PERSPECTIVA DA SERAPHINA
O aperto do Ethan não era áspero, mas firme, inabalável. A chuva escorria pelo rosto dele, dificultando a leitura da sua expressão. No entanto, havia algo suave nos seus olhos... hesitação, talvez até arrependimento.
"Vou te levar pra casa," ele disse simplesmente.
A oferta me chocou mais do que o quase tapa da minha mãe e a acusação da Celeste. Por um momento, apenas o encarei, piscando para afastar as gotas de chuva dos meus cílios.
Algo se contorceu no meu peito, feridas antigas e novas se encontrando. Eu queria mandar ele me soltar, me largar na chuva, deixar eu me desfazer até não sobrar nada.
Puxei o meu braço de volta. "Não, obrigada." Minha voz saiu mais afiada do que eu pretendia, mas eu não a suavizei. "Se você tá planejando outro sermão, Ethan, não perca seu tempo. Não tô com paciência. E se você insistir, bem..." Lancei um olhar para ele que era tanto um aviso quanto uma promessa, "agora posso me defender."
Ele não recuou. Na verdade, ele parecia estar... quase querendo rir. "Não duvido," ele disse. "A Maya não para de te elogiar. Ela diz que você é a melhor aluna dela. Se alguém pode me derrubar hoje em dia, esse alguém provavelmente é você."
Pisquei, pega de surpresa pela ausência de sarcasmo. O tom dele era direto, não zombeteiro.
Ainda assim, cruzei os braços. "Então, mais uma razão pra você sair do meu caminho. Volte pra Celeste. É ela quem tá hospitalizada, não eu."
"Eu sei que ela vai ficar bem," ele disse, sem hesitação.
A certeza na sua voz me surpreendeu e eu levantei uma sobrancelha. "Você parece muito seguro pra alguém cuja irmã acabou de ser atropelada."
"Eu tenho certeza," ele reforçou, desta vez mais suavemente, de modo que eu tive que me esforçar para ouvi-lo por causa da chuva forte.
Então, o olhar dele voltou para mim, firme. "E, se serve de consolo, eu não acredito que você a empurrou."
As palavras me atingiram como um golpe. Não porque eu precisasse da validação dele (não precisava, não mais), mas porque fazia muito tempo desde que alguém daquela família tinha acreditado em algo que eu dizia.
Tentei rir, mas soou inseguro. "Perfeito então. Isso desfaz todos os anos de desprezo e desdém."
Ele não reagiu à provocação. Em vez disso, apenas acenou em direção ao carro estacionado na calçada. "Vamos. Do jeito que você tá... não deveria ir pra casa sozinha."
Afastei um tufo de cabelo molhado do rosto. "Eu tô bem."
"Não tá," ele disse suavemente. "A Maya vai me matar se eu deixar você ir andando para casa debaixo de chuva. E..." Ele hesitou, como se estivesse engolindo algo difícil. "É meu dever. Como seu irmão."
A palavra irmão ficou martelando nos meus ouvidos como um espinho. Meu irmão. Quando ele havia agido como tal? Por que agora estava escolhendo ficar ao meu lado em vez de ao lado da Celeste, depois de todos esses anos?
Meu instinto era recusar, caminhar na chuva e provar que eu não precisava de nenhum deles.
Mas o meu corpo estava me traindo. Minhas pernas estavam trêmulas e o meu peito apertado. O frio já estava enfiando-se nos meus ossos e a ideia de ficar na calçada esperando um táxi nesta tempestade de repente me pareceu insuportável.
"Tudo bem," eu murmurei, passando por ele e indo em direção ao carro. "Mas se eu sentir o cheiro de um sermão, me jogo porta afora."
Ele riu. "Aí você e a Celeste podem virar colegas de quarto."
Me virei e lancei um olhar para ele, fazendo com que ele imediatamente fechasse a boca, seus lábios se contorcendo com o esforço.
Virei-me antes que ele pudesse me ver lutar contra o meu próprio sorriso.
O interior do carro tinha um leve cheiro de couro e algo familiar. O cheiro da Maya, percebi, com um sorriso relutante.
Sentei no banco do passageiro, pingando chuva sobre o tapete. Ethan entrou do lado do motorista, ligou o motor e imediatamente aumentou o aquecedor.
"Toma," ele disse, me entregando um moletom grosso que estava no banco de trás.
Aceitei com gratidão e o vesti, abraçando os meus braços ao redor de mim mesma.
Por um tempo, o único som no carro era o farfalhar dos limpadores cortando a tempestade.
Então, o Ethan se esticou e mexeu no botão do rádio. Momentos depois, a música preencheu o espaço, suave no começo.
As palavras me fizeram querer desviar o olhar, mas não consegui. Meu peito doía, como se ele estivesse abrindo uma ferida que eu havia enterrado sob uma cicatriz.
"Você acha mesmo isso?" Minha voz saiu baixa e áspera. "Que sou incapaz de ser cruel? Você literalmente acabou de dizer que eu mudei, mas não sabe até que ponto. Você ficaria surpreso com o que podemos aprender a suportar quando somos levados ao limite."
Aí estava a verdade profunda e perturbadora: se eu estivesse em frente à Celeste naquele momento e visse o carro se aproximando na rua, não sei se não teria empurrado ela.
E eu não sabia o que fazer com essa informação.
Ele balançou a cabeça. "Não você. Algumas coisas não mudam, Sera. Não o cerne de quem somos. Eu me lembro de você se recusando a comer frango por semanas porque viu um ser morto no quintal. Você chorou e chegou a ficar doente por causa disso. Essa menina não empurraria a irmã na frente de um carro."
A memória me atingiu como um soco traiçoeiro, vívida e constrangedora. Meu eu mais jovem, devastada por algo tão pequeno.
Senti-me exposta, como se ele tivesse puxado de dentro de mim uma versão que eu mesma não me permitia lembrar há anos.
"Talvez aquela menina tenha desaparecido," eu sussurrei.
"Talvez ela ainda esteja aí," ele disse baixinho.
O silêncio se prolongou. Os limpadores de para-brisa chiavam de um lado para o outro. Meu reflexo na janela marcada pela chuva parecia pálido, cansado, irreconhecível até para mim.
Parte de mim ainda queria reagir, acusá-lo de ter segundas intenções, dizer que eu não era idiota o bastante para acreditar na mudança dele à essa altura do campeonato.
Mas, outra parte, menor e mais silenciosa, simplesmente se sentia cansada, cansada demais para continuar diferenciando a sinceridade das mentiras.
Então, recostei a cabeça no banco e fechei os olhos. "Que seja, Ethan. Acredite no que quiser. Agora, só quero chegar em casa."
"Então é isso que faremos," ele disse e, pela primeira vez, não insistiu mais.
Percorremos o resto do caminho em um silêncio desconfortável e a tempestade diminuiu até virar um chuvisco. Eu quase consegui imaginar que isso refletia a tensão diminuindo entre nós.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei
Finalmente toda a verdade do Lucian veio à tona. Só não faz sentido ele saber antes de qualquer pessoa (inclusive família) que a Zara era prima. Cadê a tia irmã de Margareth então? Porque Sera e Margareth foram mais importantes para Catherine do que esse outro braço da família?...
Quero saber até onde o Lucian estar envolvido com Katherine e Marcos...
Ok, sera não aceitar o vínculo. Agora deixa o Kieran seguir a vida dele em paz...
Tá muito bom os capítulos...
Preciso de ajuda pra comprar moedas, não consigo completa minha compra...
Sera era uma bobinha manipulada e do nada se tornou fodona. A autora exagerou demais. Comecei a ler uma romance onde o começo imita uma história que já existe e depois, a autora acrescentou "os mutantes" na história. Kkkkk Mas os capítulos que abrem essa história nada mais é do quem o plágio de uma história que já existe. A irmã, o marido que gosta da irmã, a noite em que a irmã errada dorme com o cara, casa com ele tem um filho. O divórcio e só depois ele começa a gostar dela... Enfim, copiou na cara dura....
Livro muito bom!!! Sem muita enrolação e historia com enredo e fluxo. Aguardando próximos capítulos e o encerramento breve!!!...
SERAPHINA é muito fraca e idiota,Catherine manipula ela fácil fácil, eu ia lá se sacrificar por uma pai uma família que sempre me tratou mal, eles que se virem...
Escritora por favor, melhora isso aí, Sera fez o ex marido comer o pão que o diabo amassou, botou homens na cara dele, agora a cobra da irmã dela baixa o espírito de Santa e Sara na primeira oportunidade já vai abraçar, me poupe, mais criatividade por favor...
Quando Sera vai descobrir a peste falsa e manipulador que lucian é?? Ele ainda foi embora com o amor da vida dele e ainda deixou a Sera responsável pelos negócios dele, Sera é muito idiota,...