PERSPECTIVA DA SERAPHINA
Maya e eu conversamos noite adentro, abafando as risadas contra os travesseiros e compartilhando anedotas sobre as nossas vidas em voz baixa.
Ela me contou como era a corredora mais rápida do grupo dela e vencera metade dos homens da SDS no combate. Também falou da fase gótica que viveu aos quinze anos e de todas as formas ridículas e absurdas que tentou para tingir a pelagem marrom clara da sua loba de preto.
Eu contei a ela sobre a minha profissão de escritora, como era ser admirada por pessoas estranhas quando mais ninguém na minha vida fazia isso.
Falei sobre a risada do Daniel, que soava como raios de sol rasgando as nuvens, e como abraçá-lo era a melhor sensação do mundo.
Comparamos desilusões e cicatrizes meio curadas, sonhos e esperanças que não tínhamos tido coragem de expressar em voz alta antes.
Em algum lugar do corredor, vozes abafadas de outros membros da SDS ainda se faziam ouvir, mas ali éramos só nós, duas mulheres envoltas em calor, confiança e aquele tipo raro de amizade que fazia o mundo parecer mais suportável.
À medida que a noite avançava, o suave zumbido do hotel foi nos envolvendo como um casulo e senti a nossa conexão se fortalecer. Senti que ela estava se tornando mais do que uma amiga, uma irmã.
Pensando nisso, senti uma leve culpa pelo arrepio de emoção que percorreu o meu corpo quando a Maya finalmente adormeceu, com a taça de vinho inclinada e um cobertor puxado até o queixo.
Sem perder tempo, saí da cama em silêncio, com o coração batendo forte.
Caminhei na ponta dos pés entre as garrafas de refrigerante e cerveja espalhadas e os sacos de salgadinho vazios. Abri a porta com cuidado e prendi a respiração até que ela se fechou atrás de mim.
Por um momento, eu fiquei parada no corredor escuro com os ouvidos atentos.
O hotel estava calmo, exceto pelo leve som das saídas de água termal lá fora.
Senti uma mistura de êxtase e culpa, como uma adolescente saindo escondida para encontrar uma paixão proibida, exceto que eu não era mais uma adolescente e o Lucian era mais do que uma simples paixão.
Não dei mais do que dois passos antes que braços fortes me envolvessem.
Soltei um pequeno suspiro que derreteu instantaneamente enquanto o calor e o cheiro amadeirado me envolviam.
"Te peguei," Lucian murmurou perto do meu ouvido, com a voz baixa e divertida.
Meus lábios se curvaram sem que eu percebesse. "Você quase me matou de susto."
O peito dele vibrou com uma risada suave. "Não era minha intenção. Mas admito, ver você saindo escondida assim…" Ele inclinou a cabeça, roçando os lábios logo abaixo do meu ouvido, "tem um certo encanto."
Um calor tomou conta da minha pele. Me virei nos braços dele e fitei os seus olhos afiados nas sombras e suavizados pelo brilho fraco da lanterna. "Você ficou aqui esperando esse tempo todo?"
"Claro," ele anunciou, sem vergonha, sorrindo como um garoto. "Nosso segundo encontro tá pronto."
Uma risada feliz escapou de mim. "Segundo encontro?"
"Eu prometi, não foi?"
Uma sensação de ansiedade boa cresceu no meu peito. "Sim, mas você já fez tanto hoje."
"Não me importo, Seraphina," ele disse, entrelaçando os dedos aos meus. "Quero aproveitar cada segundo com você."
Algo na certeza da voz dele mexeu com partes de mim que eu nem sabia que existiam.
Por tanto tempo, o amor para mim significou compromisso, sacrifício, ser a última opção.
E, no entanto, este homem redefinia isso, fazia eu me sentir escolhida, desejada.
"E se a Maya acordar e perceber que eu não tô no quarto?" perguntei, com uma voz suave, embora o meu corpo já se inclinasse na direção dele.
O polegar dele fazia círculos lentos sobre os meus dedos. "Quem dorme, perde."
Joguei a cabeça para trás e a minha risada suave ecoou nas paredes aveludadas.
Lucian se aproximou de mim, com os olhos brilhando com travessura. "O que você me diz, Sera? Vai vir comigo?"
Eu não hesitei nem por um segundo antes de acenar com a cabeça. "Mostre o caminho, Alfa Reed."
Ele riu, claramente satisfeito, e me guiou pelo corredor silencioso.
Passamos pelo terraço onde os membros da SDS tinham rido e relaxado mais cedo, mas que agora estava deserto.
Lamparinas queimavam baixinho, com uma luz dourada balançando com a brisa noturna. Lucian abriu uma porta lateral e me levou até a borda das fontes termais.
A vista era de tirar o fôlego.
Uma manta grossa havia sido espalhada no chão de pedra e coberta por almofadas que pareciam absurdamente macias. Uma bandeja de frutas cobertas com chocolate brilhava, reluzindo sob a luz das velas. Um balde de vinho estava gelando ao nosso lado, a condensação pingando na rocha. Dezenas de pequenas velas flutuavam em tigelas pela água fumegante, suas chamas tremulando e refletindo como estrelas espalhadas pela superfície.
Era simples, mas incrivelmente lindo.
"Você fez tudo isso?" eu sussurrei, atônita.
Lucian deu de ombros, quase envergonhado. "Você gostou?"
Uma emoção quente surgiu por trás dos meus olhos.
Eu me abracei, não por frio, mas pela forte emoção que senti. "Ninguém nunca... fez nada assim por mim antes."
Ele inclinou a cabeça, me estudando como se estivesse memorizando o momento. "O que posso dizer? Todos os homens que você conheceu antes de mim foram tolos. Você merece todo o amor do mundo, Sera."
Minha garganta se fechou, mas consegui soltar uma risada trêmula. "Cuidado, Lucian. Se continuar falando assim, posso acabar acreditando."
"Espero que acredite." Ele estendeu a mão novamente com a palma aberta e firme. "Porque todas as palavras são verdadeiras."


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Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei