PERSPECTIVA SERAPHINA
Horas depois, eu ainda conseguia ouvir o guincho dos pneus e ver o balanço nauseante do corpo da Celeste, o borrão do cabelo dela enquanto caía de lado na rua.
Mesmo depois dela desaparecer na ambulância, e eu entrar atrás dela, depois das sirenes nos levarem pelo asfalto, do terrier da Sra. Harlow correr atrás do veículo, meu peito não tinha relaxado.
Eu estava em um nevoeiro e o mundo que antes era tranquilo, de repente, estava brilhante demais, barulhento demais, rápido demais.
E tão absurdamente confuso.
Eu não conseguia entender.
'Você não é a único que sabe fingir uma crise, querida.'
Lembrei de uma vez em que a Celeste não teve nada mais do que um corte de papel e agiu como se estivesse mortalmente ferida. Ela gritou que podia ver o osso, exigiu uma ambulância e até se espalhou pela chiasse como uma heroína trágica nos seus últimos suspiros de vida.
O médico da família foi chamado e, quando chegou, o corte já tinha parado de sangrar. A Celeste tirou proveito disso por semanas, se recusando a fazer tarefas, desfilando com um curativo inútil e suspirando dramaticamente sempre que alguém pedia para ela levantar algo, mesmo que fosse um livro.
A Celeste sempre foi cruel, astuta e ridiculamente dramática. Mas isso? Se jogar na frente de um carro em movimento?
Meu cérebro lutava para entender a imagem, como se não conseguisse encontrar a lógica ou encaixar a pura insanidade no perfil da mulher que eu achei que conhecia.
Na ala de emergência, tudo acontecia rapidamente, em um borrão vertiginoso.
Enfermeiras com uniformes claros se moviam com pressa e precisão aguda, falando códigos e fazendo pedidos.
As portas de correr rangiam atrás de mim repetidamente enquanto mais pessoas entravam com pressa.
Minha mãe foi a primeira a chegar. Seus saltos faziam um barulho alto como o de tiros no linóleo e o casaco de pele arrastava pelo chão. Seu batom estava impecável, mas o seu rosto era uma máscara de pânico contido. Apenas as leves manchas de rímel sob seus olhos revelavam sua aflição. "Cadê ela? A minha filha... Cadê a Celeste?"
Automaticamente, eu me encolhi, lembrando mais uma vez que a filha que os meus pais procuravam sempre seria a Celeste.
E então o Ethan apareceu, alto e sério, sua mão roçando o ombro dela como se pudesse acalmar a tempestade.
A presença dele deveria ter me dado equilíbrio. Talvez até tivesse esse efeito na minha mãe. Em vez disso, me desestabilizou ainda mais.
Ele lançou um breve olhar para mim. Sua expressão era indecifrável, fria talvez, ou apenas atônita. Eu não conseguia distinguir.
Finalmente, o Kieran chegou. Seus passos eram longos e urgentes e o cabelo estava úmido por causa da garoa que havia começado a cair lá fora.
Quando os olhos dele se fixaram em mim, algo indecifrável piscou neles. Suspeita? Preocupação? Eu não consegui definir antes que a conexão se desfizesse.
Foi desorientador ver todos eles chegando como uma onda e sugando o ar da sala de espera, me deixando à deriva no centro. Era estranhamente familiar à sensação de quando o meu pai estava no leito de morte. As semelhanças me incomodavam tanto que quase ri da absurdidade.
Eles correram para o hospital pelo meu pai, correram pela dramática da Celeste. Mas ninguém correu assim quando eu quase morri dando à luz ao Daniel.
Eu deveria ter ido embora assim que todos chegaram, deveria saber que reunir todos nós e com emoções à flor da pele não acabaria bem.
Mas eu continuava vendo a Celeste no asfalto, continuava ouvindo o barulho dos pneus freando. Eu ficaria só o tempo suficiente para saber que ela estava bem. Ela era completamente maluca, mas anda era, infelizmente, minha irmã.
Depois de um tempo, um médico apareceu, baixando a máscara. Todos se aproximaram para ouvir as notícias: "Ela está estável. Uma concussão leve, uma fratura no pulso, algumas escoriações nas costelas e outros pequenos arranhões. Vamos mantê-la em observação, mas ela está fora de perigo."
O alívio tomou conta da sala de espera... deles. Minha mãe soltou o ar como se estivesse prendendo a respiração há horas e segurou a manga do Ethan enquanto ele apoiava o cotovelo dela.
Kieran descravou a mandíbula e seus músculos foram relaxando enquanto ele passava a mão pelo rosto, como se a tensão fluísse para fora dele.
Eu deveria ter sentido o mesmo: alívio e gratidão por ela não ter nenhum ferimento que deixaria sequelas.
Mas, em vez disso, tudo o que senti foi aquele aperto no estômago, a vertigem por tê-la visto quase se destruir para chamar atenção.
"Você não é a único que sabe fingir uma crise, querida."
Após as notícias do médico, houve um movimento de suspiros aliviados se transformando em acenos urgentes enquanto a enfermeira gesticulava para que a seguíssemos.
Os corredores estéreis pareciam zumbir com luzes brilhantes e passos altos enquanto caminhávamos no nosso pequeno desfile de rostos tensos e mãos cerradas.
Eu andei com eles, embora cada passo parecesse desconectado, como se eu estivesse flutuando acima do meu próprio corpo.
No quarto, Celeste estava encostada em uma pilha de travesseiros, parecendo muito mais frágil do que eu jamais a tinha visto. E, ainda assim, de algum jeito, ela impecavelmente arrumada do jeito que só a Celeste poderia estar. Seu cabelo estava em ondas perfeitas sobre os ombros, o braço envolto em um gesso e as costelas cobertas por ataduras que espreitavam por baixo da camisola do hospital.
Era o tipo de imagem que exigia simpatia. Ela era delicada, sensível.
E então, é claro, ela começou a falar.
"Ela..." A voz da Celeste falhou quando os seus olhos se fixaram em mim. A pele dela estava pálida e os lábios brilhantes. "O que ela tá fazendo aqui?"
Eu estava começando a me perguntar a mesma coisa.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei