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Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei romance Capítulo 225

PERSPECTIVA de Kieran

O tempo parecia ter congelado; já nem sabia há quanto. A chuva continuava a bater ritmada na janela.

O vapor se erguia da pele da Sera, e a respiração dela vinha fraca, toda descompassada. De vez em quando, ela soltava uns gemidos baixinho—sons quebrados—como se estivesse travando alguma luta no sonho.

"Em casos assim... um laço de companheiro a estabilizaria."

Eu praguejei baixinho, segurando ela mais firme, seu calor me queimando mesmo quando o frio ao nosso redor picava como pequenas agulhas.

A frustração fazia meus dentes rangerem, mesmo com eles já batendo de frio.

Se houvesse qualquer vestígio de ligação entre Sera e eu, tinha que responder. Simplesmente tinha que acontecer.

Mas...

Tanto tempo se passou, e ainda nada aconteceu.

Nenhuma faísca. Nenhum calor. Nenhuma atração familiar.

Cada segundo cavava um vazio maior de temor dentro de mim.

Será que eu tinha inventado tudo?

Será que me convenci que ela era minha companheira só pra ter uma desculpa pra querer ela?

Talvez ela nunca fosse minha de verdade.

Pressionei minha testa em seu ombro.

"Se eu tivesse te marcado," sussurrei, a voz quebrando. "Na noite da Caçada da Lua Sangrenta. Na noite em que nos casamos. No dia em que Daniel nasceu. Em qualquer dia desses nos últimos dez anos - não estaríamos aqui. Eu poderia te ajudar agora."

Fechei os olhos; minha garganta apertou.

"Mas eu não fiz isso. Fui covarde. Um completo idiota." Respirei profundamente, tremendo. "E agora quem paga é você."

A sala estava silenciosa, exceto pelo som da chuva na janela e a respiração fraca e irregular de Sera.

'Arrepender-se do passado é inútil,' a voz de Ashar ressoou sombria, oferecendo um pouco de consolo. 'Tudo o que podemos fazer é seguir em frente e nos concentrar no que podemos fazer por ela agora.'

Apertei Sera em meus braços.

"Você se lembra," murmurei, acariciando sua pele com o polegar, "da noite em que Daniel teve febre, e você ficou acordada abraçando ele porque ele não te soltava?"

Minha voz tremeu com a lembrança.

"Você não sabia que eu estava observando pela fresta da porta. Você continuava sussurrando que ele estava seguro. Que você estava bem ali. Não dormiu por trinta e seis horas. Achei que você fosse desmaiar."

Engoli em seco.

"Agora é a minha vez."

Apertei ela ainda mais, beijo colado na testa dela.

"E eu não vou a lugar nenhum."

Mudei um pouco de posição e puxei ela contra mim. A água transbordava, fria e respingava no azulejo, escorrendo pelos meus cotovelos, mas eu não me importava. O mundo podia inundar, e eu não me moveria.

"Sabe…" Minha voz saiu rouca, desgastada. "Sempre pensei que força fosse algo barulhento. Violento. Dentes, garras e domínio. O tipo de poder que me ensinaram a acreditar que era importante."

Afastei uma mecha molhada de cabelo do rosto dela, com os dedos trêmulos.

"Mas você—" Engoli em seco. "Você era forte de maneiras que eu nem sabia enxergar."

Os lábios dela se entreabriram levemente, soltando um suspiro suave, enquanto a expressão no rosto dela se apertava como se estivesse lutando contra algo por dentro.

"Você enfrentou um mundo que não te queria. Continuou se levantando mesmo quando as pessoas que deveriam te proteger eram as que te derrubavam. Você sorria em situações onde outros teriam sido quebrados."

A dor apertou minha garganta de tal forma que eu mal conseguia falar.

"E eu estava cego demais, teimoso demais, preso demais na minha própria narrativa para te ver como você realmente era."

Ela tremeu, e a água ondulou quando apertei meu abraço, meu corpo instintivamente tentando protegê-la, mesmo sabendo que o calor era o inimigo agora.

"Você merecia mais do que ser a minha obrigação. Você merecia mais que dez anos de silêncio e ressentimento."

Minha voz caiu para um sussurro rouco, quebrando sob o peso do arrependimento.

"Você merecia um parceiro. Um companheiro. Alguém que te enxergasse. Alguém que te escolhesse."

Meu fôlego tremia, calor suficiente para criar uma névoa no ar frio entre nossos rostos.

"E em vez disso, você acabou comigo."

O silêncio se estendeu, pesado e ressoante, quebrado apenas pelo gotejar da água e o suave bater dos dentes de Sera enquanto sua febre finalmente colidia com o frio.

"Sabe o que mais me mata?" Eu sussurrei, com o maxilar apertado. "Você nunca parou de tentar, de qualquer forma. Não pela alcateia. Nem pelo Daniel. Nem mesmo por mim. Você provavelmente achava que eu não percebia, mas eu percebi."

Fechei os olhos, deixando a verdade finalmente se libertar de mim.

"Eu sabia que você aprendeu sobre todos os meus esportes e hobbies favoritos só para termos algo para conversar. Eu sabia que você aprendeu a cozinhar todas as minhas comidas favoritas. Eu sabia que você tentava se vestir como a Celeste para que eu prestasse atenção em você."

Aproximei meus lábios de seus cabelos úmidos, um quase beijo.

Não o suficiente. Não estava consciente.

Mas suficiente para manter a esperança acesa.

O tempo continuava a passar. A água ao nosso redor começou a esquentar. O mundo lá fora ficou em silêncio.

E eu continuei segurando a Sera, como se minha pulsação nas costas dela fosse tudo que a prendia à vida, batendo firme, teimosa, sem parar por nada. Eventualmente, graças a Deus, a febre dela cedeu. Seus tremores se tornaram mais evidentes, pequenos espasmos percorriam seus membros e seus dentes batiam mais alto.

Foi um alívio tão grande que quase me tirou o fôlego.

"Tá bom," murmurei, passando o polegar em sua bochecha. "Isso, querida; já chega. Vamos te tirar daqui."

Me mexi, puxando ela contra meu peito. A água espirrou pelas bordas quando me levantei com ela nos braços, correndo por nossos corpos e se acumulando no mármore.

Sera tremia violentamente agora, a testa encostada no meu pescoço, a respiração em pequenos soluços involuntários.

"Eu sei," sussurrei contra seu cabelo molhado. "Estou aqui. Estou com você."

Saímos da banheira, a água pingando no chão a cada movimento. Peguei uma manta de linho fino pendurada perto da pia. Qualquer coisa mais grossa reteria calor.

Envolvi ela cuidadosamente, prendendo os cantos sobre seus ombros, cobrindo seu peito e pernas, deixando apenas a cabeça exposta. Sua pele ainda estava quente sob minhas mãos, mas não mais escaldante, graças a Deus.

Levei ela para fora do banheiro e para o quarto, onde a deitei no colchão com tanto cuidado quanto se ela fosse de vidro. Os lençóis ficaram encharcados imediatamente, mas não me importei.

Quando me afastei para ajeitar as coisas, ela gemeu suavemente pela perda do meu calor, procurando por mim até mesmo na inconsciência.

Deitei-me ao lado dela imediatamente, puxando ela de volta para mim, meus braços fechado em torno de sua cintura, suas pernas se enroscando fracamente nas minhas.

Ela voltou a tremer—tremores rápidos e superficiais sacudindo-a dos pés à cabeça.

Encostei os lábios na testa dela, os olhos se fechando sozinhos.

"Isso mesmo," murmurei, com a voz rouca. "Trema. Lute para voltar. Fique aqui comigo."

Uma das mãos dela apertou fracamente o meu peito, como se quisesse se agarrar a mim mesmo desacordada.

Apoiei minha testa na dela, respirando fundo, sentindo o cheiro dela.

"Você está indo muito bem, Sera," eu sussurrei. "Aguente só mais um pouco."

A única resposta dela foi outra respiração trêmula e a maneira suave e instintiva com que ela se aconchegou mais em meus braços, buscando calor agora que a febre havia diminuído.

Apertei meu abraço.

E não soltei.

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