PERSPECTIVA DO KIERAN
Fiquei parado ali como um idiota muito tempo depois que a Sera foi embora.
A música de fundo continuava e a multidão estava se dispersando no final da noite. O Byron tinha saído do palco e estava ocupado agradecendo os frequentadores.
Mas eu não conseguia me mover.
A dança ainda perdurava nos meus músculos, como se o corpo dela não tivesse realmente deixado os meus braços. Eu ainda sentia a marca que ela deixou: o contorno da cintura, a seda dos cabelos, a curva do quadril...
Deuses, sempre foi assim segurar a Sera? Tão calmante e pacífico e... certo?
Entre os problemas com os renegados, o TFL e comando da Alcateia, minha vida nas últimas semanas foi um frenesi de incessante movimento.
E então, por três minutos, embaixo das luzes fracas do bar, tudo simplesmente... parou.
Nada mais existia para mim a não ser o eco da risada dela, o ritmo do seu coração batendo contra o meu peito e a lavanda do perfume dela permeando cada poro meu.
E parecia... paz.
Eu nem percebia que era capaz de sentir esse tipo de serenidade, até que ela me deu essa sensação.
Minhas mãos tremiam ao lado do meu corpo e eu precisei fincar os meus calcanhares no chão para não sair correndo do bar, encontrar a Sera, abraçá-la e nunca mais soltá-la.
Dez anos. Eu a tive comigo por dez anos, e eu nunca...
"Então, qual é a história aí?" A voz rouca do Byron interrompeu os meus pensamentos, trazendo-me de volta ao presente. Ele estava ao meu lado novamente, com os olhos brilhando como os de um demônio. "Vocês dois têm o mesmo sobrenome. Mas irmãos não se olham da maneira que vocês dois se olharam."
Abri a boca, depois fechei.
Neste momento, o anonimato que eu tanto apreciava com o Byron se tornou um inimigo. O que eu deveria dizer? Que a Sera tinha sido minha esposa um dia? Que eu havia arruinado tudo entre nós dois? Que me divorciar dela parecia ter sido o maior erro que eu cometi na vida?
Byron notou a minha hesitação e assentiu, levantando as mãos em um gesto de rendição brincalhona. "Tudo bem, não vou me intrometer."
Soltei um suspiro e passei a mão pelo cabelo. "É... complicado."
Por dentro, eu zombava de mim mesmo. Essa palavra nem começava a descrever a complexidade do meu relacionamento com a Sera, mas era tudo o que eu tinha no momento.
"Você gosta dela," Byron disse, não como uma pergunta, mas como um fato.
Eu congelei.
Gostar.
A palavra parecia tão... pequena, tão trivial, que não conseguia capturar a complexidade dos sentimentos que eu tinha pela Sera. Eu também não conseguia nomear aquela mistura de sentimentos complicados, sobrepostos e conflitantes, mas "gostar" nem chegava perto.
Byron deve ter interpretado o meu silêncio como timidez.
"Se você gosta," ele continuou, "não perca tempo. Confie em mim, rapaz. Eu desperdicei muito tempo quando estava apaixonado pela Lillian, achando que sempre haveria um outro dia. E então, uma manhã, ela se foi."
As luzes dos olhos dele se apagaram e a dor que piscou ali foi tão intensa que tive que desviar o olhar. "Simplesmente... foi embora. Todos os dias desde então, desejei ter dito mais. Feito mais. Amado mais."
A mão dele pousou pesadamente no meu ombro, ao mesmo tempo reconfortante e esmagadora. "Não cometa o mesmo erro. Eu não sei qual é a história, mas se ela importa pra você, e eu suspeito fortemente que sim, lute por ela."
Engoli em seco. Minha garganta parecia seca, arranhada e vazia.
Como eu poderia explicar que a Sera realmente importava, mais do que eu jamais me permiti admitir, mas de uma forma que não podia ser consertada? Ou como ia explicar que o nosso vínculo tinha sido envenenado pela ignorância e pelo silêncio, destruído sem chance de ser reparado? Ou que ela agora me olhava como se eu fosse uma ferida que se recusava a cicatrizar?
Eu não podia dizer nada disso.
Então, apenas bati com a mão no ombro de Byron, forçando a minha voz a ficar firme: "Sua homenagem para a Lilian foi linda esta noite. Ela ficaria orgulhosa."
Seus olhos suavizaram enquanto um pouco da luz voltava e ele não insistiu mais. "Vai lá. Sai daqui antes que eu te faça cantar no karaokê."
Pensar no meu potencial em estragar uma balada com a minha voz desafinada foi suficiente para me empurrar para fora da porta.
O ar da noite bateu frio contra a minha pele, resfriando o suor na parte de trás do meu pescoço. Enquanto me dirigia para o carro, resisti aos impulsos e instintos que me puxavam na direção oposta, na direção que a Sera teria seguido para chegar à sua nova casa.
O momento no bar tinha sido exatamente isso: um momento.
A realidade do meu relacionamento com a Sera era que não havia relacionamento. Nada para salvar. Nada para segurar.
Continuei repetindo isso para mim mesmo durante a viagem para casa.
Eu tinha um grande dia pela frente amanhã, então disse a mim mesmo que precisava dormir naquela noite. Assim, talvez o fantasma daquela dança me embalasse em algo parecido com descanso.
Mas, no momento em que entrei em casa, essa ilusão se despedaçou.
Porque a Celeste estava esperando.
Ela estava esparramada na cadeira do hall como se fosse dona do lugar, com as pernas cruzadas e com uma taça de vinho meio vazia (provavelmente não a primeiro) balançando nos dedos. Seus olhos brilhavam na luz fraca, afiados e presunçosos.
"Noite longa, amor?" ela ronronou.
Com isso, toda a raiva e a angústia que eu tinha deixado de lado voltaram com tudo.
Adeus, paz.
Cerrei os dentes enquanto me virava e tirava o casaco dos ombros, pendurando-o no cabide. O cheiro do bar do Byron ainda permanecia em mim, uma mistura de barris de carvalho, fumaça e uísque envelhecido, e, ao fundo, a Sera. Só esse traço já bastava para apertar o meu peito. Eu sabia que, assim que a Celeste percebesse, uma tempestade ia começar.
"Então?" ela pressionou.
Relaxei a mandíbula e forcei um sorriso neutro. "Estava na comemoração de aniversário de um velho amigo."
"Aniversário," ela repetiu, como se fosse uma palavra em um idioma estrangeiro que ela tinha dificuldade em pronunciar.
Ela se levantou lentamente, inclinando a cabeça e curvando os lábios em algo entre curiosidade e acusação. "Tão importante que não pôde levar... a sua noiva?"
A palavra caiu pesadamente. Noiva.
Ainda nem estávamos oficialmente noivos e ela já estava usando esse título. Mas não era nem essa palavra que me irritava.
Capturei os pulsos dela com gentileza, mas firme, segurando-os quietos.
"Celeste." Mantive a voz suave, mas cheia de aviso. "Amanhã é a final. As evidências do que você quer fazer não podem ser apagadas com um simples banho. E ,se alguém descobrir que você esteve aqui, tudo estará arruinado. Você será desclassificada antes mesmo de pisar na Arena."
"Eu não me importo com a final," ela retrucou, puxando os pulsos que eu segurava. "Eu me importo com você. Com nós. Você sequer faz ideia do quanto é humilhante esperar por você aqui e perceber que você voltou pra casa com o cheiro da minha maldita irmã grudado em você como uma marca?"
Um dia, a angústia na voz dela já me atingiu mais fundo. Agora, apenas pressionava contra uma parte de mim que estava se tornando mais insensível a cada dia. Era como se a minha capacidade de sentir, pelo menos no que dizia respeito a ela, estivesse desaparecendo.
Afrouxei o aperto, forçando calma a soar nas minhas palavras. "Celeste, você treinou demais para jogar tudo fora agora. Não deixe um ciúmes desnecessário roubar o que você conquistou."
Acariciei o rosto dela e gentilmente passei as mãos pelas bochechas. "Minha promessa a você ainda tá de pé. Meus pais estão preparando o anúncio. Assim que a situação com os renegados for resolvida, ficaremos noivos oficialmente. Eu vou cumprir a minha palavra."
A respiração dela diminuiu um pouco, embora a tensão nos ombros ainda estivesse lá. Os olhos dela buscavam os meus e eu rezava aos céus para que ela não pudesse ver o conflito neles. "Você jura?"
Soltei as palavras. "Eu juro."
Isso a acalmou, ainda que parcialmente. Ela exalou e soltou uma risadinha trêmula, então se virou e deslizou em direção à mesinha na entrada da sala.
Os dedos dela passaram pelo elegante reprodutor de música e, em segundos, suaves notas de piano preencheram o ar.
Ela se virou para mim com um sorriso leve, quase saudoso. "Você reconhece essa música?"
Eu não reconheci, mas felizmente ela não me deu a chance de responder. "É a minha favorita. Eu costumava tocá-la o tempo todo quando estávamos juntos."
"Certo."
Então, ela estendeu a mão. "Dança comigo. Pelos velhos tempos."
O pedido era inofensivo e era o mínimo que eu poderia fazer depois de rejeitá-la novamente. Mesmo assim, algo em mim se agitou. Eu não sabia quem estava em conflito, se era o meu lobo ou a minha humanidade.
Ainda assim, dei um passo à frente e descansei a minha mão levemente na cintura dela enquanto ela se aproximava. Ela inclinou a cabeça para trás, com os olhos brilhando e os lábios curvados enquanto a música nos envolvia.
Ela se aninhou em mim, com um calor inegável e o jasmim do seu perfume substituindo a lavanda que ainda pairava ao meu redor. "É bom, né?" sussurrou.
Deveria ter sido mais do que bom. Deveria ter sido perfeito. A Celeste era linda. Familiar. E toda minha... supostamente.
Mas, enquanto nos movíamos lentamente pelo chão polido, meu peito permaneceu oco.
A verdade me atormentava. Com a Sera, tudo parecia fácil e natural. Tão gloriosamente sem esforço.
E agora?
Com a Celeste nos meus braços, eu sentia apenas o esforço de manter uma imagem que já estava se desfazendo.
Agora, eu estava preso entre o dever e o desejo, entre uma promessa que fiz e um laço que parecia se fortalecer a medida que eu tentava rompê-lo.
A Celeste descansou a bochecha contra o meu peito, murmurando contente com a música, e os seus braços me apertaram como se pudessem me segurar no lugar.
Tudo o que eu conseguia fazer era desejar que ela fosse outra pessoa.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei
Finalmente toda a verdade do Lucian veio à tona. Só não faz sentido ele saber antes de qualquer pessoa (inclusive família) que a Zara era prima. Cadê a tia irmã de Margareth então? Porque Sera e Margareth foram mais importantes para Catherine do que esse outro braço da família?...
Quero saber até onde o Lucian estar envolvido com Katherine e Marcos...
Ok, sera não aceitar o vínculo. Agora deixa o Kieran seguir a vida dele em paz...
Tá muito bom os capítulos...
Preciso de ajuda pra comprar moedas, não consigo completa minha compra...
Sera era uma bobinha manipulada e do nada se tornou fodona. A autora exagerou demais. Comecei a ler uma romance onde o começo imita uma história que já existe e depois, a autora acrescentou "os mutantes" na história. Kkkkk Mas os capítulos que abrem essa história nada mais é do quem o plágio de uma história que já existe. A irmã, o marido que gosta da irmã, a noite em que a irmã errada dorme com o cara, casa com ele tem um filho. O divórcio e só depois ele começa a gostar dela... Enfim, copiou na cara dura....
Livro muito bom!!! Sem muita enrolação e historia com enredo e fluxo. Aguardando próximos capítulos e o encerramento breve!!!...
SERAPHINA é muito fraca e idiota,Catherine manipula ela fácil fácil, eu ia lá se sacrificar por uma pai uma família que sempre me tratou mal, eles que se virem...
Escritora por favor, melhora isso aí, Sera fez o ex marido comer o pão que o diabo amassou, botou homens na cara dele, agora a cobra da irmã dela baixa o espírito de Santa e Sara na primeira oportunidade já vai abraçar, me poupe, mais criatividade por favor...
Quando Sera vai descobrir a peste falsa e manipulador que lucian é?? Ele ainda foi embora com o amor da vida dele e ainda deixou a Sera responsável pelos negócios dele, Sera é muito idiota,...