PERSPECTIVA DA SERAPHINA
"É o que a Zara queria ver. Ela ficaria tão orgulhosa."
Deuses, era pior do que eu tinha imaginado.
Eu me preparei para algo difícil, mas esta história trágica de amor e luto me abalou de uma maneira que eu não esperava.
Olhei para o retrato e algo frio percorreu a minha espinha.
A Zara (deuses, até o nome dela era lindo) tinha olhos azuis ferozes e inteligentes e um sorriso desafiador. Cabelos loiros claros emolduravam o seu rosto em uma coroa de tranças e a sua mão repousava no punho de uma espada.
Eu conseguia imaginá-la a partir da história que o Lucian tinha contado.
Feroz. Destemida. Radiante em todos os sentidos da palavra.
O tipo de mulher que atraía todos os olhares quando entrava em um ambiente sem nem precisar se esforçar e cujo brilho ofuscava tudo ao redor.
Meio que como a Celeste, mas... digna.
Mesmo enquanto o Lucian falava da Zara com suavidade e reverência, eu podia ver aquela mesma luz ainda refletida nele, como uma vela que se recusava a apagar, não importava quanto tempo tivesse passado.
Ele não chorou. O Lucian não era o tipo de homem que se abala facilmente, mas a forma como a respiração dele tremia e como o seu corpo se enrijeceu, como se exigisse toda a sua força de vontade para se manter vivo, e a maneira como a sua voz deve vacilava ao falar o nome dela, me dizia tudo.
A Zara não tinha saído dele. Não de verdade. Ela era o eco entre os batimentos do seu coração e o fantasma que assombrava cada silêncio.
E, de alguma forma, eu teria que lidar com isso.
Tentei sorrir, mas parecia como juntar pedaços de vidro quebrado e fingir que não se despedaçariam. "Ela parece..." Irreal. Intimidante. "...incrível." Minha voz saiu mais fraca do que eu gostaria.
"Ela era," Lucian concordou.
"Você deve ter amado muito ela."
"Mais do que qualquer coisa no mundo..." O olhar do Lucian suavizou, com um leve traço de culpa passando por ele.
"Sera…" Ele exalou lentamente. "Eu nunca quis escondê-la de você."
Não havia como esconder a acusação na minha voz: "Então por que escondeu?"
Um músculo se contraiu na mandíbula dele e os seus olhos se moveram como se procurassem a resposta.
"Você não confiou que eu conseguiria lidar com a verdade," eu respondi por ele quando nada veio. "Você achou que eu não respeitaria o seu amor por ela."
"Não. Sera, eu não…" Ele balançou a cabeça. "Eu apenas não queria que a sombra dela influenciasse a sua visão de mim. Eu não queria que você se visse como uma substituta."
A palavra pairou entre nós, tão pesada e imponente quanto o retrato da Zara.
Eu me virei de volta para o quadro, observando o cabelo dela, que era da mesma cor que o meu. O azul dos olhos dela... do mesmo tom que os meus.
"Você vai me perdoar se eu achar difícil acreditar," eu disse, as minhas palavras mal soando mais altas que um sussurro.
"Sera..."
Eu me virei para ele. "Você espera que eu acredite que nunca olhou pra mim e viu ela?"
Eu balancei a cabeça, revisitando todas as interações com o Lucian desde o dia em que nos conhecemos. "Sempre notei algo diferente na forma como você me olhava. Sempre parecia que... Era como se você estivesse procurando por algo familiar."
Ele respirou fundo. "Sera, eu juro pra você... Eu nunca olhei pra você e vi a Zara. Eu vejo você," ele insistiu.
Dei uma risada curta. "Então por que não me contou sobre ela? Desde o começo?"
O silêncio se estendeu entre nós, pesado e sufocante.
Ele foi o primeiro a desviar o olhar. "Porque eu sabia o que isso causaria," ele finalmente admitiu. "Você teria se afastado, erguido uma barreira entre nós. Teria mantido distância." Ele acrescentou, desanimado: "Como tá fazendo agora."
"Eu..."
Eu não podia contestar essa lógica, não se estivesse sendo honesta comigo mesma.
Porque eu sentia em mim aquele afastamento, sentia as minhas defesas se levantando.
Os olhos do Lucian encontraram os meus, decididos e dolorosamente abertos. "Eu não queria que você se afastasse. Eu não queria ser apenas o seu amigo pra sempre. Eu quero você, Sera. Como a minha companheira. Minha Luna."
Assim como a Zara teria sido.
Meu coração falhou. A franqueza das palavras dele tirou meu fôlego. "Lucian..."
Ele deu um passo mais para perto e percebi a sua voz agora áspera: "Você quer honestidade? Tudo bem. As razões pra eu me aproximar de você foram egoístas. Mas não do jeito que você pensa."
Eu franzi a testa. "O que você quer dizer com isso?"
"O dia do funeral do Edward não foi a primeira vez que eu te vi," ele confessou baixinho. "Foi meses antes disso, num baile de gala beneficente pra um orfanato. Uma das crianças estava encolhida num canto, separada do resto. E você foi até ela, ofereceu um pedaço de bolo, conversou. Fez ela sorrir. Naquele momento, eu não sabia o seu nome ou quem você era, mas não conseguia parar de te observar. Você foi graciosa. Teve compaixão."
Fiquei piscando, surpresa. Eu mal me lembrava do baile de gala que ele mencionou. Foi um dos muitos eventos onde fui deixada de lado. Eu tinha visto a menininha do outro lado do salão e me lembrado de mim mesma. "Você se lembra disso?"
"Eu me lembro de tudo sobre você, Sera."
Ele disse isso de uma forma tão simples que quase perdi o peso daquela declaração.
"Depois," ele continuou, "quando percebi quem você era, quando te convidei pra se juntar à SDS, não foi por pena ou por estratégia. Eu queria entender por que você me marcou tanto. E então eu entendi. Todos os dias desde então, eu vi algo novo: a sua força, a sua determinação, a sua lealdade. Você me fez querer viver de novo, Sera."
Meu coração batia dolorosamente. "E, mesmo assim, você não me contou nada disso."
Ele exalou lentamente. "Porque pensei que contar arruinaria tudo. Que você me veria como manipulador." Ele deu de ombros, quase com uma resignação melancólica. "Talvez eu seja mesmo. Há muito tempo eu sei que uma segunda chance com uma alma gêmea não estava nos meus planos, e eu falei sério quando te disse, Sera, que você é a minha escolha."
Eu queria acreditar nele. Deuses, como eu queria. Mas, toda vez que fechava os olhos, eu via o fantasma da Zara entre nós, linda, intocável e invencível.
Talvez o Lucian estivesse certo em manter a existência dela em segredo. Porque, exatamente como ele havia previsto, a sombra dela pairava sobre nós.
Eu podia sentir isso tingindo todas as interações minhas e do Lucian.
Quando ele me salvou no enterro do meu pai, será que ele estava pensando na batalha em que não conseguiu salvá-la? Quando me convidou para me juntar à SDS, foi porque a minha presença nos corredores o fazia sentir como se fosse a Zara?

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