PERSPECTIVA DA SERAPHINA
Eu não fazia ideia de quanto tempo fiquei ali, olhando para a Nascente do Brilho da Lua.
As vozes ao meu redor haviam desaparecido completamente agora. Não havia mais risadas suaves, nem orações sussurradas, só o som do vento passando pelas árvores, o distante piar de uma coruja e o som delicado da água batendo nas pedras.
Eu deveria ter ido embora. Isso estava bem perto de ser uma invasão.
Mas algo em mim resistia à ideia de virar as costas.
Um leve tremor pulsava sob as minhas costelas, como um coração que não me pertencia. Eu ainda era pega de surpresa às vezes quando a sentia.
Alina.
Ela passava de leve pela minha mente, como um fantasma. Não falava, não emitia som.
Mas tinha uma… sensação, como uma atração. Como se um ímã enterrado na Nascente estivesse me atraindo.
Levantei-me lentamente e pressionei a terra úmida com os meus pés descalços. A grama estava fria e escorregadia com o orvalho.
Cada respiração que eu dava parecia aprofundar o vínculo entre a água e mim, como se a própria Nascente reconhecesse algo que eu ainda não entendia.
Eu queria sentir aquilo.
Eu queria saber se a lua me rejeitaria ou me acolheria apesar de tudo.
Antes que eu pudesse pensar melhor, meus dedos foram até o cinto do meu manto enquanto eu dava um passo à frente.
E então outro.
Eu estava quase chegando à beira da água quando uma voz familiar, baixa e calma, cortou a noite.
"Sera."
O tom de voz do Lucian não era exatamente autoritário, mas carregava uma autoridade silenciosa suficiente para me parar completamente.
Ele saiu das sombras perto do círculo de pedra, com a luz da lua destacando o seu rosto de forma marcante. Os cabelos escuros dele refletiam o tom prateado nas pontas e a sua expressão era indecifrável.
Ele tinha tirado o manto e usava calça de algodão, mas o seu torso estava nu, com a luz da lua realçando cada músculo em detalhes impressionantes. Notei que a tatuagem que cobria o braço dele se estendia pelo peito e que um símbolo de Alfa circundava o espaço sobre o seu coração.
Por um instante, nenhum de nós se moveu.
Então, os seus olhos suavizaram. "Você não pode," ele disse calmamente.
"Eu..." eu engoli seco e agarrei a borda solta do manto. "Eu não tive a intenção de desrespeitar."
Ele balançou a cabeça levemente, já se aproximando. "Não é isso. Você não pertence à Shadowveil."
As palavras não eram cruéis, apenas factuais, mas me atingiram mais forte do que eu esperava.
Pertencer...
Deuses, eu nunca pertenci a nenhuma alcateia. Não verdadeiramente.
"Eu sei," eu sussurrei, abaixando o olhar. "Eu só... senti algo me chamando. Como se eu devesse..."
"Eu não duvido nada disso," o Lucian murmurou. "A Nascente chama aqueles que carregam dor e anseios. Mas entrar sem a bênção da Alcateia... pode trazer consequências e não apenas com os anciãos. A água reconhece a lealdade. Ela pode purificar... ou punir."
Olhei novamente para a água. Parecia tão calma, tão inofensiva.
"Eu não estava raciocinando," admiti e senti a minha garganta se apertar, "eu só queria..."
"O que você queria?" ele perguntou suavemente quando a minha frase ficou sem fim.
Hesitei. Minha voz saiu quase como um sussurro: "Sentir a purificação. A bênção."
Eu queria sentir a paz interior que tinha visto nos olhos daqueles que mergulharam na Nascente.
Algo piscou nos olhos do Lucian: compreensão, não piedade.
Ele se aproximou de mim, com cuidado e sem pressa. O cheiro de pinho e fumaça de lenha emanava dele, algo que me conectava ao silêncio intenso.
"Então deixa eu te guiar," ele disse suavemente. "Se eu estiver junto, a Nascente não vai te rejeitar."
Minha respiração falhou. "Você faria isso?"
Ele sorriu gentilmente. "Você tá caminhando entre o meu povo, compartilhado a nossa mesa. Se a lua te vê através de mim, ela não vai te rejeitar."
"Não quero causar problemas," eu disse, mesmo enquanto a esperança crescia em mim.
"Não vai," ele me assegurou, estendendo a mão. "Confie em mim."
Por um longo momento, olhei para aquela mão ampla e forte que me esperava.
E então, lentamente, alcancei e a peguei. Lucian me guiou os poucos passos restantes até a beira da água.
Então, a sua mão soltou a minha e eu soube o que viria a seguir.
Com uma longa expiração, deixei os meus dedos se soltarem do cordão do manto. O tecido escorregou dos meus ombros, sussurrando contra minha pele, e se acumulou aos meus pés.
Apesar da nossa história e dos breves momentos de intimidade ao longo do nosso relacionamento, estar ali diante do Lucian, completamente exposta, fazia o meu estômago se agitar com um pânico tímido e silencioso.
O olhar calmo, firme e constante dele não desviou do meu em momento algum. Não havia traço de desejo nos seus olhos, apenas uma orientação gentil e uma paciência que acalmava o nó de nervosismo no meu peito.
O instinto de desviar o olhar e de me esconder foi superado pela atração da Nascente e do luar que me mantinha ali.
"Tá tudo bem," ele disse suavemente. "Só respira."
Engoli em seco e inspirei trêmula, deixando o ar fresco da noite passar por mim e sensibilizar a minha pele de uma forma que me deixava ciente de cada curva e sombra do meu corpo.
Lucian estendeu a mão novamente e desta vez a peguei sem hesitação. O aperto dele era quente, sólido e me mantinha no chão. O contraste entre o seu toque e o frio do ar suavizava a minha ansiedade.
Ele me guiou para frente, lento e confiante. Os dedos dos meus pés descalços foram os primeiros a tocarem a água fria e cortante. Um arrepio percorreu as minhas pernas.
"Tá frio," sussurrei.
"Pode entrar," ele murmurou, passando o polegar de forma reconfortante sobre os meus dedos. "Não resista."
Engoli em seco. A tensão nos meus ombros diminuiu à medida que a água chegava às minhas panturrilhas, depois aos joelhos. Segurar a mão de Lucian era como ter um salva-vidas diante da incerteza. Quando a água alcançou a minha cintura, ofeguei e senti o frio pressionar as minhas costelas com um choque elétrico surpreendente.
A voz do Lucian me ancorou. "Respire."
Eu respirei. E, à medida que o ar preenchia meus pulmões, o mundo além da Nascente desaparecia: as árvores, o vento, o leve murmúrio de vozes. Apenas a lua acima e o reflexo abaixo existiam, me envolvendo em um círculo perfeito de luz e água que parecia alcançar cada parte ferida de mim.
A cada respirada, a força as sob minhas costelas (o pulso da Alina) crescia mais forte, mais claro, tão intenso que me deixava sem fôlego.


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