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Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei romance Capítulo 67

PERSPECTIVA DA SERAPHINA

Passei a noite inteira pensando no beijo. Consegui dormir algumas horas, mas assim que acordei, foi a primeira coisa que veio à minha mente.

Tinha acontecido há menos de doze horas e, mesmo assim, se repetia na minha cabeça com uma facilidade e familiaridade tranquilas, como uma lembrança que já passava em loop por anos.

A melhor parte é que a lembrança do beijo do Lucian não me deixava louca como a memória do beijo do Kieran. Foi caloroso e gentil, não ardente, bruto, exigente e possessivo.

Eu não estava tentando decifrar as intenções dele nem forçar o meu coração instável a bater em um ritmo que não me causasse um ataque cardíaco.

Mas ainda assim foi significativo.

Me senti segura, aninhada pelo calor das mãos dele e pela a firmeza do seu corpo. Havia algo silenciosamente reverente na maneira como ele me segurava, como se eu fosse feita de algo sagrado, não de peças quebradas mal ajustadas.

E isso era... novo.

O fato de haver um homem na minha vida que não me fazia querer socar uma parede era tão revigorante.

Enquanto fazia o café da manhã, eu não parava de olhar para o celular no balcão da cozinha, meio esperando, meio temendo uma mensagem dele. Mas o aparelho permaneceu em silêncio.

Será que as coisas entre nós ficariam estranhas agora? Eu deveria ter dito alguma antes de ele ir embora? Deveria ter pedido pro Daniel ligar depois? O Lucian achava que eu estava arrependida?

Porque eu não estava.

Se o Daniel não tivesse ligado...

Fiquei vermelha só de pensar nisso, mas talvez algo mais tivesse acontecido.

Eu não tinha certeza de até onde eu teria ido e não tinha certeza de até onde o Lucian teria ido, mas acho que eu não o teria parado. A ideia de estar com outra pessoa, especificamente com o Lucian, não era tão desagradável quanto eu imaginei.

Mordi o lábio, sorrindo para os tomates picados como se fossem os responsáveis pelo calor e pela expectativa crescendo dentro de mim. A ideia de que alguém como o Lucian, um Alfa, um homem com a força e a reputação dele, me quisesse ainda parecia surreal. Eu não estava acostumada a ser desejada, não depois de passar dez anos sendo pouco mais que o meio para o meu marido frio saciar as suas necessidades enquanto ele ansiava por outra pessoa.

O som repentino da campainha alta e aguda na casa silenciosa interrompeu a minha reflexão. Franzi a testa e enxuguei as mãos em um pano de prato.

Eu não estava esperando ninguém. Não, não era verdade. Eu estava completamente preparada para ver a Celeste ou o Kieran do outro lado da porta para mais uma das nossas discussões regulares.

Mas, quando abri a porta, era a Maya quem estava lá com uma caixa de cerveja em uma mão, um saco de petiscos na outra e uma expressão de vulnerabilidade que gritava 'Por favor, não me mande embora.'

"Não é meio cedo pra beber?" perguntei, com a sobrancelha levantada.

"Não se eu pretendo beber o resto do dia," ela respondeu, passando por mim com facilidade. "Você vai cuidar de mim se eu desmaiar, né?"

Fechei a porta atrás dela e a segui até a cozinha, com uma expressão confusa no rosto. "Você tá bem? Aconteceu alguma coisa?" Ela não respondeu imediatamente, apenas jogou a sacola no balcão e começou a desempacotar pipocas, salgadinhos e pretzels cobertos de chocolate. Comida que traz conforto. Um alarme silencioso disparou no meu peito.

"Uma mulher não pode simplesmente decidir que quer ter um colapso emocional e afogar as mágoas em carboidratos e álcool?"

"Uma mulher pode," eu disse. "Maya Cartridge, cujo corpo é um templo e que tem mais resistência mental do que um monge, não. A não ser que tenha acontecido algo realmente grave." Entreguei a ela um abridor de garrafas e esperei.

A cerveja dela abriu com um silencioso "pssssh" e ela jogou a cabeça para trás, bebendo metade da garrafa de uma vez só. Então, limpou a boca com as costas da mão e suspirou. "É o Ethan," ela finalmente disse, a voz calma, mas com um tom firme.

Me apoiei no balcão, sentindo meu peito apertar. "O que ele fez?"

"Nós discutimos depois que você e o Lucian foram embora. Eu confrontei ele sobre ele ter deixado a Celeste e a sua mãe acuarem você daquele jeito e, ao invés de admitir que estava errado, ele me disse pra respeitar a família dele e ainda me ameaçou."

Eu estremeci. Qual era o problema do meu irmão?

"E eu disse pra ele," ela continuou, batendo a garrafa no balcão com um pouco mais de força do que o necessário, "que você também é a família dele, que ele não podia exigir o meu respeito se não respeitasse você."

Meu estômago se contorceu de maneira desconfortável. "Sinto muito," respondi suavemente. "Não queria causar problemas entre vocês dois."

"Não," Maya disparou, com os olhos brilhando. "Nem pense em pedir desculpas por existir." Eu pisquei. "Você não pediu pra ser o saco de pancadas da família," ela prosseguiu, a voz carregada de raiva. "O problema não é você, mas ele te tratam como se fosse e isso me deixa furiosa." Eu olhei para baixo, sentindo um nó na garganta. "Além do mais," ela murmurou, agora mais suavemente, "se o Ethan não consegue ver além desses absurdos, se ele defende a mãe e a irmã desse jeito, então talvez ele não seja quem eu pensei que era."

Meus olhos se arregalaram. "Maya..." Ela olhou para mim, os olhos castanhos de repente sérios.

"Sabe o que é cruel?" Ela perguntou.

"O quê?"

"O vínculo de companheiros." As palavras dela estavam amargas, quase cuspidas. "Essa maldita loteria mágica que diz que você tá permanentemente, irrevogavelmente ligado a outra pessoa, não importa o quão idiota ou frustrante ou emocionalmente travada ela seja."

"É tão ruim assim, é?"

"Se não fosse pelo vínculo," Maya murmurou, "eu já teria largado dele há muito tempo."

Inclinei a cabeça. "Sério?"

"Sim." Ela fechou a mão em um punho.

"Mas você o ama." As palavras escapuliram antes que eu pudesse contê-las.

Maya resmungou, encostando a testa no armário.

"Né?" Eu a cutuquei suavemente. "Não é só por causa do vínculo."

Ela suspirou. "Tá bom, talvez eu goste do som da risada dele. E talvez eu goste de assistir filmes de terror com ele até tarde da noite e adormecer no peito dele. Eu gosto quando a gente cozinha junto. E gosto da eletricidade quando transamos. Tem uma coisa de enlouquecer que ele faz com a língua que..."

"Tá bom, para!" Levantei uma mão e arregalei os olhos em alarme. "Não preciso saber da vida sexual do meu irmão."

Sorri sem querer.

"Se ele tá se segurando," continuou Maya, "não é porque ele não tá interessado. É porque ele não quer te machucar ou ultrapassar nenhum limite, especialmente sabendo de tudo o que você passou. Ele foi criado pra controlar seus instintos. Se você o quer... talvez precise dar o primeiro passou, ou talvez até mesmo o segundo."

Hesitei. "Você acha que eu devo?"

"Acho," disse Maya, pegando minha mão e apertando-a, "que se você sente alguma coisa por ele, sente de verdade, você deve se dar uma chance de ser feliz. Você merece. Depois de tudo... Você merece se sentir amada e desejada."

Senti um nó na garganta. "Você faz parecer fácil."

"Não é," ela admitiu. "Mas eu tô aqui. E vou torcer por você a cada passo."

Engoli o nó que se formava na minha garganta e balancei a cabeça.

Mais tarde, depois que a Maya adormeceu no meu sofá com um saco vazio de pretzels na barriga e a terceira garrafa de cerveja perigosamente equilibrada no braço do sofá, fui andando de mansinho até o meu quarto.

Sentei na beira da cama com o celular nas mãos. Olhei para o contato do Lucian e o meu polegar pairou sobre a tela.

Eu não queria pensar demais. Também não queria assustá-lo.

Depois de vários rascunhos e exclusões, decidi por uma mensagem simples.

Sera: 'Obrigada por ontem à noite. Não paro de pensar no que aconteceu. Espero que você tenha chegado bem em casa.'

Fiquei olhando para a mensagem por alguns segundos antes de enviar. Então, joguei o telefone na cama como se fosse explodir e enterrei o rosto nas mãos.

Deuses, eu estava lastimável.

Mas um pequeno sorriso apareceu nos meus lábios.

Menos de um minuto depois, meu celular vibrou e a resposta do Lucian fez o meu sorriso se transformar em uma gargalhada.

Lucian: 'Também não paro de pensar no que aconteceu. Podemos nos ver amanhã?'

Uma risadinha escapou de mim enquanto eu respondia.

A sensação de borboletas no meu estômago não tinha nada a ver com o gole de cerveja que tomei e eu não me lembrava da última vez que me senti assim por alguém.

Mas... eu gostei.

E talvez, só talvez, fosse o início de algo verdadeiro.

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