PERSPECTIVA DA SERAPHINA
Sonhei com a luz do fogo.
A fogueira crepitava como na noite passada e as sombras douradas e âmbar dançavam nos rostos que mal registrei até um deles ganhar foco.
Lucian.
Seu olhar era firme, calmo e gentil. Ele se inclinou para perto de mim e o som das risadas das pessoas ao nosso redor se dissipou como fumaça.
"Posso?"
O calor dele roçou a minha pele enquanto ele se aproximava. Eu sabia o que vinha a seguir...
Mas então tudo mudou.
O rosto dele se distorceu, transformando-se em alguém ao mesmo tempo familiar e estranho. As maçãs do rosto eram mais pronunciadas, o maxilar mais largo e os olhos mais escuros, carregados de arrependimento.
O reconhecimento me atingiu como um choque elétrico correndo pelas minhas veias.
Kieran.
De repente, as emoções bateram de forma diferente: cruas, dolorosas e entrelaçadas com anos de mágoa, desejo e hipóteses.
Meu peito ficou apertado. Tentei me afastar, rejeitar a cruel fusão apresentada pelo sonho, mas me vi inclinando para frente, atraída por uma força que eu não conseguia controlar.
Os lábios do Kieran tocaram os meus com uma intensidade desesperada e cheia de anseio. A reação avassaladora do meu corpo parecia uma traição às lembranças sobre as quais construí minha determinação e à distância frágil que eu lutava tanto para manter.
Ele se afastou e repousou os polegares sobre os meus lábios pulsantes.
"Sera," ele sussurrou e eu acordei sobressaltada.
Por um momento, eu não conseguia identificar onde estava. Fiquei deitada, olhando para o teto, com o coração acelerado enquanto o ar raspava na minha garganta.
Então, aos poucos, os detalhes voltaram: a maciez da cama de hóspedes, o cheiro suave do chá de camomila que a Sabrina tinha deixado na mesinha de cabeceira e o silêncio tranquilo da manhã antes que a Alcateia começasse a se movimentar.
Foi apenas um sonho. Um sonho bobo, desorientador, emocionalmente manipulativo.
Pressionei a palma da mão sobre o meu peito pulsante.
Eu já me estressava o suficiente enquanto acordada, não precisava de conflitos internos enquanto dormia também.
O beijo do Lucian tinha sido motivado pelo clima da noite, nascido de um momento de calor, vulnerabilidade e a luz do fogo.
E o Kieran? Não tinha futuro ali. Nenhuma possibilidade. Não quando as feridas ainda sangravam sob curativos frágeis.
Me obriguei a sentar. O frio da madrugada rastejava pela minha pele, e eu o recebi, deixando-o dissipar o calor residual do sonho.
Eu já tinha tomado banho, trocado de roupa e trançado o meu cabelo quando a Sabrina bateu na porta e colocou a cabeça para dentro com um animado: “Bom dia! Dormiu bem?”
“Sim, dormi bem, obrigada,” menti, ajustando o punho da minha camisa como se isso pudesse resolver a eletricidade estática que ainda sentia sob a pele.
Ela entrou sem esperar a permissão. “O Lucy tá ocupada o dia todo com os preparativos para a Cerimônia do Desejo ao Banho de Lua,” ela me informou com um brilho nos olhos. “Então você vai passar o dia comigo novamente.”
Sorri. Eu não sabia o que eu tinha que atraía amigas tão animadas quanto um golden retriever, mas não estava reclamando.
“Vamos.” Ela estendeu a mão e balançou nos calcanhares com entusiasmo. “Precisamos preparar a sua roupa pra Cerimônia.”
Segui-a pelo corredor, cada passo animado dela me tranquilizando. “Então, o que é a Cerimônia do Desejo ao Banho de Lua?”
“É uma das tradições mais sagradas do Festival da Lua Azul. A Zoe ainda jura que é por isso que ela finalmente se transformou depois de estar bloqueada por meses.”
Meus passos vacilaram. "O quê?"
O sorriso da Sabrina foi gentil, não de pena.
"A Cerimônia acontece na Nascente do Brilho da Lua," ela explicou, enfiando as mãos nos bolsos da jaqueta enquanto caminhávamos. "Todos usam mantos simples, sem enfeites. Aí nos reunimos pra agradecer pelas bênçãos da Deusa da Lua."
A voz dela abaixou um pouco, assumindo um tom de reverência. "Quando a lua cheia atinge o seu ponto mais alto, aqueles que ainda não encontraram o seu lobo ou que ainda carregam feridas profundas que impedem a sua transformação, dão um passo à frente. Eles tiram os seus mantos como símbolo de deixar pra trás tudo que pesa neles e entram na água."
Ela olhou para mim e vi um leve sorriso surgir no seu rosto. "A luz da lua faz o resto. Eles ficam lá, com água até a cintura, de olhos fechados, e fazem os seus pedidos. Quando emergem, nós os envolvemos em cobertores grossos, tecidos com fibras da Lua Azul. Significa renascimento. Um novo começo."
"Uau." Eu exalei. "Isso soa..." Eu estava sem palavras.
"É." Ela assentiu, enquanto parávamos em frente a uma porta. "Eu costumava achar que era dramático, mas quando eu vi a cerimônia pela primeira vez, senti algo diferente só de testemunhar as pessoas entrando na água, algumas tremendo, outras chorando. É como se a esperança não fosse apenas uma piada cruel."
"E funciona?" perguntei suavemente.
Ela deu de ombros. "Funcionar significa coisas diferentes pra pessoas diferentes. Ninguém sabe o que você deseja, então só você pode saber se o desejo se realizou."
Com isso, ela abriu a porta.
Em uma sala silenciosa, forrada com tecidos de diversos tons de branco lunar, encontramos dois anciãos que me cumprimentaram com acenos serenos.
Eles falaram suavemente enquanto nos guiavam pelo processo de seleção dos mantos cerimoniais, tecidos com fibras semelhantes ao linho, soltos e simples.
"Você vai usar isso esta noite," explicou um dos anciãos. "Descalça e com o cabelo solto para simbolizar firmeza e entrega. Sem joias, sem adornos."
"Você não vai entrar na Nascente," continuou outro ancião, prendendo o cinto ao meu redor com movimentos graciosos. "Mas a sua presença importa. Os observadores carregam os desejos em testemunho silencioso."
Por alguma razão, essa informação ficou presa na minha garganta. Mas ignorei. Era uma honra ter a permissão de testemunhar uma tradição sagrada da Alcateia como essa. Eu não seria gananciosa.
Depois de resolvermos a roupa, a Sabrina me puxou para fora, onde toda a Alcateia parecia zumbir com um propósito silencioso.
Senti o ar simultaneamente denso de expectativa e calmo.
Os membros da Alcateia se moviam empolgados, alguns carregando caixas de ervas secas, outros trançando longas cordas de fibras vegetais que, como a Sabrina explicou, seriam mergulhadas em óleos simbólicos mais tarde.
As conversas eram suaves e reverentes mesmo na sua casualidade. Sabrina e eu nos juntamos ao que podíamos, amarrando maços de ervas, organizando velas, carregando potes de óleo. Era bom nos movermos, sermos úteis e percebermos o nosso riso silencioso se misturando facilmente ao ritmo dos preparativos da Alcateia.

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