Ian permaneceu diante da porta por longos segundos, sua mão pairando no ar como um pássaro ferido prestes a bater asas contra uma vidraça. O som de seus nós dos dedos contra a madeira ecoou não como uma batida, mas como uma detonação abafada; o anúncio sombrio de que não havia mais volta.
Desde a conversa com Matheus, algo fundamental em seu núcleo havia rachado. Não era apenas a raiva que o consumia agora; era uma exaustão tão profunda que parecia ter se fundido à sua medula.
Quando a porta se abriu, foi como assistir a um quadro ganhar vida. Olívia. Parada na moldura, iluminada pela luz suave do interior, com as malas abertas ao fundo como testemunhas mudas de sua partida. Seu rosto estava pálido, as olheiras profundas pintadas de um roxo cansado, e seus olhos... seus olhos eram dois lagos vermelhos de um choro que parecia não ter fim. E, ainda assim, para Ian, ela era a paisagem mais devastadora e bela que seus olhos já haviam contemplado; uma catedral em ruínas que ele mesmo havia incendiado.
— Então é isso — a voz dele saiu um sopro áspero, desprovida de sua habitual autoridade, enquanto seu olhar percorria as malas como se lesse sua sentença nelas. — Você vai embora. De verdade, desta vez.
Olívia respirou fundo, um movimento quase imperceptível que ele conhecia tão bem; o mesmo que ela fazia antes de mergulhar em águas turbulentas. Seus braços cruzaram-se sobre o peito, um escudo frágil contra a tempestade que ele personificava.
—Eu preciso, Ian. — Cada sílaba soou como uma pedra sendo cuidadosamente colocada em um muro entre eles.
Ele deu um passo para dentro, invadindo o espaço sem pedir permissão, o cheiro familiar do shampoo dela atingindo-o como um soco no estômago.
—Precisa... — repetiu, o tom carregado de amargura — ou quer fugir de novo? Fugir de mim. De nós.
Ela franziu o cenho, uma expressão de uma fadiga tão profunda que parecia entalhada em seu rosto.
—Não é fuga. — Seus olhos encontraram os dele, e pela primeira vez, ele viu não raiva, mas uma resignação que o aterrorizou. — É sobrevivência. Estou tentando sobreviver a você, Ian.
A resposta dele foi um riso curto, seco e vazio de qualquer humor, ecoando no silêncio do apartamento como o som de algo se quebrando.
—Sobreviver... — ele ecoou, balançando a cabeça lentamente. — É isso o que temos feito desde o dia em que nos conhecemos, Olívia. Uma longa, interminável e sangrenta guerra de trincheiras, onde o único prêmio é ver quem consegue ficar de pé por mais tempo.
Um coro de acusações e verdades dolorosas gritava dentro de mente de Olívia: Ele não tem esse direito. É tarde demais. Nosso amor se tornou uma cicatriz que nunca sara. Mas quando seus lábios se separaram, tudo o que saiu foi um sussurro frágil, a voz de uma mulher à beira do esgotamento emocional.
— Por que você veio, Ian?
Ele a encarou, e o que ela viu em seus olhos a fez perder o fôlego. Era algo novo e assustadoramente vulnerável: um cansaço absoluto.
— Porque eu precisava entender — ele finalmente respondeu, a voz tão baixa que ela quase precisou ler seus lábios. — Antes que você desaparecesse para sempre... eu precisava entender o que seus olhos viram. No que seu coração acreditou.
O coração de Olívia acelerou, um tambor de guerra anunciando uma batalha que ela não tinha mais energia para travar. Ela desviou o olhar para as malas, para as evidências de sua fuga, buscando força na decisão que tomara.
—Eu vi o suficiente — sussurrou, mais para si mesma do que para ele.
— O que exatamente você viu, Olívia? — a pergunta dele veio como um golpe contido. — A foto?
Ela mordeu o lábio inferior com força, sentindo o sabor metálico da dor e da resistência.
—Sim.
— E você acreditou. — Não era uma pergunta, era uma constatação carregada de uma dor tão profunda que ela pôde senti-la no ar. Ele deu uma risada amarga, um som oco e vazio. — Claro que acreditou. Por que não acreditaria? Eu te dei todos os motivos do mundo.
Olívia ergueu o olhar para ele, sua própria dor transformando-se em algo afiado e pontiagudo.
—O que eu deveria pensar, Ian? — sua voz falhou, carregada de lágrimas não derramadas. — Depois de todas as palavras cortantes, de todos os gelos, de tudo o que você me fez passar... O que mais eu poderia acreditar?
— Que eu nunca, jamais, faria isso com você! — a explosão dele não foi de raiva, mas de desespero. Sua voz quebrou no final, expondo a carne crua por trás da fachada. — Que eu nem mesmo lembro daquela noite!
O silêncio que se seguiu à sua admissão foi mais devastador do que qualquer gritaria. Ele nunca havia se permitido parecer tão quebrado, tão perdido.
— Eu fui até a casa dela — ele continuou, a voz reduzida a um fio trêmulo. — Havia coisas do passado... coisas que me assombram e que, de alguma forma, eu achei que ela pudesse responder. Bebi algo... e depois... nada. Um vazio. Um apagão total. Acordei com a alma suja e a mente vazia, sem saber o que havia acontecido.
Olívia o fitava agora, e ele pôde ver o coração dela se partindo em tempo real em seus olhos. Cada fragmento de descrença, cada lasca de dor, era um reflexo de sua própria desolação. E, num instante de clareza perversa, Ian desejou que ela o odiasse com todas as suas forças — porque o ódio ele saberia como suportar. O ódio o manteria a salvo da esmagadora, avassaladora e proibida necessidade de tocá-la.
Ainda o quê? Quis perguntar.
Mas seus lábios estavam a um suspiro de distância, o campo magnético entre eles prestes a colapsar, quando o som de pequenos passos apressados ecoou no corredor.
Então Ian afastou-se como se tivesse sido queimado, o feitiço quebrado pela realidade intrusiva. O espaço onde o calor dela estivera agora era apenas um vazio frio.
— Papai!
Léo correu em sua direção, seus pés descalços fazendo um ruído suave no piso, seus braços abarrotados de brinquedos coloridos.
O mundo inteiro pareceu congelar naquele quadro surreal.
Ian olhou para o menino — seu filho —, depois de volta para Olívia. Seus olhos estavam úmidos, arregalados, e seus lábios ligeiramente entreabertos, ainda marcados pelo quase-beijo. Havia uma rendição em seu olhar que ele não via há tanto, tanto tempo.
Léo sorriu, um raio de sol puro cortando através da escuridão adulta que os envolvia, e repetiu, com a incontestável lógica infantil que desfazia todas as complexidades:
— Papai, olha o que eu desenhei pra você!
A palavra ecoou dentro de Ian não como um som, mas como uma convulsão.
Papai.
Ela atingiu-o com o peso esmagador de um milagre inesperado e o corte preciso de uma lâmina, lembrando-o de tudo o que ele tinha a perder e tudo o que já havia perdido.
Ele se ajoelhou, suas pernas cedendo sob o peso da emoção. Seus olhos marejaram sem sua permissão, e ele estendeu as mãos, não para o desenho, mas para o menino, seu coração se abrindo em uma fenda por onde toda a dor e todo o amor transbordaram de uma vez.
— Mostra para o pai, filho — sussurrou, sua voz irreconhecível devido à emoção. — Por favor, me mostra.

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