Fernando levantou os olhos para ela.
— Nem tanto. Quando eu morava no alojamento, a gente só esmagava as baratas com o pé e depois batia o sapato lá fora para limpar.
Vitória imaginou a cena com perfeição e não conseguiu segurar uma gargalhada.
Fernando terminou de secar a área com papel toalha e se levantou.
— Pronto.
Vitória entregou-lhe um lenço umedecido antibacteriano.
— Limpe as mãos.
Fernando aceitou o lenço e esfregou as mãos cuidadosamente.
— Assim está bom?
Vitória assentiu.
— Está ótimo. Mas lave as mãos de novo quando chegar em casa.
Fernando riu baixinho.
A atitude dela lhe dava a impressão de que, se ele tivesse pegado a barata com as próprias mãos, ela diria: "Qual foi a mão que você usou? Pode jogá-la fora, não serve mais".
O riso dele deixou Vitória um pouco sem graça.
Ela tinha mesmo as suas manias. No passado, Isaque Cavalcanti vivia dizendo que ela era cheia de frescuras.
Isaque costumava criticar como alguém que fazia autópsias e se sujava com fluidos corporais podia ser tão meticulosa no dia a dia. Para ele, parecia puro teatro da parte dela.
Na época, Vitória ficou indignada.
Fazer autópsias era a sua profissão como médica legista.
Além do mais, aos olhos dela, um cadáver não era algo nojento, e sim uma prova sagrada.
Os mortos ofereciam seus próprios corpos para dar pistas sobre os assassinos. Se ela sentisse repulsa, estaria desonrando a própria carreira.
E quem inventou a regra de que legistas não podem ter mania de limpeza, ou que não podem sentir nojo dos restos de uma barata esmagada?
Pensando nisso agora, Vitória finalmente percebeu que sempre houve várias incompatibilidades entre ela e Isaque.
A única diferença era que, naquela época, ela se anulava para manter a paz, escondendo as rachaduras da relação.
Mas agora ela já não queria mais engolir sapos. E Isaque Cavalcanti, naturalmente, estava fora da jogada.
— Você não precisa lavar, se não quiser. — Vitória acrescentou, com receio de que Fernando também a achasse fresca.
— Não tem problema, eu vou lavar. — A voz de Fernando soou leve. — Da próxima vez, vou lembrar de usar luvas para lidar com o cadáver da barata.
Os olhos de Vitória vacilaram diante daquela frase.

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