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Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei romance Capítulo 201

PERSPECTIVA DA SERAPHINA

Eu mantive o olhar no Daniel.

Era mais seguro assim.

Quando olhei nos olhos do Kieran, senti aquela sensação estúpida, como se um ímã se aproximasse demais do seu par.

Acho que deveria ter percebido que, com a força ampliada da Alina, o suposto vínculo de companheiros entre nós puxaria ainda mais forte.

Fingir indiferença era mais difícil do que eu imaginei. Mas, droga, eu tentei.

Agora que o Lucian sabia a verdade sobre o Kieran e mim, a última coisa que eu queria era esfregar o nosso relacionamento (por falta de uma palavra melhor) na cara dele.

Depois de tudo que ele fez por mim sem esperar nada em troca, o mínimo que eu devia a ele era respeito.

Então, me forcei a manter a atenção firmemente onde ela deveria estar: no meu filho.

Era bem fácil.

Daniel estava animado enquanto falava alegremente sobre o treinamento, com gestos exagerados e pequenos efeitos sonoros. O entusiasmo dele era contagiante e a alegria que eu sentia ao vê-lo se espalhou em mim como fogo.

“Não acredito que você aprendeu a se concentrar tão rápido assim,” eu disse, segurando o rosto dele com as mãos.

Ele estufou o peito orgulhosamente. “Vovô disse que eu sou um talento natural! E disse que lobos que conseguem focar como eu, um dia, se tornam grandes líderes.”

Eu sorri. “Você vai ser um líder incrível, disso não tenho dúvida.”

Pelo canto do olho, vi os punhos do Kieran se fecharem. Antes que eu pudesse interpretar demais a tensão que emanava dele em ondas, o Daniel se inclinou e aproximou os lábios do meu ouvido: "Mamãe?"

Abaixei a voz. "Sim, meu amor?"

"Sua energia tá diferente." As sobrancelhas pequeninas dele se franziram como se procurassem a palavra certa. "Mais forte."

Soltei um suspiro. Claro que ele percebeu.

"É a Alina," murmurei para que só ele ouvisse. "Ela tá ficando mais forte."

Daniel soltou um suspiro alto de alegria antes de se lembrar que a Alina era um segredo.

Claro, o Lucian já sabia sobre ela, mas o Kieran não. E eu ia manter a situação assim.

Daniel abaixou a voz novamente. "Que incrível!"

Ri suavemente. "Sim, é mesmo."

"E é perfeito. Assim, a gente pode comemorar no jantar."

"Jantar?" Eu ecoei.

"Sim!" Os olhos dele brilharam enquanto a sua voz se elevava para que todos pudessem ouvir. "Papai já fez reservas no restaurante! Ele disse que é um jantar especial de boas-vindas."

Virei-me para o Kieran. "Você fez isso?"

Ele deu de ombros, mas o seu olhar estava mais intenso do que o gesto despreocupado. "Achei que você gostaria de passar mais tempo com o Daniel."

Eu franzi os lábios. A ideia de me buscar no aeroporto foi do Daniel... e o jantar era por causa do Daniel? Ele acha que eu nasci ontem?

"É só um jantar", ele acrescentou suavemente.

Com o Kieran, nada era simplesmente ‘só’ alguma coisa.

Eu hesitei. Parte de mim queria recusar, inventar uma desculpa sobre desfazer as malas ou descansar.

Mas o rosto animado do Daniel e aqueles olhos cheios de esperança tornaram a resistência impossível.

Me virei para o Lucian, que estava quieto e atencioso atrás de mim todo esse tempo.

Antes que eu pudesse dizer algo, ele sorriu gentilmente: "Vá."

Eu suspirei. "Obrigada," sussurrei, esperando que ele pudesse ver a imensa gratidão que eu sentia. "Por tudo."

Então, ele se aproximou e me envolveu em um abraço leve. Eu estava ciente do olhar do Kieran queimando ao meu lado, mas devolvi o abraço do Lucian.

Durou apenas cinco segundos, mas quando ele me soltou, as minhas bochechas estavam levemente coradas.

"Eu te ligo," ele disse.

Eu assenti.

E, quando me virei de volta para o Kieran e o Daniel, o mais velho parecia que estava prestes a explodir.

"Certo," eu disse suavemente. "Então tá decidido, vamos jantar."

Daniel comemorou instantaneamente. "Sim!"

Os lábios do Kieran esboçaram um sorriso, embora as suas mãos permanecessem cerradas em punhos.

***

Eu esperava que o percurso até o restaurante fosse repleto de conversas animadas com o Daniel, mas assim que começamos a nos mover, ele encostou a cabeça na janela e fechou os olhos.

Eu duvidava sinceramente que ele estivesse dormindo, mas sentei com as mãos firmemente cruzadas no colo, tentando não sentir o peso da presença do Kieran ao meu lado.

Viajamos em direção ao pôr do sol. Tons de rosa e dourado inundavam o para-brisa.

Minha mente se voltou para Shadowveil: o ar fresco, os uivos sob a lua, o frio da Nascente do Brilho da Lua. Aquele sentimento de pertencimento ainda pulsava nas minhas veias.

"Você curtiu o seu tempo lá?" Kieran perguntou de repente.

Virei-me para ele, surpresa. "O quê?"

"Na Shadowveil." O tom dele era casual, mas os nós dos seus dedos estavam brancos de tanto segurar firme no volante. "Você pareceu... diferente quando saiu do avião."

Eu o observei atentamente. "Foi tranquilo. Inspirador."

Ele assentiu rigidamente. "Que... legal."

Não respondi. Não havia nada a dizer.

Quando o carro finalmente parou, eu pisquei, surpresa.

Kieran olhou para ele e um leve sorriso surgiu nos seus lábios. "Não?"

Daniel balançou a cabeça. "Você gosta de lugares com paredes escuras e música suave. Aqui é diferente."

Diferente. Sim. Essa era uma maneira de descrever o lugar.

"O que você achou?" Ele estava falando com o Daniel, mas o seu olhar acabou recaindo em mim.

Evitei o olhar dele enquanto me sentava, a cadeira rangendo suavemente sob mim.

Meu coração batia forte na garganta.

"Eu gostei," Daniel continuou, olhando entre nós. "Parece que estamos de férias."

"Fico feliz," Kieran disse suavemente, ainda me observando.

Aquele olhar firme e intenso me procurava. Era demais. Será que ele realmente sabia o que este restaurante representava? Ou era apenas uma coincidência cruel?

Distrai-me com o guardanapo no meu colo.

"Mãe, o que você achou?" Daniel perguntou.

Encontrei o olhar do Kieran por meio segundo antes de desviar.

"É adorável," respondi, com a voz ligeiramente trêmula.

Daniel não pareceu notar, ele estava muito ocupado examinando o cardápio.

Kieran recostou-se um pouco, ainda me observando. "Dizem que os frutos do mar aqui são muito bons. Você sempre gostou de..."

"Eu não," interrompi rapidamente. "Não mais."

Ele piscou, surpreso. "Você não gosta de frutos do mar?"

"Não." Passei a ponta do dedo pela borda do meu copo. "Tive uma intoxicação alimentar por causa de um camarão estragado há quatro anos e jurei que nunca mais comeria frutos do mar. Mas não tinha como você saber disso."

Não foi a minha intenção que as palavras soassem tão duras. Mas tudo bem.

Daniel seguia animado, alheio à tensão, ou simplesmente bom em ignorá-la. "Posso pedir um bife, Mãe? Malpassado?"

"Você pode pedir o que quiser," respondi, mudando instantaneamente para um tom mais leve.

Ele sorriu, chamando o garçom com uma empolgação que fazia o meu peito doer. Eu invejava a facilidade dele, a sua alegria pura com algo tão simples quanto um jantar à beira-mar.

Eu desejava poder voltar a ter essa inocência e esquecer todos os significados ocultos que torciam esse momento.

Mas o meu olhar insistia em voltar para o Kieran, a maneira como o pôr do sol iluminava o seu perfil e a linha tênue entre as suas sobrancelhas, sempre presente quando ele guardava algo para si.

Ele parecia mais velho do que eu me lembrava, não por causa da idade, mas pelo peso dos anos.

Pela enésima vez, me perguntei se ele sabia o quanto era cruel ter me levado até esse restaurante.

Porque isso não era romântico. Não era um gesto de amor ou reconciliação. Era jogar sal em uma velha ferida, disfarçada de luz de velas e nostalgia.

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