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Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei romance Capítulo 171

PERSPECTIVA DA SERAPHINA

Já fazia mais de uma década desde a última vez que percorri a estrada longa de paralelepípedos até a propriedade da família Lockwood.

Os portões surgiam como eu me lembrava: altos, com barras de ferro forjado que se enrolavam em formas elegantes e implacáveis.

Antes, eu costumava achá-los parecidos com vinhas protegendo um santuário. Agora, só enxergava a prisão que eram.

Os portões rangeram ao se abrirem enquanto nos aproximávamos, um gemido lento que cortou o silêncio da tarde.

Daniel estava quase pulando no banco do carro, com o rosto grudado na janela, enquanto o cenário familiar se desenrolava diante de nós.

Meus dedos se fecharam com força ao redor do volante. A mansão parecia tão imponente quanto antes, feita de tijolos cinzentos, simétrica e magnífica. O telhado de ardósia brilhava levemente sob o sol do fim da tarde e a fachada de pedra clara capturava a luz de forma orgulhosa e fria.

A visão da minha casa da infância deveria ter me enchido de nostalgia. Em vez disso, eu só sentia um vazio.

Parei o carro em frente à grande entrada.

Quando saí do carro e o Daniel ajudou a minha mãe a sair do banco de trás, a porta da frente se abriu e dois empregados Ômegas apareceram.

Ao me ver, eles olharam de novo.

Eu não podia culpa-los. A minha presença aqui provavelmente equivalia a ver um fantasma.

Daniel, o meu querido e prestativo garoto, ajudou a avó a subir as escadas, com as mãos firmes na cintura dela como se pudesse segurá-la caso ela tropeçasse.

Ela sorriu para ele com uma ternura que envolveu o meu coração e o apertou.

Fiquei alguns passos atrás deles, sentindo-me como uma intrusa assistindo à reunião de outra família.

Quando ela se virou para mim, seu sorriso vacilou, e algo incerto brilhou nos seus olhos. "Entre, querida. Faz tanto tempo..."

Pois bem, eu não me importaria se fosse ainda mais tempo.

Dentro da mansão, tudo era ao mesmo tempo familiar e estranho.

A estrutura não mudou: a ampla escadaria de mármore, o lustre suspenso como estrelas congeladas, as pinturas a óleo de ancestrais com expressão severa olhando de molduras douradas e o leve cheiro de cera de limão.

Mas tudo parecia abafado, escurecido. Como se o próprio tempo tivesse tentado apagar o que um dia foi aquele lugar.

Minha mãe se movia pelos ambientes com uma graça ensaiada, chamando suavemente os empregados. "Chá pra três, por favor. E os pasteizinhos de limão que o Daniel gosta. Ah! E os biscoitos de mel."

Daniel piscou. "Nunca experimentei os seus biscoitos de mel, Vovó."

Por um momento, ela pareceu surpresa, depois sorriu levemente. "Não? Acho que a minha memória falhou."

Ela olhou para mim e sorriu gentilmente. "Você gostava deles quando tinha a idade dele."

Meus dentes cerraram.

Eu gostava de biscoitos de mel porque a Celeste adorava biscoitos de mel, então a minha mãe os fazia tanto que viraram um lanche habitual.

Pelo menos ela acertou na preferência do Daniel.

Eu a segui até a sala, onde a luz do sol entrava pelas janelas altas e transformava a poeira em brilho.

Daniel se acomodou na beirada do sofá de veludo ao lado dela, olhando ao redor com curiosidade nos seus olhos arregalados.

"Vovó, você trocou as cortinas?" ele perguntou. O fato de que ele já esteve ali vezes suficientes para notar pequenas mudanças assim despertou uma pontada de... inveja?

Minha mãe sorriu. "Olho afiado, querido. As velhas estavam desbotando."

Seu tom era casual, mas as mãos tremiam ligeiramente enquanto ela servia o chá. Ela me ofereceu uma xícara com um olhar hesitante, como se estivesse testando se eu a aceitaria.

Eu aceitei, principalmente por educação.

Ficamos assim por alguns minutos, ela mimando o Daniel, eu tentando não me afundar na mobília.

Ela fez mil e uma perguntas para ele, principalmente sobre o tempo que ele passou na Ilha e o que ele estava fazendo desde que voltou. Ele respondeu animado e o amor e a adoração que ele sentia pela avó ficaram evidentes.

Essa era uma das razões pelas quais eu nunca consegui odiar completamente os meus pais: eles me isolaram por causa do meu erro, mas nunca fizeram o Daniel, o fruto daquela noite, sentir qualquer coisa diferente de amor.

Meu olhar se fixou no velho relógio de pêndulo ao lado da lareira e eu contava os segundos em voz baixa. Quanto tempo tínhamos que ficar antes de podermos ir embora educadamente?

172. 173. 174. 175...

"Vó, você ainda faz biscoitos?" Daniel perguntou animadamente.

"Claro," ela disse, alisando a saia. "Você quer fazer alguns comigo?"

Ele sorriu brilhantemente: "Podemos?"

Os olhos dela se suavizaram de um jeito que eu nunca vi direcionado a mim. "Eu adoraria, querido."

"Sim!"

Quando eles se levantaram para ir para a cozinha, minha mãe se virou para mim. "Sera? Vai se juntar a nós?"

Balancei a cabeça rigidamente. "Vou só pegar um pouco de ar. É... muita coisa, estar de volta."

A expressão dela se fechou sutilmente. "Entendo."

Não, ela não entendia.

Mas assenti mesmo assim.

No momento em que eles desapareceram pelo corredor, soltei um longo suspiro que nem percebi que estava segurando.

Caminhei até a janela. Os jardins se estendiam interminavelmente além dela, domados, cuidados e lindos de uma maneira que sempre pareceu... falsa.

Os Lockwoods sempre preferiram a beleza controlada. Os arbustos eram podados em simetria perfeita e os canteiros de flores tão precisos que poderiam muito bem ter sido desenhados com uma régua.

E então eu vi. O velho carvalho.

Ainda estava no final do jardim, alto e desafiador, com as suas galhadas retorcidas cobertas de folhas. Sob ele, o balanço.

O mesmo assento de madeira. As mesmas cordas firmes.

O mesmo do meu sonho.

Antes que eu percebesse, já estava lá fora.

O ar estava quente, com um leve perfume de flores e terra. Andei pelo caminho familiar enquanto os meus sapatos esmagavam o cascalho.

Cada canto deste jardim parecia suspenso no tempo, preservado, inalterado, mas com um toque de distância.

As flores não transbordavam mais selvagemente sobre as bordas dos canteiros, mas as rosas e as lavandas ainda proporcionavam um desfile de cores que suavizava as arestas formais.

E lá, debaixo do grande carvalho, estava o balanço.

Prendi a respiração.

Ele balançava levemente na brisa, rangendo suavemente, com a madeira lisa e desgastada pelo tempo. Minha mão tremeu ao tocar o assento. Sólido. Real.

Minha garganta se apertou. Eu quase podia ouvir o riso de uma criança, ver a sombra larga de um homem projetada na grama.

Sentei-me e senti a madeira morna contra as minhas mãos.

Dali, a vista era quase idêntica ao meu sonho: os arbustos de rosas alinhando o caminho de pedra, a fonte brilhando ao sol...

Fechei os olhos.

Por um momento, senti tontura. O sonho e o meu anseio se entrelaçaram tão fortemente que eu não conseguia distinguir um do outro.

Será que eu realmente tinha sentado aqui um dia, rindo enquanto o meu pai estava atrás de mim segurando as cordas com aquelas mãos que construíram impérios?

Ou isso teria sido apenas a invenção de uma criança solitária que queria acreditar que era amada?

'Mais alto, Papai!'

'Se eu te empurrar muito alto, minha lobinha, você vai voar e esquecer de voltar.'

'Eu não vou esquecer. Eu sempre vou voltar pra você.'

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