Ian Moretti girava o anel entre os dedos. O ouro refletia a luz do restaurante caro, mas nada brilhava tanto quanto o desprezo nos olhos de Carolina.
— Você só pode estar brincando — ela disse, tomando um gole de vinho e encostando a taça na mesa com força, um sorriso incrédulo no rosto. — Eu? Fingir ser sua noiva de fachada? Está louco.
Ian manteve a expressão gelada. A sua frieza natural de sempre.
— Pensei que você fosse mais prática. Afinal, ganhamos todos se jogarmos juntos.
Ela soltou um riso curto e cruel, os cabelos loiros caindo em suas costas.
— Eu me venderia por muita coisa, Ian, mas não para te ajudar. E um conselho? Cresça. Avise ao seu avô que jamais me verá de branco ao seu lado.
Ele respirou fundo, o maxilar pulsando. Quando ela se levantou, pegou a bolsa e se inclinou para ele com um sorriso venenoso.
— Arrume alguém mais tola.
Ian fechou os olhos por um instante, tentando conter a raiva. O desprezo dela queimava como ácido. Não conseguia engolir a recusa de alguém tão desprezível quanto aquela mulher.
Quando ele voltou a abrir os olhos, percebeu o garçom vindo. Não, não era o garçom. Era a garçonete.
Ela equilibrava uma bandeja de drinks com cuidado, o rosto cansado, mas orgulhoso. E havia algo naquele olhar, dignidade, firmeza que o desarmou por um segundo.
Ele não pensou. Apenas esticou o braço e agarrou o pulso dela.
— Oi? — ela protestou, surpresa.
Ian se levantou.
— Esta aqui. — Sua voz soou cortante. — Esta é minha noiva.
A garota arregalou os olhos, chocada.
— Eu não... o que... Você! — arfou, reconhecendo o rosto dele como um fantasma do passado.
Mas Ian não pareceu perceber ou se importar. Virou-se para o salão lotado. Os flashes já se acendiam, os murmúrios cresciam. Tudo fazia parte do plano que dera errado com Carolina, mas agora tinha outro rosto ao seu lado.
Ele a puxou pela cintura.
— Sorria. — sussurrou no ouvido dela, frio como gelo. — Me faça esse favor hoje.
Ela tentou se soltar, o coração disparado.
— Eu não te conheço! — Uma mentira. Ela o conhecia melhor do que queria.
— Nem eu você. — Ele sorriu, falso. — Mas hoje você é minha noiva.
Ela sequer tivera tempo para processar tudo que se passou nos minutos seguintes. Foi tudo muito rápido, mas foi o suficiente para arruinar o fim do expediente daquela mulher.
E assim terminou a noite mais humilhante da vida dela sob os flashes das câmeras, os risos cruéis de Carolina, e a mão dele firme em sua cintura como se fosse dono dela.
Ela saiu do restaurante com o rosto em fogo, o estômago embrulhado. Passou o resto da madrugada sentada na beira da cama, encarando o nada. Relembrava cada palavra, cada clique de câmera, cada olhar invasivo. Tentou chorar, mas nem isso conseguiu.
Quando o sol finalmente nasceu, trouxe mais do que cansaço. Trouxe a realidade nua e crua: não havia mais tempo para chorar.
Por conta de sua noite mal dormida e a cabeça completamente atordoada, naquela manhã, Olívia Belmonte estava atrasada.
Ela respirou fundo, o estômago revirado. Em outra situação, teria fugido sem olhar para trás. Mas não podia. Não quando a vida de Leo dependia desse salário.
— Eu só quero trabalhar. Por favor. — Sua voz saiu trêmula. — Prometo esquecer o que aconteceu ontem.
Ian suspirou, parecendo ponderar. Mas um brilho cruel já surgia em seu olhar.
— Você tem filhos?
Olívia congelou. O estômago revirou como sempre que ouvia essa pergunta em entrevistas.
Ela já sabia o roteiro: entrevistadores que balançavam a cabeça, que diziam “não parece o perfil ideal”, que a recusavam antes mesmo de avaliar seu currículo.
Eram sempre as mesmas desculpas veladas: “Mãe solteira, não vai ter tempo. Vai faltar. Não é confiável.”
Ela hesitou. Os dedos tremeram sobre o caderno. Pensou em mentir, mas não podia. Não quando era por ele, pelo Leo.
— Um. — sussurrou.
Por um instante, preparou-se para ouvir o “sinto muito”.
Mas Ian não disse nada disso. Ele apenas ficou olhando para ela, em silêncio.
Até que um sorriso quase imperceptível surgiu em seus lábios.
— Que bom. — murmurou, arrastado.
Ela franziu o cenho, confusa. “Que bom?”

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