PERSPECTIVA DO LUCIAN
Minha espinha se enrijeceu instintivamente.
Senti um zumbido nos ouvidos e um trovão no peito. As duas sensações colidiam, altas e implacáveis, e eu mal conseguia pensar com tanto barulho.
Eu podia sentir a leve vibração do ronco ocioso do carro e ver o feixe baixo dos faróis se espalhando pela entrada, mas os meus pensamentos estavam longe do presente. Eles retrocederam anos no tempo, para uma época em que o mundo fazia sentido. Uma época em que o meu coração era inteiro.
"C-como você soube?"
Não me movi, nem sequer respirei, até que a voz baixa e quase trêmula da Sera soou novamente: "Eu… suspeitei," disse ela. "Pela maneira como você reagia quando falávamos sobre companheiros e quando me contou sobre a sua 'amiga' que te deu a fórmula para o Néctar do Orvalho da Lua. E então, ouvi claramente, de... bocas na SDS."
Fechei os olhos. Um longo e constante suspiro escapou de mim.
Eu deveria ter imaginado que seria inevitável. Eu deveria ter contado logo para ela. Eu nunca deveria ter escondido dela.
Eu deveria ter. Eu deveria ter. Eu deveria ter.
"Sera..."
"Eu gostaria de não ter que ouvir isso de outra pessoa," interrompeu ela, com um tom mais afiado agora. "Queria que você simplesmente tivesse me contado."
O ar entre nós ficou pesado. Os grilos preencheram o silêncio com o seu zumbido rítmico sincronizando-se com as batidas descompassadas do meu coração.
Virei-me para ela, finalmente me forçando a encarar o seu olhar. O leve brilho dos faróis pintou o perfil dela com uma luz suave, e, deuses, a dor nos seus olhos me destruiu.
"Você tem razão," admiti em voz baixa. "Você merecia ouvir isso de mim. Eu só..." Minha voz sumiu enquanto eu passava a mão no rosto. "Não queria afetar a sua concentração antes do Torneio. Você já estava sob imensa pressão. Não queria correr o risco de bagunçar a sua cabeça."
A desculpa frágil soou ainda mais fraca em voz alta do que na minha mente.
"Lucian," ela disse suavemente, "nos conhecemos bem antes do Torneio. E todos aqueles jantares, todas aquelas conversas? Quando você me pediu pra ser a sua namorada?"
As palavras dela me atingiram fundo, mas o pior era que ela não estava me acusando... Ela estava magoada. E ela tinha todo o direito de estar.
"Compartilhei partes de mim com você que nunca compartilhei com mais ninguém," continuou ela, a suavidade da voz não escondendo a dor das palavras. "E você simplesmente... omitiu."
A culpa ardeu no meu peito.
Eu achava que estava protegendo-a. Mas a verdade era mais simples, mais feia: eu estava me protegendo.
De reabrir uma ferida que nunca cicatrizou completamente.
"Desculpa," murmurei. Era fraco, patético. Mas era tudo que eu conseguia dizer.
Antes que eu pudesse falar mais alguma coisa, uma vozinha rompeu o peso do momento.
"Mãe?"
Sera imediatamente mudou, suavizando o seu jeito enquanto assumia o perfil de mãe. "Tô aqui, meu amor."
Me levantei dos degraus enquanto o Daniel abria a porta do carro, esfregando os olhos, e ela foi até ele.
"Já chegamos em casa?" bocejou.
"Sim, meu amor," ela respondeu, afastando o cabelo do rosto dele com carinho.
"Tá tarde," eu disse, caminhando para abrir a porta do motorista. "Podemos continuar essa conversa amanhã. Só nós dois."
Sera hesitou, depois assentiu com a cabeça. "Certo."
Ela não me olhou de novo enquanto conduzia o filho pelas escadas da varanda e para dentro de casa.
Fiquei ali parado muito tempo depois de a porta fechar, observando o meu reflexo deformada no vidro escuro do carro.
E desejei que o amanhã não chegasse.
***
Quando a Sera entrou no hall de recepção da SDS na tarde seguinte, cada nervo do meu corpo ficou em alerta máximo.
A expressão dela era cuidadosa e neutra, como se ela tivesse construído uma parede durante a noite e me desafiasse a escalá-la.
Não consegui falar, nenhuma palavra parecia adequada. Em vez disso, estendi a mão lentamente em direção à dela e, para o meu alívio, ela a segurou.
A SDS ainda estava agitada com o desfecho do TFL e vibrava com o barulho dos alunos se movendo entre os corredores, das risadas escapando pelas janelas abertas, do som de golpes vindo das salas privativas.
Entretanto, nós dois não trocamos uma palavra enquanto caminhávamos, ambos ignorando a atenção que atraíamos.
Eventualmente, o burburinho do campus se desfez atrás de nós quando cruzamos para o anexo mais silencioso na extremidade distante.
A caminhada não era longa, mas pareceu ser de quilômetros. Cada passo era tão árduo quanto caminhar sobre a corda bamba.
E ainda não tínhamos chegado à parte difícil.
Quando finalmente paramos, a Sera olhou para cima e um lampejo de reconhecimento surgiu nos olhos dela.
Sala de Exposição da História da SDS.
"Isso não é apenas uma explicação", eu disse calmamente. "Você merece entender a história toda."
E o melhor lugar para contá-la era aqui, entre os fantasmas e o começo de tudo.
A sala estava silenciosa, com a luz do sol inclinando-se pelas janelas altas e as partículas de poeira flutuando no ar como uma neve lenta.
Ela já tinha estado aqui antes, quando eu fiz o tour inicial da SDS com ela. Lá no início, antes de eu saber quem ela realmente era e o que viria a significar para mim.
O olhar dela passava pela exposição como naquele dia, mas agora eu a observava prestar atenção. Vi o seu olhar pairando não nas conquistas ou nas armas ou nos gráficos, mas nos detalhes humanos: as fotografias, os cadernos desbotados, os primeiros esboços do nosso complexo.
"Ela deixou a Alcateia dela. Nessa época, eu já tinha deixado a minha. Juntos, construímos a primeira versão da Shadowveil." Minha garganta apertou. "Achamos que tínhamos tempo. Achamos que o futuro se estendia à nossa frente, brilhante e glorioso."
"O que aconteceu com ela?" Sera perguntou, em tom calmo.
"Até hoje, não lembro qual foi o motivo. Mas nós..." Respirei fundo, mas o ar não chegou aos meus pulmões. "Droga, nem foi uma briga. Foi só uma discordância boba, e ela saiu furiosa."
O peso da memória caiu sobre mim. Eu gostaria de pelo menos lembrar o que nos deixou tão irritados, tão zangados a ponto de ela sair batendo portas, e eu ter ficado magoado demais para ir atrás dela.
Se eu soubesse...
Deuses, se eu soubesse.
"Ela foi..." As palavras ficaram presas como pedras na minha garganta, mas eu as empurrei para fora. "Ela foi emboscada por um grupo de traficantes que caçavam lobos por esporte. Senti o perigo imediatamente. A Zara se manteve firme tempo suficiente para que eu chegasse e os enfrentasse, mas..." Parei. A dor foi serpenteando por mim e transformando o meu sangue em gelo.
"Cheguei a tempo de segurá-la enquanto ela morria," disse em tom baixo. "E ela... Ela nem pensou em si mesma. Me fez prometer que terminaria o que começamos."
Fechei os olhos e estava de volta naquele beco frio e escuro, com o calor da minha companheira contra mim, o som do seu coração desacelerando a cada respiração curta e o seu sangue morno e pegajoso se espalhando ao nosso redor.
Lembrei da aspereza na voz dela enquanto, com dificuldade, ela ergueu o punho. "Me promete," ela sussurrou, usando o seu último fôlego. "Me promete que você vai manter o nosso sonho vivo. Você verá ele se tornar...".
E então ela parou de respirar.
O salão parecia menor então. O ar mais denso. O zumbido suave das luzes acima era o único som restante. Ele, e o som do meu coração se partindo novamente.
"Eu me culpei," encontrei forças para continuar. "Nos meses seguintes, eu não conseguia fazer nada. Eu queria destruir tudo. Mas..." balancei a cabeça, "eu tinha feito uma promessa a ela. Então, construí a SDS a partir das cinzas dela. Com a ajuda da Maya. Com a ajuda de outros lobos que acreditavam no sonho. E, eventualmente... não era mais sobre mim. Nem mesmo sobre ela. Tornou-se sobre todos que passaram por aquelas portas."
Virei-me para a Sera, que parecia estar segurando o fôlego.
"Levei dez anos," eu disse. "Dez anos pra construir algo digno do nome dela. Mas não é mais apenas meu ou dela, é o nosso. É de cada treinador, cada aluno, cada pessoa que se recusa a ser definida pelo lugar de onde veio."
Hesitei, então acrescentei silenciosamente: "Incluindo você."
"Você tá falando sério?" ela perguntou suavemente.
Assenti. "Você se tornou um dos pilares da SDS, Sera," eu disse. "Tudo o que você conquistou... é o que a Zara queria ver. Ela ficaria tão orgulhosa."
Sera não respondeu, mas eu pude ver o brilho nos seus olhos. Compreensão. Dor. Compaixão.
E algo mais também.
Distância.
Era sutil, mas surgia a forma como os seus ombros se contraíram e na maneira como o seu olhar suavizou e não chegou a mim completamente. Era como se uma porta estivesse se fechando, devagar, silenciosamente, e eu estivesse do lado errado dela.
E ali, no salão construído sobre fantasmas e sonhos, percebi algo silenciosamente aterrorizante: a verdade tinha feito o oposto do que eu precisava.
Tinha afastado a Sera.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei
Finalmente toda a verdade do Lucian veio à tona. Só não faz sentido ele saber antes de qualquer pessoa (inclusive família) que a Zara era prima. Cadê a tia irmã de Margareth então? Porque Sera e Margareth foram mais importantes para Catherine do que esse outro braço da família?...
Quero saber até onde o Lucian estar envolvido com Katherine e Marcos...
Ok, sera não aceitar o vínculo. Agora deixa o Kieran seguir a vida dele em paz...
Tá muito bom os capítulos...
Preciso de ajuda pra comprar moedas, não consigo completa minha compra...
Sera era uma bobinha manipulada e do nada se tornou fodona. A autora exagerou demais. Comecei a ler uma romance onde o começo imita uma história que já existe e depois, a autora acrescentou "os mutantes" na história. Kkkkk Mas os capítulos que abrem essa história nada mais é do quem o plágio de uma história que já existe. A irmã, o marido que gosta da irmã, a noite em que a irmã errada dorme com o cara, casa com ele tem um filho. O divórcio e só depois ele começa a gostar dela... Enfim, copiou na cara dura....
Livro muito bom!!! Sem muita enrolação e historia com enredo e fluxo. Aguardando próximos capítulos e o encerramento breve!!!...
SERAPHINA é muito fraca e idiota,Catherine manipula ela fácil fácil, eu ia lá se sacrificar por uma pai uma família que sempre me tratou mal, eles que se virem...
Escritora por favor, melhora isso aí, Sera fez o ex marido comer o pão que o diabo amassou, botou homens na cara dele, agora a cobra da irmã dela baixa o espírito de Santa e Sara na primeira oportunidade já vai abraçar, me poupe, mais criatividade por favor...
Quando Sera vai descobrir a peste falsa e manipulador que lucian é?? Ele ainda foi embora com o amor da vida dele e ainda deixou a Sera responsável pelos negócios dele, Sera é muito idiota,...