PERSPECTIVA DA SERAPHINA
O trajeto curto para casa pareceu interminável.
As luzes da cidade estavam desfocadas através da janela do carro, douradas e prateadas contra o vidro escuro; o zumbido dos pneus era constante, mas distante.
Meus pensamentos, no entanto, estavam longe de serem constantes.
Eu não conseguia parar de pensar na minha conversa com o Lucian, com foco no fato de que todos os homens que eu já amei sempre pareciam ter amado outra pessoa antes de mim.
Meu ex-marido amava a minha irmã.
E agora, o coração do meu namorado ainda pertencia a outra mulher.
Parecia que o destino estava zombando de mim. A mesma história cruel, tecida repetidamente, Personagens diferentes, mesmo desfecho.
Kieran, com a Celeste.
Lucian, com a Zara.
Sera, deixada de fora, ansiando por corações que nunca seriam totalmente seus.
Apertei o volante com mais força.
Esse era o meu destino? Viver à sombra de mulheres que os homens não conseguiam esquecer?
'Você é mais forte do que isso,' a voz da Alina murmurou no silêncio da minha mente. Seu tom não era exatamente suave, era o tipo de firmeza que dava força ao invés de repreender. 'Não se atreva a deixar que os fantasmas deles te definam.'
"Tô cansada de ser forte," eu sussurrei, a voz se partindo. "Eu só quero ser suficiente pra alguém. Só uma vez."
'Você já é,' ela disse, com uma voz mais baixa e familiar no fundo da minha mente. 'Você se carregou através do fogo, Sera. Você sobreviveu onde outros teriam sucumbido. Você não precisa do amor de ninguém pra se completar.'
Eu sabia disso. Lá no fundo, eu sabia que eu não precisava do amor de ninguém para sobreviver, não depois de tudo que eu suportei e superei.
Mas, deuses, como eu queria! Eu desejava tanto que chegava a doer.
Isso era tão ruim assim? Eu não era digna de amor, pelo menos?
'Você é digna de um amor que move montanhas, Sera. Não se contente com menos.'
Soltei um suspiro trêmulo. 'Será que isso realmente existe?'
Alina ficou em silêncio e eu senti a incerteza dela como se fosse a minha. Um amor que move montanhas? Sei.
'De qualquer forma,' ela finalmente disse, 'eu sempre estarei aqui, Sera. Eu e aquele lobinho que te chama de mãe.'
Isso arrancou um sorriso relutante de mim. 'Você quer dizer o Daniel?'
'Exatamente.' Havia calor no tom dela agora. 'Entre nós dois, você já tem todo o amor de que precisa.'
Eu não respondi, mas a dor no meu peito diminuiu um pouco.
Aquela noite, fiquei acordada no escuro, ouvindo o ritmo constante da respiração do meu filho ao meu lado.
O silêncio se estendeu, puxando-me para antigas lembranças... Noites passadas em uma casa que nunca pareceu um lar, a indiferença do Kieran cortando mais que as palavras, a presença da Celeste como uma sombra a cada movimento meu, mesmo quando ela não estava por perto.
A fria indiferença nos olhos do Kieran quando ele disse: "Quero o divórcio."
E depois, o Lucian: "Mais do que qualquer coisa no mundo."
Ele amava a Zara mais do que qualquer coisa no mundo. Como eu poderia competir com isso?
Deuses, eu detestava esse sentimento, de que não importava o quanto eu tentasse enterrar as minhas inseguranças, elas sempre encontravam uma maneira de voltar à tona ao menor sinal de provocação.
Eu pensei que eu era mais do que isso. Pensei que tinha construído algo mais forte a partir das minhas cicatrizes.
Mas, talvez, bem lá no fundo, eu ainda fosse a mesma mulher que esperava ser escolhida por alguém que não conseguia se desprender totalmente de outra pessoa.
Essa era a parte mais cruel.
Mesmo depois de tudo, eu ainda queria ser escolhida.
***
O dia seguinte amanheceu cinza e frio, combinando com o meu humor.
Se dependesse de mim, eu teria passado o dia inteiro enrolada na cama, me sentindo péssima.
Mas o Daniel me pediu, bem baixinho, com cuidado: "Mãe, a gente pode visitar o Vovô Edward?"
Eu não fazia ideia de onde tinha vindo esse desejo. Eu não tinha visitado o túmulo do meu pai desde o pesadelo que foi o seu enterro, e, francamente, eu preferiria me jogar de volta na Arena Campo de Neve sem nenhuma roupa do que sentar em frente à lápide de Edward Lockwood. Mas ele era o avô do Daniel e já sabemos que eu encontraria uma maneira de encolher a lua e pendurá-la em um colar se o meu filho pedisse.
Então, dei um beijo suave na cabeça dele e sussurrei: "Vamos depois do café da manhã."
***
O Daniel e eu paramos na floricultura no caminho e ele escolheu um pequeno buquê de lírios brancos. "Os favoritos do Vovô", ele me disse. Eu não fazia ideia.
Quando chegamos ao cemitério, a neblina da manhã já tinha se dissipado, deixando o ar claro e fresco.
Os caminhos de pedra estavam escorregadios com a umidade da manhã e a grama recém-cortada. O cemitério era tão bonito quanto silencioso, com a sua quietude interrompida apenas pelo farfalhar das folhas e o distante canto dos pássaros.
O túmulo de Edward Lockwood estava no topo de uma colina, um espaço elevado e impecável com vista para o vale. Típico dele, mesmo na morte, querer estar acima dos outros.
Parei a alguns passos de distância, sentindo o meu coração se contorcer.
Talvez eu devesse estar com raiva dele por ter sido tão implacável comigo. Ou raiva porque tudo o que importava para ele era a imagem da família e o seu legado. E raiva por ele ter morrido antes que eu tivesse a chance de provar o meu valor.
Em vez disso, uma tristeza vazia e pesada tomou conta de mim.
Olhei para a fotografia incrustada na lápide. Um homem que já pareceu maior que a vida agora estava reduzido a esta fria e desgastada pedra.
Meus olhos se fixaram no nome gravado.

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