PERSPECTIVA DA CELESTE
O whisky desceu queimando na minha garganta como fogo líquido. Bati o copo no balcão e fiz sinal pedindo mais um. O barman hesitou, provavelmente porque eu já tinha bebido demais, mas um olhar meu e ele serviu assim mesmo.
O baixo pulsava nas caixas de som do Luna Noire, vibrando contra a madeira e o metal como um ritmo que eu não conseguia calar. Ao meu redor, risos e o cheiro de lobos se misturavam intensamente ao álcool e ao desespero.
Eu odiava tudo aquilo. Detestava por completo. O fedor de lobos fracos fingindo ter importância. A maneira como me olhavam, como se eu fosse só mais uma bonitinha bagunçada, não a princesa Lockwood que eu era. Não a Rainha Blackthorne que eu deveria ser.
Meu reflexo no espelho atrás do bar parecia o de uma estranha. O batom borrado, os olhos com olheiras escuras e demasiado brilhantes, intensos, furiosos.
Eu quase não me reconhecia.
As palavras da minha mãe ainda ecoavam nos meus ouvidos, mais altas do que a música:
"Você já causou problemas o bastante, Celeste," ela disse, com as mãos tremendo enquanto juntava a bagunça de biscoitos que o neto desajeitado fez.
"Eu sou sua filha!" gritei. "Você nunca disse isso pra Sera, nem quando ela destruiu tudo!"
"A Sera não destruiu nada!" Ela me encarou. "Lamento apenas ter demorado tanto pra ver isso. Você só não suporta que o mundo parou de girar ao seu redor."
"Sua nojenta presunçosa!" eu soltei. "Você colocou uma coroa na minha cabeça e agora tá chocada que eu quero governar?"
Minha bochecha ainda latejava do tapa que ela me deu e a lembrança ardia mais do que a bebida.
Atirei o vaso de cristal precioso dela contra a parede, aquele que o Papai deu de presente no aniversário de vinte anos de casamento deles. Os cacos se espalharam enquanto eu saía da mansão, mas não olhei para trás, eu não suportaria. A minha mãe, por sua vez, não fez nenhuma tentativa de me seguir ou chamar.
Diferente de quando se tratava da Sera.
Aquela lembrança também ardia: a imagem da desgraçada da minha irmã indo embora, puxando o seu filho perfeito pela mão, e a minha mãe com os olhos cheios de lágrimas atrás deles.
Agora, lá estava eu.
Eu não podia ligar para o Ethan, afinal, ele também estava do lado da Sera.
Toda vez que eu ligava para o Kieran, ia direto para a caixa postal.
E eu preferia cortar a minha própria garganta a permitir que a Abby e a Emma testemunhassem a minha humilhante queda até a desgraça.
Então, eu estava completamente sozinha.
A grande Celeste Lockwood, futura Luna de nada.
Na televisão do bar, estava passando uma reprise do maldito TFL, tema sobre o qual as pessoas não paravam de falar. Claro, na conspiração universal para me ridicularizar, a imagem cortou para mostrar a Sera e a equipe dela. Lá estava a minha irmã, serena e composta, com o seu cabelo claro brilhando sob as luzes e uma postura de campeã, conquistando um respeito que ela não merecia.
A legenda dizia: 'Herdeira Lockwood reivindica o seu poder.'
Meu sangue ferveu.
Que absurdo.
"Ela não é a herdeira," murmurei, segurando o meu copo com tanta força que meus nós dos dedos ficaram brancos. Droga, tudo estava de cabeça para baixo. "Eu deveria ser aquela. Eu."
"Falando sozinha, querida?" uma voz arrastada soou atrás de mim.
Eu me virei e vi três homens encostados no bar, todos com os ombros largos e sorrindo de um jeito que fez a minha pele arrepiar. Lobos de baixo escalão cujo estado de embriaguez os fazia parecer idiotas.
Ugh, o Luna Noire estava no fundo do poço em termos de clientela.
"Me deixem em paz," eu disse secamente, virando de volta para a minha bebida.
Mas eles não me deixaram. Um se aproximou mais e disse: "Uma coisa linda como você não devia beber sozinha. De que Alcateia você é?"
"Aquela que cortará a sua garganta se você me tocasse." Nem olhei para ele. Ignorei a pequena pontada de dor ao perceber que nem tinha certeza se os lobos da Frostbane realmente viriam ao meu auxílio se eu estivesse em apuros. "Agora cai fora."
Isso deveria ter sido o suficiente, mas meu tom gelado e afiado só fez eles rirem.
"Temperamental," um deles disse e roçou os dedos no meu braço. Um arrepio de repulsa se espalhou pelo meu corpo a partir do ponto de contato. "Qual é, querida, só estamos tentando ser amigáveis."
"Não toca em mim." Empurrei a mão dele, mas o movimento fez a minha visão inclinar. Muito whisky.
Com o pico de pânico, a minha loba se agitou levemente sob minha pele, mas não reagiu. Eu a estava reprimindo há quase um ano e agora ela não passava de um sussurro dentro de mim.
O sorriso do homem se distorceu. "Não se faça de difícil. Não é nada atraente."
"Se afasta," eu esbravejei, mas a minha voz tremia. O bar estava muito barulhento e as luzes muito fracas. Alguns outros clientes notaram, mas desviaram o olhar. Ninguém queria se envolver em uma briga de lobos à noite.
Um deles agarrou o meu pulso, me puxando do banquinho. A dor percorreu o meu braço. "Me solta!" eu sibilei, tentando me soltar, mas o álcool me deixou lenta. As risadas deles se tornaram cruéis.
"Você acha que é boa demais pra gente, né?" zombou o segundo homem. "Quem você pensa que é, a filhinha de um Alfa?"
'Além de irmã e noiva de Alfas, seu idiota.' Mas a minha língua estava pesada demais para formar as palavras. Talvez eu devesse ter tatuado na minha testa como a Elara sugeriu.
Eu cambaleei e o meu coração disparou enquanto a sala girava. Minha loba choramingou, impotente. Balancei os braços de qualquer jeito, acertando um dos homens bem no peito, mas ele mal se mexeu.
Então, justo quando o pânico subia pela minha garganta, ameaçando cortar o meu ar, a atmosfera mudou.
Um rosnar sombrio e ameaçador ecoou pelo espaço, baixo e letal.
“Toca nela de novo,” uma voz disse das sombras, “e eu quebro todos os ossos do seu corpo inútil.”
O aperto no meu pulso desapareceu instantaneamente. Os homens congelaram e o meu fôlego se prendeu enquanto a multidão se abriu, revelando o homem que tinha falado.
Por um momento, pensei que estava alucinando.
De todas as pessoas no mundo que poderiam ter entrado no bar onde escolhi me afundar esta noite...
Não, não era possível.
Não podia ser ele.
Meu pulso vacilou.
E ainda assim...
Era ele.
***
PERSPECTIVA Da SERAPHINA
Não dormi bem.
Toda vez que fechava os olhos, via o rosto do Kieran e o lampejo de sofrimento nos seus olhos quando eu disse que não o queria.
O desespero na voz dele ecoava na minha mente, repetidamente (‘Eu só quero... você’), até que a exaustão finalmente me derrubou.
Mesmo assim, o sono não trazia paz. Em algum lugar distante, um uivo angustiado rasgava a noite, cru, ferido e implacável.
EU não tinha certeza se era real ou algo que o meu coração conjurou a partir da culpa, mas se alojou na minha mente como um eco que eu não conseguia silenciar, vibrando através dos meus ossos e da minha pele até parecer que estava saindo de mim.
A manhã demorou uma eternidade para chegar, mas, finalmente, a luz quente e brilhante começou a infiltrar pelas cortinas.
O leve cheiro de baunilha e de panquecas me recebeu antes mesmo de eu abrir os olhos. Minhas pálpebras estavam pesadas quando eu pisquei para acordar, grogue e um pouco desorientada, mais cansada do que quando adormeci.
Eu estava apenas me espreguiçando e me perguntando por que o lado da cama onde o Daniel tinha dormido estava vazio, quando a porta se abriu levemente com um rangido.
"Leona, você não precisa..."
"Preciso." Os olhos decididos dela encontraram os meus. "Eu estava errada sobre você, Seraphina. Todos nós estávamos. Você merecia mais, tanto da Alcateia quanto do resto de nós."
O que diabos estava acontecendo? Primeiro o Kieran na noite passada, e agora… isso?
Será que eu, de alguma forma, tropecei e caí em uma dimensão paralela e do avesso?
"Por favor?" Leona insistiu.
A sinceridade na voz dela me pegou de surpresa.
Peguei o presente lentamente, sentindo um nó na garganta enquanto o abria. Dentro, havia um pingente de prata com o brasão da NightFang gravado intrincadamente. No verso, estava inscrito o meu nome.
“Eu…” O que diabos eu deveria fazer com isso? Eu não era mais parte daquela Alcateia, não que algum dia tivesse sido. Fora que eu não queria nada me ligando ao Kieran, poxa.
Mesmo assim, inclinei a cabeça e disse suavemente: “Obrigada.”
Ela sorriu genuinamente, de maneira discreta. “Não, Sera. Eu que te agradeço.”
***
Com tudo o que aconteceu recentemente, parecia estranhamente desconcertante ir acampar com os meus colegas de equipe.
Tecnicamente, era um retiro patrocinado pela SDS para a equipe vencedora, e eles vinham planejando a viagem desde o fim do TFL, enquanto eu estava afundada no meu drama pessoal.
Era um pouco surreal considerar que havia se passado pouco menos de uma semana, e tanta coisa tinha acontecido desde então. Com certeza, eu precisava de uma distração da montanha-russa que a minha vida tinha se tornado.
Quando cheguei ao acampamento, a floresta estava cheia de risadas e do cheiro da fumaça da lenha, e os meus colegas estavam espalhados por diferentes estações.
O cheiro de pinho e terra úmida preenchia o ar, me trazendo uma sensação de paz que não sentia há dias.
“Sera!” Judy correu até mim e me puxou para um abraço. “Você veio mesmo! Achamos que fosse furar.”
Franzi a testa. “Por que vocês acharam isso?”
Ela deu de ombros. "Você não tem sido exatamente ativa no grupo nos últimos dias.”
A culpa me atingiu. "Você tá certa, desculpa."
"Tá tudo bem. Ser a campeã da vez é uma tarefa desafiadora.” Ela piscou. “Nós entendemos.”
Ri, sentindo a tensão começar a se desfazer.
Ela passou o braço sobre os meus ombros e me conduziu em direção ao resto do grupo. "Vamos lá, você foi a última a chegar. Precisamos dividir as tarefas entre nós seis.”
Franzi a testa. "Nós seis?”
Ela riu, me cutucando de forma travessa. "Se você tivesse aberto o chat do grupo, saberia do nosso convite de última hora.”
"Quem...?”
A resposta veio antes que eu pudesse terminar a pergunta.
Ele estava no limite do acampamento, carregando lenha nos braços e emoldurado pelo jogo de luzes do sol e sombras das árvores.
Nossos olhares se cruzaram e os fios de tensão que estavam se desfazendo segundos antes se enroscaram firmemente em volta do meu coração.
Lucian.
Adeus, descanso.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei
Finalmente toda a verdade do Lucian veio à tona. Só não faz sentido ele saber antes de qualquer pessoa (inclusive família) que a Zara era prima. Cadê a tia irmã de Margareth então? Porque Sera e Margareth foram mais importantes para Catherine do que esse outro braço da família?...
Quero saber até onde o Lucian estar envolvido com Katherine e Marcos...
Ok, sera não aceitar o vínculo. Agora deixa o Kieran seguir a vida dele em paz...
Tá muito bom os capítulos...
Preciso de ajuda pra comprar moedas, não consigo completa minha compra...
Sera era uma bobinha manipulada e do nada se tornou fodona. A autora exagerou demais. Comecei a ler uma romance onde o começo imita uma história que já existe e depois, a autora acrescentou "os mutantes" na história. Kkkkk Mas os capítulos que abrem essa história nada mais é do quem o plágio de uma história que já existe. A irmã, o marido que gosta da irmã, a noite em que a irmã errada dorme com o cara, casa com ele tem um filho. O divórcio e só depois ele começa a gostar dela... Enfim, copiou na cara dura....
Livro muito bom!!! Sem muita enrolação e historia com enredo e fluxo. Aguardando próximos capítulos e o encerramento breve!!!...
SERAPHINA é muito fraca e idiota,Catherine manipula ela fácil fácil, eu ia lá se sacrificar por uma pai uma família que sempre me tratou mal, eles que se virem...
Escritora por favor, melhora isso aí, Sera fez o ex marido comer o pão que o diabo amassou, botou homens na cara dele, agora a cobra da irmã dela baixa o espírito de Santa e Sara na primeira oportunidade já vai abraçar, me poupe, mais criatividade por favor...
Quando Sera vai descobrir a peste falsa e manipulador que lucian é?? Ele ainda foi embora com o amor da vida dele e ainda deixou a Sera responsável pelos negócios dele, Sera é muito idiota,...