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Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei romance Capítulo 109

PERSPECTIVA DA SERAPHINA

Meus dias de folga eram tão raros e preciosos quanto joias escondidas. Sem rígidos horários de treino. Sem exercícios sádicos ameaçando me matar. Sem a treinadora psicótica fazendo o possível para estourar os meus tímpanos.

A única desvantagem era que eu estava tão acostumada com movimento e ação que passei apenas vinte minutos a mais na cama do que era de costume antes de ficar inquieta demais e saltar dela.

Voltei minha energia para a casa. Cuidei da pia cheia de louça, limpei as prateleiras e até dobrei a roupa limpa que tinha se transformado numa mini montanha, passando de tarefa em tarefa até que os cômodos ficassem mais leves.

Quando terminei, o piso brilhava e a casa estava com um cheiro suave de produto de limpeza de limão e aromatizador de lavanda.

Ainda assim, não era suficiente. A inquietação persistia, correndo através das minhas veias. Meu olhar se desviou para a janela, onde o gramado esperava coberto de folhas secas como um desafio silencioso.

Peguei o rastelo e saí. O ar do final do verão me envolveu, carregado com o cheiro de grama e torta de maçã vindo da janela aberta de uma cozinha.

Minha vizinha, Sra. Harlow, acenou do alpendre enquanto o seu terrier latia como se tivesse uma grande notícia para me dar.

Eu raramente conversava com meus os vizinhos, mas uma vez emprestei uma xícara de açúcar para a Sra. Harlow, e ela decidiu que eu era a sua nova melhor amiga.

"Vai jardinar hoje, querida?" ela chamou.

Sorri, ajeitando uma mecha de cabelo atrás da orelha. "Vou tentar, antes que o meu jardim da frente vire uma selva e me engula."

Ela deu uma risadinha, depois começou a falar brevemente sobre o neto que ia começar a escola no outono.

Era o tipo de conversa singela que não deveria significar muito. Mas, para mim, significava. Falar sobre crianças, escola e o clima, tratar de coisas comuns e mundanas por cinco minutos parecia quase um luxo.

Gastei as últimas energias que me restavam no mercado de agricultores e, quando eu estava caminhando pela entrada de casa, com as sacolas de compras cortando as palmas das minhas mãos, cantarolei feliz, porque a melhor parte do meu dia ainda estava por vir. O Lucian viria mais tarde, após resolver alguns assuntos, e íamos cozinhar juntos. Outra coisa aparentemente simples que fazia meu coração saltar.

Acho que era a ideia de fazer tarefas domésticas e cotidianas. O Kieran e eu nunca preparamos nem uma torrada juntos, quem dirá uma refeição inteira. Além disso, pensar no Lucian na minha cozinha, com as mangas arregaçadas, enquanto discutíamos sobre qual receita era a melhor, fazia um sorriso bobo e empolgado surgir no meu rosto.

Mas, é claro, eu sou a Seraphina, e passar um dia inteiro correndo tudo bem para mim era simplesmente inimaginável.

Meu sorriso desapareceu quando congelei ao pé dos degraus da varanda, encarando a razão de todo o meu tormento.

Celeste estava na porta da minha casa como se fosse dela, com o sol do final da tarde pintando o seu cabelo de dourado e uma postura toda graciosa e despreocupada.

Meu coração afundou no estômago e o bom humor se esvaiu de mim como água por uma peneira. Apertei as sacolas de compras e respirei fundo, longa e profundamente.

Então, desviei o olhar por ela como se fosse apenas uma sombra. Talvez se eu a ignorasse por tempo suficiente, ela desapareceria no ar. Ah, como eu gostaria que isso acontecesse...

"Sera." A mão dela disparou, agarrando a minha antes que eu pudesse girar a chave. Seu toque era leve, enganadoramente delicado, como uma cobra testando o calor da sua presa. "Espere. Por favor. Não vim aqui pra brigar."

Levantei os olhos devagar, cuidando para que a minha expressão não revelasse nada e deixando que o meu silêncio fosse resposta suficiente.

"Vim me desculpar," ela disse, as palavras saindo da sua boca com a suavidade de um ator recitando falas bem ensaiadas.

Quase ri. Desculpar?

Estávamos realmente repetindo a farsa do spa de novo?

Celeste Lockwood não se desculpava. Ela manobrava, distorcia, cortava. E não admitia culpa por nada.

Ainda assim, eu não disse nada e soltei a minha mão.

"A Mãe..."

Perdi momentaneamente a compostura e estremeci. A Celeste percebeu e insistiu: "Durante o jantar outro dia, ela falou de você. Com saudade. Disse que esperava que você fosse jantar lá em casa algum dia desses. Ela sente sua falta, Sera. Todos nós sentimos."

'Todos nós sentimos.'

Eu conseguia lidar com a Celeste irritante. Eu conseguia lidar com a Celeste amarga, ácida, tóxica.

Mas quando ela fazia isso...

Quando fingia que realmente tinha um coração batendo dentro do peito, como se fôssemos realmente uma família que pudesse se importar uns com os outros...

Isso doía mais do que eu gostaria de admitir.

Porque eu sabia que fazia parte do teatro dela e fazia eu me sentir estúpida por desejar que não fosse.

"Tô ocupada," eu disse secamente, voltando a estender a mão para a porta.

Mas a Celeste, como sempre, estava preparada. Da sua bolsa, ela tirou um álbum de fotos grosso, desgastado nas bordas e com a capa desfiada pelo tempo.

Ela o empurrou na minha direção como uma oferta de paz. "A Mãe queria que você ficasse com isso. Fotos antigas. Lembranças."

Eu deveria ter entrado e batido a porta na cara da Celeste, mas algo dentro de mim hesitou (tolamente, admito).

Uma parte de mim, a criança que eu fui um dia, ainda queria migalhas da minha família, ainda desejava uma prova de que eu tinha importado o suficiente para ser preservada em fotografias. Então, eu aceitei.

Mas não deixaria ela entrar na minha casa de jeito nenhum.

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