os investidores da Crestwood foi cancelada.
Franzi o cenho, largando a caneta sobre a mesa de mogno.
— Cancelada? Como assim? Essa apresentação era crucial para o fechamento do trimestre, Melissa. Eles deram alguma justificativa?
— Disseram apenas que houve um imprevisto na agenda do diretor executivo. Mas achei estranho. Eles pareciam bem apressados em desligar.
Senti uma pontada de inquietação no estômago, mas respirei fundo, tentando não entrar em paranóia.
— Certo. E os documentos da auditoria interna? Você conseguiu falar com o meu pai?
— Ainda nada — Melissa suspirou, ajustando os óculos. — O Senhor Arthur disse que os relatórios ainda estão sendo processados pela contabilidade.
— Liga para o Liam de novo — ordenei, referindo-se ao nosso chefe de finanças. — Peça para ele apressar isso. Mas deixa estar, eu mesma vou falar com o meu pai hoje. Preciso entender o porquê dessa demora.
Peguei minha bolsa na cadeira e me levantei.
— Já que não temos reunião, vou encerrar o expediente mais cedo.
Melissa sorriu, visivelmente aliviada.
— Você realmente precisa descansar, Kat. Olha, você é a única noiva que eu conheço que, faltando uma semana para o casamento, consegue ficar tão tranquila. Cadê os ataques de pânico com as flores ou o buffet?
Soltei uma risada fraca, ajeitando o casaco.
— O segredo é terceirizar o estresse, Mel. Se eu surtar, o Adam surta junto, e alguém precisa ser o adulto da relação. Até amanhã.
— Até. Descanse!
No caminho para o estacionamento, decidi fazer um desvio. Passei na confeitaria favorita do meu pai e comprei um saco com os brioches artesanais que ele adorava.
Enquanto dirigia pelas ruas sinuosas de São Francisco, meu peito apertou. Desde que minha mãe morreu, há doze anos, Arthur se transformou. O homem caloroso que eu conhecia deu lugar a alguém frio, distante e quase intocável. Pior do que isso: toda a atenção e afeto que ele me negava foram direcionados para Ester, a filha da sua amante que ele trouxe para morar conosco apenas dois meses após o funeral da minha mãe.
Eu tinha treze anos. Sofri o inferno nas mãos de Céline, minha madrasta, até finalmente atingir a maioridade e conseguir me firmar na empresa. Hoje, eu era independente. Tinha meu próprio dinheiro, meu cargo, meu espaço. Mas, no fundo, olhando para aquele saco de brioches no banco do carona, eu sabia que ainda era a adolescente carente implorando por um olhar de aprovação do pai.
Quando passei pela porta de entrada da mansão, o silêncio da casa foi quebrado pelas vozes que vinham da sala de estar. Meu pai e Céline estavam sentados no sofá.
— Boa tarde — falei, aproximando-me com um sorriso que parecia pesado no meu rosto.
Meu pai ergueu os olhos do jornal, a expressão rígida.
— O que está fazendo em casa a esta hora, Katherine? Não tinha uma reunião importante com a Crestwood?

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