PERSPECTIVA DA SERAPHINA
O último fragmento cintilava vagamente na neblina, como se tivesse nos esperado o tempo todo.
Meus dedos tocaram a pedra áspera sob a luz da lua quando a puxei do emaranhado de raízes onde estava encaixada.
Um tremor percorreu o meu corpo, não pelo esforço, mas pelo significado do gesto.
Conseguimos.
A último vaga era nossa!
Por um instante, nenhum de nós falou. Só ouvíamos a nossa respiração ofegante, o sussurro da névoa que se arrastava ao redor das nossas botas e o brilho suave do fragmento na minha mão.
Então, a Judy riu alto, feroz e cheia de alegria. Ela agarrou o meu braço, me sacudindo com tanta força que o fragmento quase escapou dos meus dedos.
"Nós conseguimos! Nós conseguimos mesmo!"
Finn soltou a respiração como se estivesse segurando há horas, finalmente relaxando os ombros.
A Talia soltou um pequeno gritinho, cobrindo a boca como se rir pudesse ser um pouco demais, mas acabou rindo mesmo assim.
Até a Roxy não conseguiu esconder o brilho nos olhos. Seus lábios se contraíram e, embora ela tentasse se segurar, sua postura relaxou e o seu olhar se suavizou, transformando-se em uma alegria relutante, mas inegável.
Fechei a mão em torno do fragmento, sentindo a força do seu peso frio enquanto ria. "Vamos pra linha de chegada antes que um de vocês desmaie de empolgação."
Nós meio que corremos, meio que tropeçamos pela neblina em direção à clareira onde os marcadores de chegada brilhavam.
E, no momento em que passamos, um anúncio estridente confirmou o que já sabíamos: "Equipe Sete: avanço confirmado. Todas as vagas agora estão preenchidas."
Os aplausos irromperam na minha equipe e um alívio percorreu o meu corpo como uma onda, levando embora o medo e a dúvida que tinham acompanhado cada passo meu.
Um mediador nos entregou distintivos finos e prateados, gravados com o emblema da SDS e o número 9, a nossa nova designação de equipe para a próxima fase. O meu parecia pesar bastante quando o prendi na jaqueta que o Lucian me deu. Passei a mão pelo tecido com reverência, imaginando o sorriso que ele me daria se estivesse ali comigo.
Deuses, como eu sentia falta dele. E da Maya. Ambos estariam tão orgulhosos de mim.
Judy balançava o seu distintivo na corrente como uma medalha. "A gente mereceu." Ela exclamou. "Com certeza merecemos!"
Surpreendentemente, a Roxy não reclamou da empolgação dela e apenas murmurou: "É bom mesmo," mas percebi um leve sorriso em seu rosto.
Talia segurava o seu distintivo com carinho, os olhos brilhando, então me surpreendeu ao sugerir: "A gente devia... a gente devia comemorar. Juntos."
Judy imediatamente gostou da ideia. "Sim!" Ela bateu palmas animadamente. "Vamos sair pra jantar!"
Sorri levemente. "Sim, parece uma boa ideia."
Mais uma vez, a Roxy me surpreendeu ao não protestar. "Desde que não seja aquela gororoba que a cantina tenta passar como guisado."
O rosto da Talia se iluminou. "Conheço um lugar! É tranquilo, acessível e..." Ela corou com a atenção repentina, abaixando a cabeça. "E a comida é incrível. Por favor, deixa eu levar vocês."
Não era apenas entusiasmo na sua voz, era orgulho, como se nos apresentar esse restaurante fosse oferecer um pedaço de si mesma.
Olhei para os outros, depois assenti. "Nos leve até lá."
***
O restaurante estava localizado em uma rua estreita e tinha lanternas emitindo um brilho aconchegante contra a noite fria.
O aroma da carne assando com ervas nos atingiu antes mesmo de entrarmos. Era de dar água na boca.
Após a umidade sufocante da floresta, o calor e o tempero eram como entrar em outro mundo.
Nos apertamos em uma cabine, os distintivos ainda brilhando nos peitos.
Os pratos chegaram logo em seguida, incluindo peixes assados, arroz apimentado e um caldo tão aromático que até o cenho franzido da Roxy se desfez em um aceno relutante.
"Não tá ruim," resmungou ela e, depois de uma mordida, acrescentou com um sorriso: "Não tá ruim não."
As bochechas da Talia estavam coradas e a sua alegria transbordou em risadas. "A comida é uma paixão minha, mas não tenho muita gente com quem compartilhar." Seu sorriso murchou um pouco. "Em casa, meus irmãos me zoavam, tiravam sarro de mim por comer demais. Por isso eu…" Ela fez um gesto para o seu corpo arredondado, hesitante.
O silêncio que se seguiu estava longe de ser cruel, mas pesou.
"Mas na SDS é diferente," ela se apressou em completar, com um sorriso tímido. "Ninguém liga pro meu peso, desde que eu cumpra o meu papel no tatame."
Apertei a mão dela: "Como deve ser."
Então a Judy se inclinou para a frente, espetando um pedaço de peixe com os hashis: "Que se danem os seus irmãos," declarou. "E quem mais te zoou. Azar deles. Isso é amargura pura por não terem ninguém que os guiasse pras alegrias de uma boa comida."
Finn levantou o copo. "À Talia. Que seu paladar sempre nos guie."
O brinde levantou risadas e afastou as sombras do rosto da Talia.
A conversa mudou e foi se soltando a cada mordida, enquanto todos contavam as suas próprias histórias.
Judy compartilhou como entrou na SDS depois de ser ignorada pela divisão de combate da sua Alcateia, repetindo o quanto queria deixar a sua família orgulhosa e garantir uma boa posição para eles.
Apesar de ser alto, o Finn parecia encolher enquanto falava. "Sempre fui menor do que os outros e muito magro pra ser escolhido pra combater. E o meu lobo..." Ele deu de ombros. "Diziam que eu parecia mais um coiote do que um lobo. Não era... nobre o suficiente."
Não havia amargura no seu tom, apenas uma aceitação silenciosa, o que me irritava, aquela crueldade daqueles que desprezavam a força só porque ela não se encaixava no seu padrão.
"Idiotas," a Judy disse de forma direta. "Se eles não conseguem ver o valor incrível que você tem, o problema é deles."

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei