PERSPECTIVA DA SERAPHINA
A Maya tinha insistido que, se eu fosse sair com o Lucian, mesmo que não fosse oficialmente um encontro de verdade, eu precisava estar 'tão atraente a ponto dele esquecer até o próprio nome'.
Palavras dela, não minhas.
Ela passou uns bons vinte minutos revirando o meu guarda-roupas com a determinação de quem desarma uma bomba e jogando de lado suéteres e jeans como se fossem uma ofensa para ela.
Quando ela puxou um vestido vinho rendado que eu nem lembrava de ter, quase desmaiei.
"Você acha mesmo que vou usar isso no cinema?"
Ela só levantou uma sobrancelha. "Não esquece do jantar depois. Além disso, não é sobre o filme. É sobre a impressão que você vai deixar no Lucian. Ele não vai conseguir assistir ao filme, ele deve estar assistindo a você."
Balancei a cabeça. "Vou me sentir desconfortável o tempo todo se usar isso aí."
Ela revirou os olhos e jogou o vestido de volta no fundo do meu armário, onde ele devia ficar. "Tá, pelo menos tem uma lingerie sexy?"
Meus olhos quase saltaram das órbitas. "O quê? Maya, nós vamos assistir a um filme, não…" Meu rosto ficou em chamas.
Ela piscou. "Nunca se sabe o que pode acontecer e é sempre bom estar preparada."
Mandei a desordeira para fora do meu quarto.
No fim das contas, não usei o vestido nem os saltos que ela deixou como 'opção reserva caso você crie coragem'.
Em vez disso, optei pela minha calça jeans preta favorita, uma blusa lavanda suave que indicava feminilidade sem ser exageradamente sedutora e sandálias brancas. Não passei mais nada de maquiagem além de protetor solar tonalizante, uma leve camada de rímel e gloss labial cintilante.
Simples. Casual. Eu.
Aquele seria o meu primeiro encontro de verdade com um homem.
Não era um jantar forçado ou um evento armado pela cúpula política da Alcateia. Não era uma noite que eu precisava tolerar como a esposa de fachada do Kieran.
Era só... o Lucian e eu.
E isso já parecia monumental o suficiente sem acrescentar sutiãs de bojo e olhos esfumaçados.
Ele chegou no horário combinado, vestindo uma camisa cinza escura com as mangas arregaçadas até os antebraços, exibindo sua tatuagem impressionante, e uma calça que fazia um péssimo trabalho em esconder o quanto ele era absurdamente forte.
Mas o que sempre me pegava de surpresa era a suavidade nos seus olhos quando ele me via. Aquele tipo de admiração escancarada não era algo com o que eu estivesse acostumada.
"Você tá linda", ele disse.
Eu sorri, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha. "Você também tá muito elegante."
E então, a mão esquerda dele saiu das suas costas, revelando que segurava um buquê de cravos cor-de-rosa.
Meus lábios se abriram em um pequeno suspiro. "Como você..."
Não era nem o fato de que ele trouxe flores, algo que ninguém nunca tinha feito antes. Era que não eram as típicas rosas ou um buquê chamativo comprado em uma floricultura qualquer. Eram cravos cor-de-rosa, os meus favoritos.
Lucian sorriu e o meu coração deu uma cambalhota. "Eu te enxergo, Sera", ele disse, me entregando as flores. "Os cravos não são as flores mais chamativas, muitas vezes são esquecidos, mas... são fortes e silenciosamente belos. Como você."
De repente, meus olhos se encheram de lágrimas e agradeci aos Deuses por não ter passado delineador.
Nossos dedos se tocaram quando peguei o buquê e a minha voz saiu suave, até um pouco trêmula, quando eu disse: "Obrigada, Lucian."
Ele não disse nada, apenas me deu aquele olhar quente, firme e tão cheio de compreensão silenciosa que quase me desmanchei.
Apertei as flores com força enquanto caminhávamos até o carro dele. O percurso foi confortável e... divertido. Lucian me deixou escolher a música e, quando optei por uma playlist de rock dos anos 80, ele nem piscou, apenas sorriu e batucou com os dedos no volante como se já conhecesse todas as músicas.
O cinema estava quase vazio quando chegamos, o que foi um alívio. A última coisa que eu queria era encontrar alguém conhecido. Não que eu tivesse vergonha de estar com o Lucian ou algo assim, mas as pessoas que eu conheço têm uma habilidade notável de destruir meu dia só com a presença delas.
Lucian pegou os ingressos enquanto eu esperava barraquinha de pipoca, me sentindo desconfortável e inquieta. Ele voltou com duas garrafas de água e um balde de pipoca para dividirmos.
"Decidi pelo clássico", ele disse, dando de ombros.
Eu sorri. "Eu gosto do clássico."
Dez minutos depois do filme começar, xinguei a mim mesma por ter dado ouvidos à sugestão da Maya quando o Lucian me pediu para escolher um filme. O título parecia inofensivo o suficiente: Até o Último Suspiro. Quando perguntei à Maya sobre a trama, ela só deu de ombros, com um meio sorriso. Eu deveria ter pesquisado no Google, caramba.
Achei que fosse um drama, talvez um romance lento, com muitos olhares de desejo e música triste de piano. Mas na verdade...
Eu queria derreter e evaporar com a vergonha que sentia. Para o meu primeiro encontro com o Lucian, graças à maldita da Maya Cartridge, escolhi o que basicamente eram noventa minutos de quase pornografia, com um toque de drama emocional.
A pior parte era que as cenas não eram hiper explícitas, mas sim do tipo repletas de olhares longos, respirações pesadas (gemidos, muitos gemidos) e música que subia de intensidade nos momentos mais impróprios. Era o tipo de filme que te lembrava o que era ser tocado como se você importasse.



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Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei