PERSPECTIVA DA SERAPHINA
A lua estava subindo no céu, brilhante e cheia. Ela lançava um brilho místico sobre o vale enquanto o ar pulsava com expectativa. Eu podia ouvir os lobos se mexendo, vozes se misturando com empolgação enquanto a Alcateia se reunia no vasto platô com vista para a floresta abaixo.
A Corrida da Alcateia.
Depois de anos assistindo das sombras, isolada enquanto a minha Alcateia corria sob a lua cheia, eu mal podia acreditar que finalmente faria parte de uma corrida dessas.
Meu coração batia descontroladamente.
‘Respira, Sera’, a Alina murmurou dentro de mim com um tom surpreendentemente calmo, considerando o que isso significava para nós. ‘Você tá tremendo como se estivesse no Campo de Neve novamente.’
‘Não tô tremendo,’ respondi. Então, um segundo depois, me rendi: ‘Tá, talvez um pouco.’
Ela deu uma risadinha. ‘Eles são a sua Alcateia essa noite. Se permita pertencer.’
Esse pensamento me encheu de calor, como um longo abraço.
Sabrina apareceu ao meu lado, com as bochechas coradas pelo frio e o cabelo trançado em duas linhas elegantes que a faziam parecer mais jovem. Ela estava praticamente vibrando.
"Não posso acreditar que você nunca fez isso antes," ela disse. "Essa é a melhor parte de ser lobisomem."
"Posso imaginar," respondi, sorrindo levemente.
"Não, você não pode," ela rebateu, sem maldade. "Mas você vai ver. Confia em mim, quando ouvir o primeiro uivo, vai ser como se..." Ela levantou as mãos e vi seus olhos brilhando. "Como se a própria lua estivesse cantando."
Eu ri suavemente. "Parece lindo."
"E é mesmo." Ela olhou de lado para mim e deu uma esbarrada de leve no meu ombro. "E se você ficar com medo ou nervosa, gruda em mim. Ou, se preferir..." ela piscou, "no Lucian."
Fingi que não ouvi essa última parte.
A Alcateia já estava se organizando em um círculo solto na beira da clareira. Mais de duzentos lobos, homens e mulheres, vestindo roupas simples ou sem roupa nenhuma, com os olhos brilhando à luz do luar.
A vibração era intoxicante, selvagem, indomada, mas profundamente conectada. Não era uma competição, nem uma patrulha. Era uma comunhão. Um lembrete de que eles eram um só corpo, um só espírito.
Lucian estava no centro, chamando a atenção sem esforço. Ele estava sem camisa novamente e o distintivo preto do seu posto de Alfa reluzia levemente contra a pele.
O olhar dele encontrou o meu através da multidão e eu prendi a respiração. Com um leve gesto de cabeça, ele me chamou para perto.
"Pronta?" perguntou suavemente quando cheguei até ele.
Assenti, mesmo sem estar totalmente certa. "Mais pronta, impossível."
A boca dele se curvou em um quase sorriso. "Você vai se sair bem. Fique perto de mim até pegar o ritmo."
Mais cedo, a Sabrina tinha explicado que, para acomodar aqueles da Alcateia que não tinham lobos, todos começavam a corrida em forma humana.
Conforme o ritmo aumentava, aqueles que podiam se transformavam em lobos. Aqueles que permaneciam na forma humana podiam montar nos lobos mais fortes, garantindo que ninguém ficasse para trás.
O fato de todos serem tão acolhedores, tão atenciosos com os mais fracos... era impressionante.
"O ritmo pode ficar intenso." O tom do Lucian era suave. "Mas você é forte o suficiente, Sera. Você consegue acompanhar."
Assenti, dando de ombros com ansiedade.
Não havia espaço para dúvida naquela noite. O Lucian acreditava intensamente em mim. Seria um grande erro se eu não acreditasse em mim mesma também.
Ele sorriu e deu um passo à frente, erguendo a cabeça para se dirigir ao grupo. Instantaneamente, os murmúrios silenciaram e até mesmo o vento parecia ter parado.
A voz dele ecoou facilmente pelo planalto e o seu olhar abrangeu toda a multidão. "Esta noite, corremos, não como classificados e não classificados, não como líderes e seguidores, mas como um só. Corremos pelo laço que nos une."
Uma onda de energia percorreu os lobos, como um batimento cardíaco coletivo.
"Corram livres," ele concluiu com simplicidade.
E, com isso, o grupo avançou.
A princípio, foi um caos de pés batendo na terra, risadas e gritos ecoando na noite.
Mas, logo, o caos encontrou ritmo. Aqueles que iam na frente diminuíram o ritmo apenas o suficiente para que o resto acompanhasse, então aceleraram novamente quando os primeiros corpos começaram a brilhar e se transformar sob a luz da lua.
Era hipnotizante.
Ossos se reformando, pelagem florescendo, olhos acendendo em dourado e prateado. Um por um, lobos substituíram humanos, correndo lado a lado, alguns esbeltos e escuros, outros pálidos e etéreos.
O som das patas na terra era como trovão.
Corri entre eles com os pulmões ardendo e o coração voando. A floresta se desfocou em faixas de verde e prata, a luz da lua filtrando-se pelo dossel acima. Cada respiração tinha o gosto de pinho e liberdade.
Eu nunca tinha sentido algo assim.
Mas, à medida que a corrida continuava, minhas pernas começaram a doer. O meu corpo humano só aguentaria até certo ponto, mesmo com a força da Alina.
Fui diminuindo o ritmo, ofegante, enquanto o grupo começava a se afastar. O lobo escuro da Sabrina olhou para mim e diminuiu o ritmo, mas antes que ela pudesse voltar, uma sombra surgiu ao meu lado.
Lucian.
Ele tinha se transformado.
Seu lobo negro imponente movia-se com sem esforço. Um anel prateado brilhava ao redor dos seus olhos azul marinho, mas não havia nada de predatório neles. Apenas calor. Reconhecimento.

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