— Como você sabia da cicatriz?
Olivia ouve a voz de Ian atrás dela mais uma vez. Insistindo na mesma maldita pergunta. Ela sabia que ele não iria sossegar e deixar aquela história para trás.
Ela fecha os olhos, enquanto sente a pergunta dele cortando o ar como uma lâmina fina. Olivia piscou, o sangue correndo gelado nas veias. Ele havia a seguido e parecia sedento por uma explicação.
A verdade é que Ian não parecia nervoso, parecia cauteloso. Como um caçador que descobriu que o animal diante dele talvez carregasse garras também.
Olivia respirou fundo, desviando o olhar.
— Eu... li uma matéria. Acho que foi uma entrevista antiga.
— Mentira ruim — ele disse, com um meio sorriso, seco. — Nenhuma câmera já pegou. Fica sob o cabelo. E eu nunca falei dela, como consegui.
— Você deve estar enganado — ela rebateu, tentando manter a voz firme.
Ian não respondeu. Apenas a encarou. O tipo de silêncio que não exigia grito pra doer.
Ela sentiu as mãos suarem. E o peso do segredo no peito crescer. Não era a hora de ser revelado aquilo, ainda. Talvez nunca fosse.
Mas antes que Ian pudesse falar mais alguma coisa, a porta da varanda se abriu e uma voz grave preencheu a sala:
— Posso interromper os pombinhos? — pergunta, numa voz forçada.
Era Nicolau Moretti.
Na aparência e postura extremamente elegante, o seu terno escuro seguia alinhado, olhos vivos apesar da idade. Ele trazia um copo de conhaque, mas parecia mais interessado nos dois à frente do que na bebida.
— Estavam tendo uma conversa particular? — perguntou com leve ironia.
Olivia se afastou de Ian um passo quase imperceptível. Mas Nicolau notou. Notava tudo. E aquilo o deixou em alerta. Algo estava errado?
— Estávamos discutindo sobre a impressão da festa — Ian rapidamente respondeu com um sorriso ensaiado.
— Ótimo. Porque quero convidá-los para algo mais íntimo. Um jantar com a família, aqui mesmo. Nada formal, mas... importante. — Nicolau anuncia.
Ian assentiu, Olivia manteve o sorriso educado, mesmo com a pele quente e o estômago fechado. Não acreditava que iria passar por mais um jantar infernal daqueles.
Quando todo esse pesadelo vai acabar? Pergunta a si mesma, chorando internamente. Por fora? Um belo e falso sorriso.
Nicolau se virou para ela.
— Gosto de gente que sabe onde pisa. Já vi muito rosto bonito tentando bancar estabilidade. Mas você tem outra coisa... — ele estreitou os olhos. — Tem firmeza. Isso me interessa.
Ela agradeceu com um aceno discreto. E pensou: Você não faz ideia de onde estou pisando.
— Em breve, decisões importantes serão tomadas — continuou o velho. — E eu valorizo três coisas: sangue, responsabilidade... e quem sabe manter a cabeça no lugar mesmo quando o chão some. Entenderam?
Ian murmurou um "sim, senhor", como se tivesse passado a vida inteira ouvindo aquele mesmo sermão. Olivia apenas fez que sim com a cabeça. Em seguida, Nicolau girou nos calcanhares, pronto pra sair, mas a porta da frente bateu antes disso.
No salão, mais pessoas continuavam chegando. Olivia sentiu olhares queimando suas costas.
— É ela, a tal noiva de Ian? — sussurrou uma mulher perto do piano, disfarçando com o leque, mas falava alto o suficiente para que ela pudesse ouvir.



VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Nosso Filho, Meu Segredo: O Contrato Proibido