PERSPECTIVA DA SERAPHINA
Meus dias de folga eram tão raros e preciosos quanto joias escondidas. Sem rígidos horários de treino. Sem exercícios sádicos ameaçando me matar. Sem a treinadora psicótica fazendo o possível para estourar os meus tímpanos.
A única desvantagem era que eu estava tão acostumada com movimento e ação que passei apenas vinte minutos a mais na cama do que era de costume antes de ficar inquieta demais e saltar dela.
Voltei minha energia para a casa. Cuidei da pia cheia de louça, limpei as prateleiras e até dobrei a roupa limpa que tinha se transformado numa mini montanha, passando de tarefa em tarefa até que os cômodos ficassem mais leves.
Quando terminei, o piso brilhava e a casa estava com um cheiro suave de produto de limpeza de limão e aromatizador de lavanda.
Ainda assim, não era suficiente. A inquietação persistia, correndo através das minhas veias. Meu olhar se desviou para a janela, onde o gramado esperava coberto de folhas secas como um desafio silencioso.
Peguei o rastelo e saí. O ar do final do verão me envolveu, carregado com o cheiro de grama e torta de maçã vindo da janela aberta de uma cozinha.
Minha vizinha, Sra. Harlow, acenou do alpendre enquanto o seu terrier latia como se tivesse uma grande notícia para me dar.
Eu raramente conversava com meus os vizinhos, mas uma vez emprestei uma xícara de açúcar para a Sra. Harlow, e ela decidiu que eu era a sua nova melhor amiga.
"Vai jardinar hoje, querida?" ela chamou.
Sorri, ajeitando uma mecha de cabelo atrás da orelha. "Vou tentar, antes que o meu jardim da frente vire uma selva e me engula."
Ela deu uma risadinha, depois começou a falar brevemente sobre o neto que ia começar a escola no outono.
Era o tipo de conversa singela que não deveria significar muito. Mas, para mim, significava. Falar sobre crianças, escola e o clima, tratar de coisas comuns e mundanas por cinco minutos parecia quase um luxo.
Gastei as últimas energias que me restavam no mercado de agricultores e, quando eu estava caminhando pela entrada de casa, com as sacolas de compras cortando as palmas das minhas mãos, cantarolei feliz, porque a melhor parte do meu dia ainda estava por vir. O Lucian viria mais tarde, após resolver alguns assuntos, e íamos cozinhar juntos. Outra coisa aparentemente simples que fazia meu coração saltar.
Acho que era a ideia de fazer tarefas domésticas e cotidianas. O Kieran e eu nunca preparamos nem uma torrada juntos, quem dirá uma refeição inteira. Além disso, pensar no Lucian na minha cozinha, com as mangas arregaçadas, enquanto discutíamos sobre qual receita era a melhor, fazia um sorriso bobo e empolgado surgir no meu rosto.
Mas, é claro, eu sou a Seraphina, e passar um dia inteiro correndo tudo bem para mim era simplesmente inimaginável.
Meu sorriso desapareceu quando congelei ao pé dos degraus da varanda, encarando a razão de todo o meu tormento.
Celeste estava na porta da minha casa como se fosse dela, com o sol do final da tarde pintando o seu cabelo de dourado e uma postura toda graciosa e despreocupada.
Meu coração afundou no estômago e o bom humor se esvaiu de mim como água por uma peneira. Apertei as sacolas de compras e respirei fundo, longa e profundamente.
Então, desviei o olhar por ela como se fosse apenas uma sombra. Talvez se eu a ignorasse por tempo suficiente, ela desapareceria no ar. Ah, como eu gostaria que isso acontecesse...
"Sera." A mão dela disparou, agarrando a minha antes que eu pudesse girar a chave. Seu toque era leve, enganadoramente delicado, como uma cobra testando o calor da sua presa. "Espere. Por favor. Não vim aqui pra brigar."
Levantei os olhos devagar, cuidando para que a minha expressão não revelasse nada e deixando que o meu silêncio fosse resposta suficiente.
"Vim me desculpar," ela disse, as palavras saindo da sua boca com a suavidade de um ator recitando falas bem ensaiadas.
Quase ri. Desculpar?
Estávamos realmente repetindo a farsa do spa de novo?
Celeste Lockwood não se desculpava. Ela manobrava, distorcia, cortava. E não admitia culpa por nada.
Ainda assim, eu não disse nada e soltei a minha mão.
"A Mãe..."
Perdi momentaneamente a compostura e estremeci. A Celeste percebeu e insistiu: "Durante o jantar outro dia, ela falou de você. Com saudade. Disse que esperava que você fosse jantar lá em casa algum dia desses. Ela sente sua falta, Sera. Todos nós sentimos."
'Todos nós sentimos.'
Eu conseguia lidar com a Celeste irritante. Eu conseguia lidar com a Celeste amarga, ácida, tóxica.
Mas quando ela fazia isso...
Quando fingia que realmente tinha um coração batendo dentro do peito, como se fôssemos realmente uma família que pudesse se importar uns com os outros...
Isso doía mais do que eu gostaria de admitir.
Porque eu sabia que fazia parte do teatro dela e fazia eu me sentir estúpida por desejar que não fosse.
"Tô ocupada," eu disse secamente, voltando a estender a mão para a porta.
Mas a Celeste, como sempre, estava preparada. Da sua bolsa, ela tirou um álbum de fotos grosso, desgastado nas bordas e com a capa desfiada pelo tempo.
Ela o empurrou na minha direção como uma oferta de paz. "A Mãe queria que você ficasse com isso. Fotos antigas. Lembranças."
Eu deveria ter entrado e batido a porta na cara da Celeste, mas algo dentro de mim hesitou (tolamente, admito).
Uma parte de mim, a criança que eu fui um dia, ainda queria migalhas da minha família, ainda desejava uma prova de que eu tinha importado o suficiente para ser preservada em fotografias. Então, eu aceitei.
Mas não deixaria ela entrar na minha casa de jeito nenhum.
Ela era a doce e altruísta Celeste. E eu era a inútil e defeituosa Seraphina.
Foi a primeira vez na minha vida que senti uma raiva tão intensa que me fez perder o controle. E, até hoje, lembro da satisfação fria que me percorreu quando empurrei a Celeste na minha fúria. Ela caiu e arranhou as palmas das mãos, mas gritou como se eu tivesse usado uma serra no seu pulso.
A Alcateia agiu como se eu tivesse cometido crime indescritível. Foi a primeira vez que senti a palmada do meu pai no meu rosto.
A partir daí, o desprezo deles passou a ter uma ponta mais afiada e cruel.
Mais do que ser patética, sem loba e excluída, eu era a louca que machucou a irmã que se importava comigo.
De volta ao presente, a Celeste piscou para mim com um leve sorriso no canto dos lábios. Por um instante, pensei que ela continuaria com a farsa, mas ela se inclinou mais perto, seu perfume me envolvendo e o seu sussurro venenoso. "Claro que eu contei pra todo mundo de propósito. Você realmente achou que eu ia deixar você usar a sua fraqueza pra receber compaixão? Não, o que você merece é desprezo."
Deuses, minha irmã nunca pareceu tão feia quanto naquele momento. "Sera, a patética sem loba. Nascida e marcada pela própria Deusa da Lua como corrompida. E você pode treinar o quanto quiser. Pode chutar, socar e correr, mas nunca, jamais será mais do que é..." Seus lábios se curvaram e ela deixou os dentes à mostra. "Defeituosa."
A cabeça da Celeste virou para o lado e o cabelo caiu para a frente enquanto o estalo da minha mão na sua bochecha ecoava ao nosso redor.
Por um momento, silêncio. Então, ela riu. Uma risada baixa, assustadora, arrepiante. Um som que gelou o ar.
"Você é tão previsível," ela sussurrou, com os olhos brilhando.
Ela foi se afastando, mas sem me tirar os olhos de mim, e começou a andar para trás. "É por isso que você sempre ficará pra trás."
Passo a passo, ela se afastava, o sorriso se transformando em algo feroz e instintivo. "É por isso que você nunca terá a vida que deseja."
Ela parou na minha calçada e ergueu a voz. "É por isso que eu sempre vou ganhar."
Eu franzi a testa. "O quê..."
Ela deu um passo para a rua.
"Celeste, sai da..."
"Você não é a único que sabe fingir uma crise, querida." Ela piscou.
E, em um movimento calculado, se deixou cair. Para trás.
Um grito saiu da minha garganta enquanto uma buzina soava. Pneus guincharam.
Então, impacto.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei
Finalmente toda a verdade do Lucian veio à tona. Só não faz sentido ele saber antes de qualquer pessoa (inclusive família) que a Zara era prima. Cadê a tia irmã de Margareth então? Porque Sera e Margareth foram mais importantes para Catherine do que esse outro braço da família?...
Quero saber até onde o Lucian estar envolvido com Katherine e Marcos...
Ok, sera não aceitar o vínculo. Agora deixa o Kieran seguir a vida dele em paz...
Tá muito bom os capítulos...
Preciso de ajuda pra comprar moedas, não consigo completa minha compra...
Sera era uma bobinha manipulada e do nada se tornou fodona. A autora exagerou demais. Comecei a ler uma romance onde o começo imita uma história que já existe e depois, a autora acrescentou "os mutantes" na história. Kkkkk Mas os capítulos que abrem essa história nada mais é do quem o plágio de uma história que já existe. A irmã, o marido que gosta da irmã, a noite em que a irmã errada dorme com o cara, casa com ele tem um filho. O divórcio e só depois ele começa a gostar dela... Enfim, copiou na cara dura....
Livro muito bom!!! Sem muita enrolação e historia com enredo e fluxo. Aguardando próximos capítulos e o encerramento breve!!!...
SERAPHINA é muito fraca e idiota,Catherine manipula ela fácil fácil, eu ia lá se sacrificar por uma pai uma família que sempre me tratou mal, eles que se virem...
Escritora por favor, melhora isso aí, Sera fez o ex marido comer o pão que o diabo amassou, botou homens na cara dele, agora a cobra da irmã dela baixa o espírito de Santa e Sara na primeira oportunidade já vai abraçar, me poupe, mais criatividade por favor...
Quando Sera vai descobrir a peste falsa e manipulador que lucian é?? Ele ainda foi embora com o amor da vida dele e ainda deixou a Sera responsável pelos negócios dele, Sera é muito idiota,...