PPERSPECTIVA ONTO DE VISTA DA CELESTE
Saí da casa com uma fúria tão intensa dentro de mim que parecia capaz de arrancar a pele dos meus ossos. Era um tipo de calor antigo e familiar, um que eu costumava usar como armadura quando criança todas as vezes que as coisas não saíam do meu jeito. Mas agora, não era mais algo infantil. Era diferente.
Era uma raiva profunda, adulta, daquelas que vêm da traição, da humilhação. E, diferente de quando eu era criança, ninguém corria para fazer o que eu queria só para me agradar.
Meus saltos batiam contra a calçada como uma pontuação raivosa, ecoando de volta para mim no ar fresco da noite. O ritmo não era apenas um som, era a única coisa que me mantinha conectada a mim mesma, lembrando-me de que eu ainda tinha poder, ainda tinha presença.
Saí pelos portões da mansão, desci a rua e... Eu nem sabia para onde estava indo. Meu corpo se movia antes da minha mente, alimentado pela indignação, pela recusa de passar mais um segundo naquela mesa ouvindo eles falando aquele monte de besteira.
Atrás de mim, não havia nada, nenhum passo apressado, nenhuma voz chamando o meu nome. Nem o Ethan nem a minha mãe vieram atrás de mim e a ausência deles foi como um tapa na cara, uma indiferença cruel, pesada e sufocante pressionando sobre mim. E doía, de um jeito afiado e íntimo, como só a família consegue fazer doer.
Como eles se atreviam?
Como eles se atreviam a sentar naquela mesa, com aquele jantar perfeito, e falar da pobrezinha, incompreendida Sera como se ela fosse a vítima? Como se ela não tivesse destruído a nossa família na noite em que despedaçou o meu coração?
Ela era a vilã e, mesmo assim, de algum jeito, eles agiam como se ela merecesse compaixão, Como se a história de vida triste e patética dela justificasse o caos que ela deixava por onde passava. Como se o sofrimento dela fosse maior que o meu, quando ela foi a causadora de tudo.
Minha própria família de sangue me tratava como se eu fosse a intrusa, como se eu fosse a que não pertencia ali.
Era grotesco.
Eu era a leal, a que carregava o nome da família como uma coroa, a que me moldava da forma como a minha mãe exigisse.
Celeste, a perfeita, a polida, a preciosa.
Eu era a filha perfeita, a irmã perfeita.
E, ainda assim, eles se atreviam a colocá-la em um pedestal e me deixar no chão, na lama.
Eu não merecia isso de jeito nenhum.
E eu não ia aceitar isso de jeito nenhum.
Arranquei o celular da bolsa e liguei para o número do Kieran. Ele atendeu após apenas um toque com uma voz fria e distraída.
"Celeste, tô numa reunião." Só isso. Sem calor, sem carinho.
Minhas palavras saíram aos tropeços, sem tomar fôlego, desesperadas. Com certeza ele ouviria a aflição e o pedido implícito na minha voz. "Kieran, tô tão chateada! Você não vai acreditar no que a Mamãe e..."
"Eu disse que tô numa reunião, Celeste. Se for urgente, peça ao motorista pra te levar aonde quiser. Você tem o meu cartão, não hesita em usá-lo como desejar. Falo com você mais tarde."
A linha caiu.
Olhei para a tela brilhante, incrédula. A rejeição era cortante como vidro. Eu estava presa no meu peito, me machucando a cada tentativa de respirar.
Quando isso aconteceu?
Como isso aconteceu?
Como eu passei de orgulho da minha família e favorita do Kieran para... uma... abandonada?
Eu sou Celeste Eloise Lockwood, pelo amor dos Deuses!
A adoração era meu direito de nascença. Eu nunca precisei lutar para estar no centro das atenções, eu SOU o centro das atenções.
Meu riso iluminava os ambientes, minha beleza atraía olhares, meu charme conseguia confundir até as mentes mais afiladas. Lealdade nunca foi algo que eu implorei, ela vinha rastejando até mim, desesperada, inevitável, como mariposas atraídas por uma chama.
A ideia de perder esse magnetismo, de deixar de ser a gravidade em torno da qual todos giravam, era insuportável.
Eles não tinham o direito de desviar o olhar.
A Sera não tinha o direito de fazer com que olhassem para ela.
Joguei o celular no chão com força e ele deslizou pela calçada com um som estalado satisfatório. Alguns pedestres me observaram de relance e eu devolvi a eles um olhar afiado, desafiando-os a comentar. Eles desviaram o olhar. Ótimo. Que fiquem assim. Pelo menos os estranhos ainda lembravam que deveriam temer a mim.
"Dirija," ordenei ao motorista que o Kieran havia me designado quando entrei no banco de trás do carro. "Me leve pro shopping. Agora."
As palavras saíram secas, cheias de veneno. Controle, eu me lembrei. Poder. Se eles não me dessem isso, eu pegaria de volta, pouco a pouco.
Ele se apressou para obedecer. Quando chegamos ao shopping, meu sangue tinha esfriado e seguido para um lugar escuro, mais pesado. Raiva era uma coisa, mas humilhação... isso era veneno que corroía lentamente, deixando apenas amargura. E, nossa, como corroía. Eu já sentia aquele sentimento me atingindo, roendo a minha compostura e deixando apenas a dor de ser descartada e diminuída.
Eu não ia ficar em casa como um animalzinho abandonado. Se ninguém quisesse me escolher, então eu me escolheria. Isso, eu não ia implorar pelo carinho deles, não ia esperar que eles recobrassem consciência, não ia me encolher nas sombras como a Seraphina.
Eu lembraria a todos por que o mundo girava ao meu redor.
A primeira coisa que fiz foi comprar um celular novo. E, assim que o nerd cheio de espinhos que atendia o balcão o configurou, eu convoquei as poucas pessoas que ainda sabiam como girar na minha órbita: minhas amigas, se é que dava para chamá-las assim. Do jeito delas, elas era leais à mim, ao espetáculo, ao drama. No momento, isso era suficiente.
"Celeste, oi!" A voz da Abby explodiu através da linha. Ela estava sempre animada, sempre entusiasmada, uma labradora em saltos de grife.
"Me encontre no shopping e traga a Emma. Preciso de vocês duas."
Não expliquei, não implorei. Elas vieram porque sempre vinham, porque era um privilégio ser convocada por mim.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei