PERSPECTIVA DA SERAPHINA
Meus dedos pairaram sobre a fita da caixa por um tempo que pareceu uma eternidade antes de finalmente soltá-la e levantar a tampa.
Dentro, aninhado contra um forro de veludo pálido, havia um colar.
Uma corrente fina de prata segurava um pingente em forma de lua crescente. Presa no seu centro oco estava uma única pedra azul perolada. A Pedra da lua.
Fiquei sem fôlego.
Não parecia caro. Não era para ser. Mas...
Lembrei-me da frase que escrevi no final de "O Som das Ondas à Meia-Noite": 'Você merece o mundo,' o herói disse à sua amada. 'Se pudesse, eu pegaria um pedaço da lua e colocaria num colar para você.'
Era uma frase doce e sentimental, mas sempre teve um significado mais profundo, um que nunca expliquei a ninguém, nem mesmo para a Elaine. Era para mim, para a mulher que esperava o seu marido voltar para casa e lhe dar o mundo.
E foi aí que soube, sem sombra de dúvida, que cada detalhe desta noite, da vista para o mar até a mesa no terraço, tinha sido intencional.
E isso...
Este colar era o eco final.
Passei o polegar lentamente sobre a superfície lisa da Pedra da Lua com o meu coração vacilando a cada movimento.
"Eu mandei fazer," Kieran disse suavemente, interrompendo os meus pensamentos. "Um pedaço da lua... em um colar."
Engoli em seco, tentando encontrar a minha voz. "Você... leu. Meu livro."
"Eu li." Ele deu um pequeno sorriso modesto. "Cada palavra."
Eu queria dizer algo mordaz. Queria lembrá-lo de que ler os meus livros agora não mudaria o que aconteceu. Que esse presente, independentemente de ser atencioso, doce e de partir o coração, não poderia reescrever os anos que perdemos.
Mas eu não consegui.
Porque, naquele momento, com o brilho âmbar suave do painel suavizando as feições dele, eu vi um vislumbre do homem que um dia amei tão intensamente, o homem que eu costumava imaginar me abraçando sob o mesmo tipo de luar que cintilava neste pingente.
E o meu coração esqueceu tudo o que veio depois.
Quando ele estendeu a mão hesitante, eu não me afastei.
"Posso?" ele perguntou baixinho. "Te ajudar a colocar?"
Meus dedos apertaram em torno do pingente. Eu deveria ter dito não. Deveria ter deixado claro que isso não era uma segunda chance (não que eu soubesse o que era).
Mas tudo o que fiz foi acenar com a cabeça.
Ele se aproximou e perpassou o seu cheiro fresco, levemente amadeirado, tão dolorosamente familiar, por mim como fumaça.
Um arrepio percorreu a minha espinha quando os dedos dele roçaram a parte de trás do meu pescoço, e ele fechou o colar, o metal frio caindo contra a minha pele.
De repente, eu não estava sentada em um carro.
Eu estava de volta àquele bar, em pé diante da plateia enquanto o Kieran prendia o colar de Lillian no meu pescoço.
Só que isso era... mais.
Não era o tesouro de outra pessoa ou uma relíquia passada por gerações.
Era novo, feito para mim, pensado para ser meu. A curva da prata, o brilho sutil da Pedra da Lua, tudo sussurrava intenção. Não era a memória de outra pessoa. Era a minha.
Essa compreensão veio com tanta força que tive que controlar a respiração.
“Pronto,” o Kieran disse finalmente, com a voz baixa enquanto deixava as suas mãos caírem. “Ficou bom em você.”
“Ficou mesmo?” Minhas palavras saíram mais suaves do que eu pretendia.
O olhar dele encontrou o meu através do reflexo da janela e vi a sua expressão aberta e vulnerável. “Você tá linda.”
Uma parte de mim queria arrancar o colar e destruir essa ilusão frágil antes que criasse raízes.
Mas, outra parte, aquela parte tola e trêmula que ainda ansiava pelo calor dos seus braços ao redor do meu corpo, apenas continuou ali, parada.
Não era justo. Isso não era nada justo.
O jantar, o colar, ele... era tudo que eu sempre quis.
Mas por que agora? Depois que eu já tinha aceitado as perdas e estava fazendo o máximo para seguir em frente?
Um turbilhão de emoções surgiu em mim, feroz e avassalador. Eu não sei o que teria feito no momento seguinte se o Daniel não tivesse se mexido no banco de trás.
“Mãe?” ele murmurou, interrompendo o momento frágil. “Já estamos em casa?”
Eu exalei, trêmula, forcei um sorriso e desafivelei o cinto de segurança antes de responder: “Sim, querido. Estamos em casa.”
Ele bocejou e se sentou. “Boa noite, Pai. Obrigado pelo jantar.”
Kieran se virou e bagunçou carinhosamente o cabelo dele. “Boa noite, campeão. Durma bem.”
E, então, ele se virou para mim e sorriu, um pequeno e nostálgico curvar de lábios. “Boa noite, Sera.”
“Boa noite.” Minha voz mal passou de um sussurro. “E… obrigada.”
Depois que o Daniel e eu entramos em casa, não contive a curiosidade e espiei a rua pela janela do hall de entrada. Assisti os faróis ficarem cada vez menores.
E então ele se foi.
"Mãe?"
Me virei para o Daniel, sentindo o meu rosto esquentar como se eu tivesse sido pega fazendo algo errado.
Seus lábios se curvaram ligeiramente. "Esse colar é bonito."
Instintivamente, levantei a mão até o colar. "Obrigada," sussurrei. "Foi um presente."
"Do Papai?"
Hesitei, depois assenti. "Sim."
Ele se inclinou para frente, a curiosidade iluminando seu rosto sonolento. "E ele copiou do seu livro?"
Minha boca se abriu. "Você precisa parar de fingir que tá dormindo."

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei