PERSPECTIVA DA CELESTE
A primeira coisa que senti foi o peso na minha cabeça latejado. Era como se alguém armado com halteres estivesse tentando cavar o caminho para fora de mim de trás dos meus olhos.
A segunda foi o pânico.
Meus membros estavam enredados em lençóis de seda de uma cama gigantesca e luxuosa que não era minha. O frio estéril de uma suíte com temperatura controlada rodeava minha pele.
Minhas pálpebras pareciam ter sido soldadas, mas era só o rímel endurecido contra a pele ainda esticada por lágrimas secas. Eu as forcei a abrir e fiz uma careta, instantaneamente me arrependendo da ação quando a dor gritou na minha cabeça.
Eu me ergui com braços fracos e pressionei uma mão na minha têmpora pulsante.
Pisquei, absorvendo o quarto através da visão turva: o teto branco, o mármore iluminado em dourado, as cortinas de veludo e a madeira polida.
A confusão, misturada com um temor gélido, apertou o meu peito quando os meus olhos caíram sobre uma toalha pendurada na cadeira e reconheci o emblema.
O Hotel Vesper Grand.
O monumento mais ridiculamente opulento à riqueza e prestígio da comunidade lobisomem de LA. Meu hotel favorito.
O que diabos tinha acontecido?
A memória da noite passada bateu na minha cabeça dolorida.
Luna Noire. Whisky. Os três lobos.
‘Qual é, querida, só estamos tentando ser amigáveis.'
'Não toca em mim.'
‘Não se faça de difícil. Não é nada atraente.’
Não.
Não, não, não...
O enjoo me invadiu junto com o pânico enquanto os meus dedos corriam pelo meu corpo. O vestido ainda estava no lugar e o cabelo estava solto, mas não bagunçado.
Sem dor. Sem hematomas. Sem cheiros estranhos na minha pele.
Eu não tinha sido tocada.
Um alívio, forte e humilhantemente vulnerável, me inundou de tal forma que me deixei cair contra os travesseiros atrás de mim e fechei os olhos.
Com isso, mais flashes apareceram na minha memória.
’Toca nela de novo e eu quebro todos os ossos do seu corpo inútil.’
Meus olhos se abriram novamente, arregalados.
A voz ecoou na minha mente. Era sombria, perigosa... e familiar.
E então tinha o rosto...
Aquele que achei ter enterrado junto com o rompimento do nosso laço.
Não podia ser real.
Certo?
Pressionei a palma da mão contra o meu peito, talvez esperando sentir o eco dele ainda ali. Mas senti apenas um vazio suave e distante.
O vínculo de companheiro tinha sido cortado completamente. Eu não tinha mais aquela sensação de ligação, nenhum calor.
Eu devia estar enganada. Talvez tenha bebido muito whisky. E tive um dia longo e horrível antes disso. Sim, devia ser isso.
Um bip eletrônico suave ecoou da entrada.
Levantei a cabeça rapidamente quando a porta da suíte se abriu.
E Brett Mercer entrou.
O tempo parou. O quarto explodiu ao meu redor enquanto o choque apagava qualquer outra emoção.
Fechei os olhos e apertei-os com força, apesar da dor aguda que a ação causou.
Contei suavemente até três. Era isso que deveríamos fazer quando tínhamos uma alucinação, não era?
Quando abri os olhos novamente, ele ainda estava lá.
Meu companheiro.
Bom, ex-companheiro.
E ele parecia... diferente.
Não era o garoto que uma vez se ajoelhou aos meus pés com adoração no olhar. Não era o homem desesperado implorando por um pouco do meu carinho. Também não era o companheiro amargo e despedaçado que ingeriu veneno de lobisomem para romper completamente o nosso vínculo antes que eu pudesse destruí-lo ainda mais.
Este Brett estava mais ereto. Despreocupado. E usava uma frieza cheia de autoconfiança na sua postura como uma segunda pele.
As roupas dele ainda eram simples, uma calça jeans preta e uma camiseta escura ajustada, mas agora o caimento era outro, como se as peças tivessem encolhido, não como se ele tivesse escolhido em qualquer brechó barato.
O tecido esticava-se sobre os ombros largos dele e as mangas estavam arregaçadas, revelando as veias fortes e os músculos protuberantes que eu não reconhecia. Um relógio dourado, de aparência cara, brilhava no seu pulso.
O maxilar dele estava mais afiado e foi suavizado pela sombra de uma barba por fazer. O cabelo estava um pouco mais longo e bagunçado de uma maneira que parecia intencional, não descuidada.
Ele parou ao ver que eu estava acordada. Não houve um piscar de alívio. Nada de ‘Graças aos deuses você tá bem’ ou suspiros angustiados.
Apenas um olhar frio e distante. Os olhos dele, que eu sempre achei expressivos em demasia, estavam indecifráveis.
"Você acordou," ele disse sem emoção, fechando a porta atrás de si.
O som da sua voz foi como um tapa na minha cara.
Duas palavras bastaram para uma enxurrada de memórias, de um passado enterrado, ameaçarem me afogar.
Levantei o queixo. "Você." Minha voz estava rouca e a garganta apertada. "Era você mesmo?"
A voz áspera e autoritária. A maneira como os lobos se dispersaram imediatamente. Era impossível. Brett Mercer não tinha esse tipo de autoridade.
E ainda assim...
Ele deu de ombros, como se me resgatar de três lobos potencialmente perigosos em um bar às 3 da manhã não fosse diferente de fazer compras no supermercado.
"O que aconteceu?" perguntei.
"Você estava a uns cinco segundos de ser arrastada pra um beco," ele disse friamente e foi até o frigobar como se não valesse a pena me encarar durante a conversa. "Eu intervi."
Eu odiava como o meu coração disparou de humilhação.
Ele pegou uma garrafa de água na geladeira e eu automaticamente estendi a mão.
Ele parou e arqueou uma sobrancelha. Então, tomou um longo gole da água.
Minha mandíbula caiu. Eu não sabia se estava furiosa com a forma como ele me desprezou ou hipnotizada pela maneira como o seu pomo de Adão se movia quando ele engolia.
Ele sempre foi tão... charmoso? Tão confiante? A sua presença sempre dominou o ambiente assim?
Afastei o olhar antes que ele me pegasse olhando.
Eu estava perdendo a sanidade, com certeza. Esse era o Brett, pelo amor dos deuses.
“E aí você me trouxe pra cá?” perguntei, ainda com a voz rouca. “Pra essa suíte?”
“Era o hotel mais próximo,” ele disse com naturalidade.
Eu ri, ignorando a dor na garganta. “Você espera que eu acredite que pode pagar por esse quarto?” Estávamos na suíte presidencial, que custava mais do que a receita anual de algumas Alcateias.
Brett revirou os olhos e tirou um cartão preto do bolso de trás da calça, batendo-o no balcão de mármore. “Não. Mas você pode.”
Meus olhos se estreitaram ao ver o cartão familiar. Então, a minha cabeça virou para a chiasse próxima, onde a minha bolsa estava, aberta. “Você usou o cartão?” Minha voz subiu de tom.
As sobrancelhas dele se ergueram preguiçosamente. “Tava com você, eu usei. Você não acordou na rua num mar do próprio vômito, então de nada.”
A risada que saiu de mim não tinha um pingo de humor.
Eu balancei a cabeça, olhando para o cartão preto do Kieran entre os dedos do Brett, como um lembrete de tudo o que eu tinha perdido.
Mas, de certa forma, isso trouxe tudo para uma perspectiva mais clara. Claro que o Brett não podia pagar esse quarto. Ele dormiu no carro uma semana inteira porque foi despejado do apartamento depois de atrasar o aluguel em seis meses.

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