PERSPECTIVA DO LUCIAN
O cheiro da Sera, uma mistura de lavanda com algo mais suave que era unicamente dela, permaneceu no ar muito depois que ela saiu.
O silêncio estava denso e introspectivo enquanto fiquei sentado junto à lareira, olhando para as chamas que começavam a diminuir.
Ela me contou a verdade sobre a sua loba e sobre o Kieran. E, embora o meu estômago se revirasse ao ouvir o nome dele e a revelação do possível vínculo entre eles, eu estimava a sua honestidade.
Só me restava torcer para que ela estivesse sendo sincera quando disse que não tinha intenção de voltar para o ex-marido.
Com um suspiro pesado, levantei-me e apaguei o fogo. O leve chiado da água encontrando a brasa ressoou na quietude.
Então, me virei e segui pelo corredor em direção aos meus aposentos.
A luz do luar passava pelas grandes janelas e pintava padrões prateados no chão de pedra.
Uma risada suave vinha de fora. Mas, aqui dentro, a noite parecia parada, como se estivesse prendendo a respiração.
No meu quarto, tirei a camisa e a joguei de lado. O ar fresco que vinha da grande janela do chão ao teto ao meu lado acariciou a minha pele. Dali, eu podia ver o vale que abrigava a Nascente do Brilho da Lua.
Eu ainda conseguia imaginar a Sera entrando na água, com a cabeça jogada para trás enquanto a luz da lua a banhava com o seu brilho. Ela nunca pareceu mais bela do que naquele momento.
E, quando ela me abraçou...
Sacudi a cabeça, espantando imediatamente o pensamento carnal.
E foi aí que ouvi ele.
'Você tá preocupado.'
A voz era profunda, ressonante, com um tom de calma que eu não sentia há anos.
Fiquei paralisado por um segundo antes do meu coração disparar. "Rhegan?"
Fazia meses (não, anos) desde que o meu lobo tinha falado tão claramente comigo. Eu ouvia um sussurro ocasionalmente, um instinto aqui ou ali, que se intensificava sempre que eu me transformava, mas nada como isso.
Ouvir a voz dele novamente era como receber um velho amigo de volta após anos de batalha.
‘É você mesmo?’, perguntei, passando a mão no queixo.
'Você tem mais de uma voz na cabeça?'
Exalei uma risada incrédula. ‘Achei que você tivesse se calado pra sempre.’
'Eu tava observando,' Rhegan respondeu, com um tom caloroso. 'E esperando. Você precisava de espaço pra se lamentar. Nós dois precisávamos.'
Sentei-me na cadeira perto da janela. ‘Sabe, bem que você poderia ter me ajudado. Sofrer foi muito mais difícil depois que você me abandonou.’
'Eu não te abandonei,' ele disse simplesmente. 'Nunca poderia te abandonar. Mas lembre-se, você não foi o único que perdeu uma companheira.'
Engoli em seco e o meu olhar se perdeu lá fora, na Nascente do Brilho da Lua.
O fato de ouvir a voz do Rhegan tão claramente depois de todo esse tempo... Será que também fui abençoado pela Nascente esta noite?
‘Como você tá?’ perguntei suavemente.
Um momento de silêncio se passou antes que ele respondesse. 'Meia alma ainda é uma alma.'
Um sorriso melancólico surgiu nos meus lábios.
Então, ele me pegou de surpresa. 'Ela é incrível. A Alina.'
Senti a diversão dele com a minha surpresa. 'Eu a senti muito antes de você.'
Soltei uma gargalhada incrédula. ‘Você podia ter me contado, sabia?’
'Não era um segredo meu pra eu sair contando.'
Revirei os olhos.
‘E o que você acha dela?’
'Ela é forte, feroz', ele disse, com uma admiração evidente na voz. 'Quando ela se revelar completamente, será um fenômeno.'
Fiquei surpreso. ‘Você... gosta dela.’
'Gosto.'
Foi inesperado. Mesmo antes da Zara, o Rhegan raramente falava das lobas.
E, desde a morte de Zara... silêncio.
'Você não fala isso sobre ninguém há anos.'
‘Ninguém merecia que eu dissesse isso,’ ele respondeu sem hesitar. ‘Ela é diferente. Se eu não gostasse dela, você acha que a sua conexão com ela teria se desenvolvido tão suavemente? Você teria sentido resistência. Conflito.’
Recostei-me e franzi levemente a testa. Eu não chamaria a minha conexão com a Sera necessariamente de ‘suave’.
‘Então, você... ficou aí nas sombras, aprovando tudo silenciosamente?’
'Observado,' ele corrigiu. 'E esperando você perceber que o seu coração estava tentando acordar muito antes da sua mente permitir.'
As palavras dele me atingiram fundo.
Fechei os olhos, pressionando o polegar e o indicador contra eles. ‘Não vou negar. Eu amo a Sera.’
'Mas também não se entregou completamente a ela. E eu entendo o porquê. Mas, Lucian...' Sua voz amoleceu. 'Você não pode continuar se punindo e aprisionando qualquer emoção que não seja o luto. A Zara não ia gostar nada disso. Nem a Arden.’
O som do nome dela, dos nomes delas, na voz dele era tanto um bálsamo quanto uma lâmina. A dor se elevava sob o conforto, ao mesmo tempo afiada e terna, deixando o meu coração em carne viva.
Cerrei os dentes e olhei para minhas mãos. As cicatrizes antigas reluziam sob a luz da lua como lembranças das batalhas travadas tanto fora quanto por dentro. ‘Você acha que eu devo simplesmente... esquecê-las?’
‘Esquecer não,’ o Rhegan murmurou. ‘Você deve viver de novo. Sentir de novo. Honrar a memória dela não significa que você precisa se perder junto dela.’
Minha garganta apertou. ‘Você quer que eu a deixe partir.’
‘Eu senti os últimos pensamentos dela,’ ele disse suavemente. ‘Os da Arden também. Nenhuma das duas queria que você passasse o resto da vida preso à fantasmas. Elas queriam que você fosse livre.’
Por um longo instante, eu não disse nada. O silêncio se alongou, pesado e frágil.
Suspirei, passando a mão pelo rosto. ‘Esqueci como você pode ser claro.’
‘Os lobos veem a verdade sem complicação,’ ele respondeu simplesmente. ‘Vocês humanos gostam de distorcer as coisas pra doer menos.’
Um sorriso sem humor apareceu nos meus lábios. ‘Talvez. Mas não tenho ideia de como distorcer a notícia sobre a Sera e o Kieran.’
Ele resmungou baixinho, um som grave de compreensão.
Então, disse, mais suave: ‘Você teme o vínculo entre eles.’
Fiz uma careta. ‘Dá pra me culpar? Você sabe exatamente como é.’
Eu não conseguia imaginar sequer olhar para outra mulher se a Zara ainda estivesse viva.
‘Então me diga: você vai recuar por causa disso?’
Essa pergunta foi aguda e penetrante. Endireitei-me na cadeira.
‘Recuar?’ repeti. ‘Você sabe que isso não faz parte da minha natureza.’
Um murmúrio profundo e aprovador vibrou através da nossa conexão. 'Bom. Porque o destino é apenas um fio na tapeçaria. O resto, você tece com as suas próprias mãos.'
Isso me fez rir, baixo e áspero. ‘Você ficou filosófico depois de todo esse tempo no silêncio.’
'Talvez eu tenha tido tempo pra refletir, pra colocar as coisas em perspectiva.'
‘Ou talvez você estivesse esperando pra me dar uma lição.’
Zara virou o olhar para a Nascente, onde o luar transformava a superfície em prata líquida. "Ela é uma boa mulher. Será uma Luna fenomenal."
"Parece que você a conhece," comentei, com um leve sorriso tremendo nos lábios.
"De certa forma," a Zara murmurou. "Afinal, compartilhamos uma linhagem de sangue." Ela sorriu afetuosamente. "Acho que você tem uma fraqueza por mulheres com fogo nas veias."
"Não é." Ela estendeu a mão e entrelaçou os nossos dedos, fazendo o meu coração parar dolorosamente com o contato. "Luc, escuta."
Todo o meu corpo paralisou.
“Você não pode ficar onde eu tô,” ela disse suavemente. “E eu não quero que você fique. Me promete que você vai seguir em frente. Seja com ela ou não, me promete que você vai viver.”
Minha garganta estava seca. “Zara…”
Ela estendeu a outra mão e os seus dedos tocaram o meu rosto dele. Eles estavam quentes e o toque foi tão real que doeu. “Você não me deve a sua solidão.”
Eu queria discutir, dizer que ela estava errada, que eu devia tudo a ela e que passei anos tentando fazer as pazes com a sua ausência e com a minha culpa, mas falhei.
Entretanto, a expressão dela não deixava espaço para protestos.
“Você vai protegê-la,” ela disse baixinho. “Não porque ela é como eu, mas porque ela tem a sua própria alma e porque protegê-la vai te ajudar a se curar também.”
Um soluço silencioso ameaçava escapar. Eu o reprimi, com a mandíbula apertada. “Você tá mesmo se despedindo.”
Zara sorriu, apesar das lágrimas que brilhavam nos seus olhos. “Sim. Mas você vai ficar bem.”
A mão dela permaneceu no meu rosto. Então, ela se inclinou e pressionou um leve beijo na minha testa. “Adeus, Lucian.”
“Espera...” Eu consegui dizer.
Mas ela já estava desaparecendo e a luz se desfazendo como névoa ao amanhecer.
Eu tentei alcançá-la, mas os meus dedos tocaram apenas o ar.
E então eu acordei.
Os primeiros raios de sol entravam pela janela, pálidos e dourados. Meu peito subia e descia em um ritmo constante, embora parecesse que algo imenso tinha mudado dentro de mim.
A dor do vazio deixado pela Zara no meu peito ainda estava lá, mas... era mais suave. Gerenciável.
Pela primeira vez em anos, não me sentia preso à lembrança dela. Eu me sentia abençoado por ela.
Levantei-me devagar, esfregando uma mão sobre o rosto.
"Adeus, Zara", murmurei.
A presença do Rhegan se mexeu, tranquila e serena. 'Ela tá orgulhosa de você.'
‘Eu sei.’
Lá fora, a Alcateia já estava se movendo e o leve murmúrio da vida filtrava-se pelas paredes de pedra.
Vesti uma camisa e caminhei em direção à janela.
A aurora se espalhava sobre Shadowveil, iluminando as montanhas em tons de rosa e dourado. Em algum lugar da casa, a Sera estava acordando, provavelmente conversando com a sua loba sobre o café da manhã ou o clima.
Um sorriso suave surgiu nos meus lábios. De fato, ela não tinha sido a única abençoada pela Nascente do Brilho da Lua.
'Pronto pra ver aonde esse caminho leva?' Rhegan perguntou gentilmente.
Soltei um suspiro lento e o peso da noite aliviou nos meus ombros.
O que quer que viesse a seguir, seja o destino, a escolha, o caos, não importava.
Pela primeira vez em muito tempo, eu estava pronto para enfrentar tudo de frente.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei
Finalmente toda a verdade do Lucian veio à tona. Só não faz sentido ele saber antes de qualquer pessoa (inclusive família) que a Zara era prima. Cadê a tia irmã de Margareth então? Porque Sera e Margareth foram mais importantes para Catherine do que esse outro braço da família?...
Quero saber até onde o Lucian estar envolvido com Katherine e Marcos...
Ok, sera não aceitar o vínculo. Agora deixa o Kieran seguir a vida dele em paz...
Tá muito bom os capítulos...
Preciso de ajuda pra comprar moedas, não consigo completa minha compra...
Sera era uma bobinha manipulada e do nada se tornou fodona. A autora exagerou demais. Comecei a ler uma romance onde o começo imita uma história que já existe e depois, a autora acrescentou "os mutantes" na história. Kkkkk Mas os capítulos que abrem essa história nada mais é do quem o plágio de uma história que já existe. A irmã, o marido que gosta da irmã, a noite em que a irmã errada dorme com o cara, casa com ele tem um filho. O divórcio e só depois ele começa a gostar dela... Enfim, copiou na cara dura....
Livro muito bom!!! Sem muita enrolação e historia com enredo e fluxo. Aguardando próximos capítulos e o encerramento breve!!!...
SERAPHINA é muito fraca e idiota,Catherine manipula ela fácil fácil, eu ia lá se sacrificar por uma pai uma família que sempre me tratou mal, eles que se virem...
Escritora por favor, melhora isso aí, Sera fez o ex marido comer o pão que o diabo amassou, botou homens na cara dele, agora a cobra da irmã dela baixa o espírito de Santa e Sara na primeira oportunidade já vai abraçar, me poupe, mais criatividade por favor...
Quando Sera vai descobrir a peste falsa e manipulador que lucian é?? Ele ainda foi embora com o amor da vida dele e ainda deixou a Sera responsável pelos negócios dele, Sera é muito idiota,...