PERSPECTIVA DA SERAPHINA
Os primeiros momentos de volta à minha casa foram... quietos. Quase chocantemente silenciosos.
Olhei para as sacolas de compras espalhadas que eu havia jogado apressadamente antes de sair correndo na ambulância. O pote de sorvete que estava em uma delas eu sabia que já estava perdido.
Era difícil acreditar que eu ainda estava no mesmo dia que prometia ser pacífico e tranquilo.
Mas, pelo menos agora, eu estava livre do caos. Sem julgamentos, sem acusações ou dores.
Só eu. Só o som da chuva batendo levemente contra a janela e o cheiro da tempestade ainda presente se misturando com o calor suave do lar.
A versão do Ethan no carro permanecia no meu peito como um fantasma que eu não tinha certeza se queria exorcizar.
O percurso de volta para casa ainda me gerava dúvidas. Ele não me deu um sermão, não tentou distorcer as minhas palavras ou me encurralar. Ele só... acreditou em mim.
Pela primeira vez em muito tempo, meu irmão e eu compartilhamos um momento juntos, sem conflitos. Senti um fio de conforto nesse fato, uma fraca, porém brilhante esperança de que talvez, só talvez, nem todas as pessoas em quem confiei estivessem completamente perdidas para mim.
Curiosamente... o Kieran também. Ele ficou ao meu lado, com a sua paciência e a sua defesa tranquilas, mas firmes.
Eu ainda podia sentir o eco da sua presença enquanto ele se colocava entre mim e minha mãe, o calor da sua intervenção sendo como um escudo.
Mas, mesmo com tudo isso, meu peito estava pesado.
Claro, parecia que o divórcio tinha sido algum tipo de despertar. Eu estava começando a ver relances das pessoas que um dia chamei de família e eles estavam começando a agir como se realmente se importassem.
Mas os danos dos anos de pequenas traições, de desprezo, de falta de desconsideração e de pura crueldade não desapareceriam em um único dia. Aquele tipo de dor persistia, instalando-se nos músculos e ossos, no ritmo da minha respiração. Mais de uma década sendo tratada como inferior e sendo subestimada não desapareceria com alguns gestos conciliatórios.
Cansada demais para tomar banho, simplesmente tirei as roupas molhadas e vesti um blusão e uma calça de moletom da SDS. Afundei na cama, abraçando as minhas pernas enquanto a chuva leve lá fora se misturava com o resíduo da tempestade que ainda estava dentro de mim.
Eu precisava tirar da cabeça todos os pensamentos confusos sobre o Ethan e o Kieran. Eu estava me saído bem sem eles até agora. Se eu não tinha precisado deles todo esse tempo, não precisaria deles agora.
Expirei, deixando a tensão escorrer dos meus ombros. Eu precisava fazer alguma coisa para acalmar os meus pensamentos, para me recuperar.
Mudei as pernas, cruzando-as à minha frente, e fechei os olhos. Pressionei as palmas das mãos nos joelhos.
Meditação. Sim, era disso que eu precisava agora. Parecia tão simples, quase risível, mas, assim como das outras vezes em que meditei para encontrar paz, funcionou. Pouco a pouco, minha respiração descompassada começou a se regular, a dor aguda que restava no meu peito aliviou e eu pude sentir a serenidade se instalando.
Só que, desta vez, foi... diferente.
O mundo ao meu redor não apenas se acalmou, ele se expandiu, esticando-se em uma clareza estranha, quase elétrica. Os sons pareciam mais nítidos, mais claros: o leve eco do terrier da Sra. Harlow latindo do outro lado da rua, o zumbido distante de um carro solitário, o delicado tamborilar das gotas de chuva no telhado... tudo se unindo a um ritmo que vibrava no meu peito, sincronizado com algo profundo e instintivo dentro de mim. As cores se tornaram vívidas na minha mente: o cinza das nuvens lá fora brilhava com toques de prata, cada gota na vidraça cintilando como luz de vitral; sombras e brilhos foram realçados, vibrando com uma energia sutil que eu nunca havia notado antes. Meu pulso acelerou com a sensação, com aquela consciência que ia além da visão e do som e atingia uma ressonância que parecia um sussurro interior, algo... familiar.
Como na primeira vez que meditei com o Lucian no Salão da Lua.
E então, vagamente, quase imperceptível a princípio, eu ouvi: o barulho do carro do Lucian descendo a minha rua.
Meus olhos se abriram de repente e, por um instante, meu coração hesitou em descrença.
Será possível? Poderia ser? Isso poderia significar que a minha loba estava despertando, acordando?
A conexão que eu sentia em relances e sussurros antes, agora pulsava com insistência, provocando os meus sentidos.
Meu peito apertou com uma mistura de medo, admiração e uma empolgação contida que me deixou tremendo.
Antes mesmo da campainha tocar, eu já estava na entrada, escancarando a porta. O cheiro da tempestade o seguiu para dentro, misturado com o aroma característico dele: algo quente, almiscarado e inconfundivelmente do Lucian.
Ele mal teve tempo de largar a sacola que carregava antes que eu me atirasse nos seus braços, ignorando a umidade que grudava no meu cabelo e envolvendo os meus braços ao redor do pescoço dele.
A risada dele vibrou através de mim enquanto ele me segurava firme contra o seu corpo forte. "Bom, esse é um jeito novo e agradável de ser recebido."
Me afastei, rindo de forma eufórica. "Acho que consegui senti-la. Acho que a minha loba... Ela tá acordada, ou quase. Não sei. Mas eu estava meditando e senti..."
"Evidência," ele disse, com a voz suave. Ele estava sorrindo gentilmente para mim e seus olhos brilhavam de orgulho. "É a evidência do despertar. Você tá progredindo, Sera. Isso é... bom, muito bom."
Eu dei um gritinho, enterrando a minha cabeça na curva do pescoço dele.
O mundo lá fora desapareceu... tempestade, chuva, o peso do dia. Apenas o Lucian, a solidez dele, o calor dos seus braços ao meu redor e a incrível realidade de que eu estava perto do que nunca da minha loba importavam.
Ele riu e, depois de um tempo, me colocou gentilmente de volta no chão. Ele ainda me segurava e afastou-se apenas o suficiente para me olhar.
"Isso merece uma comemoração," ele declarou. "Que tal deixarmos a cozinha pra outro dia e sairmos pra jantar? Em algum lugar especial?"
E assim, de repente, uma nuvem escura surgiu, obscurecendo o brilho do meu contentamento. Balancei a cabeça, com as bochechas coradas: "Não vou sair de novo. Não hoje." Minha voz tinha uma leve tristeza que eu não consegui esconder e o Lucian percebeu imediatamente.
"Ei," ele disse suavemente. "O que aconteceu?"
Respirei fundo, sacudindo a cabeça. "É... uma longa história."
Ele pegou a minha mão com um toque firme e quente e me guiou até a sala de estar, gentilmente me puxando para o sofá e se sentando ao meu lado.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei