PERSPECTIVA DA SERAPHINA
Quando finalmente cheguei em casa, o cansaço estava profundamente entranhado nos meus ossos e o meu corpo doía em todos os lugares imagináveis. Mas o meu coração estava leve e a empolgação fervilhando dentro de mim impedia que eu simplesmente desabasse na cama. Fiquei um bom tempo olhando para o teto escuro, reprisando o dia como se fosse um filme que eu não conseguia parar de assistir.
A primeira onda de medo quando entramos na Floresta Nebulosa. O arrepio gelado do terror ao encontrar a Roxy quase afogada no pântano. A tensão palpável com a equipe do William. E então, finalmente, o alívio vertiginoso de segurar aquele último fragmento de Pedra da Lua nas minhas mãos, percebendo que havíamos realmente conseguido.
Nem mesmo o breve encontro com a Jessica conseguiu apagar a minha felicidade.
Instintivamente, as minhas mãos buscaram o telefone, mas senti um aperto ao perceber que não poderia contar nem para a Maya nem para o Lucian sobre tudo o que tinha acontecido. Ugh.
Então, peguei o telefone criptografado e liguei para a única outra pessoa com quem eu realmente queria e podia falar. A tela se iluminou com o nome do Daniel e, antes mesmo do primeiro toque terminar, seu rostinho sonolento apareceu, emoldurado pela luz dourada e suave do abajur do seu quarto.
"Mamãe!" Sua voz soou alta e os seus olhos brilharam com uma energia que me inundou de calor.
Sorri tão largo que as minhas bochechas doeram. "Oi, meu amor! Tenho boas notícias!"
"Eu já sei!" Ele levantou um papel, agitando-o tão perto da câmera que tudo que eu vi foi uma confusão de giz de cera azul e prata. "A Vovó e o Vovô me contaram quando ouviram o locutor dizer o nome da sua equipe! Você venceu, Mamãe! Você conseguiu!"
Pisquei surpresa. "Espera, quer dizer... Vocês estavam assistindo? O Christian e a Leona estavam vendo o Torneio?"
Daniel puxou o papel de volta, finalmente revelando a imagem inteira para mim. Era um desenho infantil de cinco figuras segurando uma pedra em forma de estrela e as letras bagunçadas rabiscadas no topo 'Time 7 Campeões'. O giz de cera preenchia a página com uma alegria desordenada: azul para a névoa, prata para o fragmento da Pedra e amarelo para os emblemas. Mas, o que mais me chamou a atenção foram os pequenos acréscimos no canto da página, com a caligrafia cuidadosa do meu filho: Desenhado por Daniel, Vovó e Vovô.
Eu encarei as palavras. "Eles te ajudaram a desenhar?"
"Aham!" Sua voz caiu para um sussurro conspiratório, como se estivéssemos compartilhando segredos. "A Vovó fez a parte brilhante. O vovô disse que as árvores deveriam ser maiores, então ele as desenhou. Mas eu disse a eles que só eu posso desenhar você," seus olhos brilharam, "porque você é minha."
Minha garganta apertou e o ardor das lágrimas inesperadas pinicou os meus olhos: "E... o que eles disseram? Sobre a competição?"
"Que você é incrível. Que você é... Eles disseram que têm orgulho de você." O Daniel se inclinou para mais perto do celular, seu sorriso cobrindo mais da metade da tela. "Eu também, Mamãe. Eu sou o mais orgulhoso."
Por um momento, estive muito ocupada assimilando a informação para processar o final da frase dele.
Orgulho. A Leona. O Christian.
A mesma Leona que uma vez me olhou como se eu fosse uma mancha no nome da família dela.
O mesmo Christian que me encurralava com uma desaprovação fria a cada oportunidade.
Aquilo deveria ter significado mais para mim. Talvez no passado tivesse significado. Mas eu não era mais aquela garota carente de afeto que ansiava pela aprovação dos sogros.
Então, essa noite, eu apenas assenti e guardei o pensamento na parte silenciosa da minha mente, onde eu comecei a armazenar coisas que ainda não estava pronta para analisar.
O orgulho deles não importava, não mais. Somente o do Daniel importava.
"Sendo assim, meu amor, obrigada pelo desenho," sussurrei. Toquei a tela com a ponta dos dedos, desejando poder acariciar seu rostinho quente através dela. "Amo você demais."
"Também te amo, Mamãe!" ele exclamou com entusiasmo. "E vou continuar torcendo por você, tá bom?"
Assenti, piscando para conter as lágrimas. "Obrigada, meu querido."
O sorriso dele se alargou, mas logo foi engolido por um bocejo. "Certo. Boa noite, Mamãe. Ganhe a próxima também, tá? Daí eu faço um desenho ainda maior."
"Vou ganhar," eu disse suavemente, piscando para conter as lágrimas. "Por você."
A chamada terminou, mas a sensação de calor permaneceu, me envolvendo enquanto eu finalmente pegava no sono.
***
A manhã me encontrou no refeitório da SDS, com a neblina pesada da competição do dia anterior substituída pela luz do sol filtrando pelas altas janelas de vidro.
O aroma de café e pão torrado pairava no ar, um conforto bem-vindo depois de um dia de terra úmida e suor.
Hoje era um dia de descanso, sem competições ou treinamentos. Tecnicamente, eu não tinha motivos para estar na SDS.
Eu preferiria passar o dia fazendo compras com a Maya ou relaxando com o Lucian.
Ai, ai.
Eu estava na SDS porque esperava ver um deles. Se não pudéssemos conversar, ao menos poderia acenar para eles de longe, certo?
Talvez fosse patético eu ter me apegado tanto aos meus dois amigos mais próximos, se já não fosse um milagre eu ter dois amigos próximos para começo de conversa.
O refeitório estava animado com conversas nesta manhã.
Risadas ecoavam pelo ambiente, pratos se chocavam e uniformes farfalhavam, criando um som contínuo que parecia vibrar através das paredes. Carreguei a minha bandeja até uma mesa no canto e os meus olhos vasculharam o ambiente em busca de rostos familiares, mas sem sucesso.
Eu tinha acabado de levar um garfo de ovos à boca quando uma voz melodiosa flutuou por sobre o meu ombro.

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