Os meus punhos estão cerrados na borda do meu casaco vermelho, meu coração batendo violentamente contra o meu peito, lágrimas contidas ardendo em meus olhos. Eu jamais desejaria mal a uma criança, saber que ele perdeu uma criança da idade do meu filho dói de uma maneira que não deveria doer. A última pessoa na terra que desejo ter empatia, é Luck.
O carro foi diminuindo a velocidade. Quando chegamos em frente do chalé, um grupo de protestantes jovens estavam com todo tipo de bandeiras, rostos pintados, em protesto.
— O que é isso? — perguntei apreensiva, quando um jovem passou muito próximo ao nosso carro e colou um adesivo.
— Alguns dos jovens da cidade são contra a reeleição de Luck.
— Entendo, ele é tão mal como governante? Eles parecem bem revoltados.
—Parece que ele quer tomar posse de uma reserva florestal para construir um centro comercial, vai abranger metade das vagas dos trabalhadores desta região. Também terá a função de chamar a atenção para o turismo da cidade.
— Mas é mesmo necessário destruir uma reserva florestal? Me parece bem egoísta. Não sei se elegeria alguém assim. É uma cidade pequena, sabe, nós nos apegamos às pequenas coisas. Isso é totalmente errado.
Ele sorriu e acelerou, quando um segurança abriu o grande portão de ferro para ajudar a passar no meio dos protestantes.
— Também acho que seja, querida. Mas Luck nunca pareceu gostar do que é correto. — Dei-lhe um sorriso fraco, e seu queixo caiu decepcionado.
Três taças de champanhe e um grande prato ravióli depois, eu estava inquieta, trocando o cansaço com os pés e rezando para que Ethan parasse de me apresentar para todos. Meu rosto já estava duro de tanto fingir sorrisos. Luck não nos importunou, diferente do que eu pensei que ele faria. Ele se aproximou poucas vezes, e mal fez contato com os olhos. Sempre estava educado com todos. Isso foi revigorante, já estava me sentindo mais segura para perambular por lá.
Dei algumas voltas pelo local, mas me senti melhor em fazer aquilo onde os olhos de Ethan poderiam ir, no caso de Luck tentar me importunar. Eu sei, parece paranoia, e talvez eu esteja sendo ridícula. Provavelmente ele nem se lembrava de mim, e o fato de ter se impressionado com Nicholas pode ser apenas circunstancial. Quantas crianças se pareciam no mundo? Excepcionalmente quando o Nicholas podia ser de Ethan? Ele não podia acreditar em uma criança de cinco anos. Eu estava certa que Ethan não disse nada sobre o Nicholas não ser filho dele, então não tinha mesmo como Luck suspeitar de qualquer coisa. Enfiei essa ideia na cabeça e deixei meu coração tranquilo. Ou pelo menos tentei.
Porém, eu sabia que não era só isso que me incomodava, era estar de volta à cidade, com suas velhas histórias, as velhas casas e famílias. Eu nunca pertenci a este lugar, muito menos ao que eu estava pisando. Há seis anos, eu realmente acreditei que poderia me encaixar, que Luck me queria. Eu não o culpo, já superei essa parte da minha vida. Mesmo que ele não tivesse me respeitado, ele me deu a coisa mais preciosa. A única coisa que não me faz arrepender por ter dormido com ele aquela noite. Apesar de eu ter passado pelo inferno, de certa forma eu era grata. Ele me deu Nicholas, e depois Ethan. E eu sou completa com eles.
Parte dos convidados começava a de dispersar e ir embora. Ethan ainda conversava. Mexi-me com inquietação e toquei Ethan suavemente no braço.
— Ethan...
— Ei, princesa, um segundo... — Ele voltou a conversar com um grupo de homens.
— Colle...
Ele finalmente se virou para mim.
— Colle, será que já podemos ir? — Suspirei cansada.
Ele me estudou por um segundo, então assentiu. — Tudo bem, apenas me deixe terminar o Bourbon e me despedir de todos. — Deu-me um beijo nos lábios e outro na testa. — Vou procurar Luck para nos despedimos. Enquanto isso, que tal ir ao toalete enquanto eu peço a alguém para trazer nosso carro?
Um estrondo tirou nossa atenção. Mal pude ver pelo enorme vidro do chalé, mas era claro que um grupo dos protestantes havia ligado uma caixa de som enorme, e estavam gritando coisas desconexas.
Um grupo de segurança correu em direção ao portão.
— Ok. Cinco minutos — disse, antes de me retirar.
Eu ainda não havia entrado no enorme chalé. A festa tinha sido em um salão externo construído recentemente em um campo aberto que se ligava ao chalé principal. Eu havia ido até o banheiro do salão, mas a fila me fez desistir, e quando vi eu já estava indo na direção do chalé, que conheci há anos atrás. Eu não podia esperar, finalmente estávamos indo embora e eu estava muito apertada para fazer xixi.
Na volta, passei pelo grande salão interno, não vim pelo mesmo caminho, acabei sendo tomada pela curiosidade. Era exatamente o mesmo salão em que eu havia passado e dançado há seis anos. Ele antes era vazio, o corpo estudantil ocupava todo o espaço. Fechei meus olhos e vi, por um segundo, três meninas que travavam o caminho do salão anexo. Elas estavam empolgadas e cheias de expectativas.
Logo as reconheci: Nicole, Vivian e Alice.
Sorri sozinha, tendo uma visão esplêndida das minhas amigas. Um friozinho percorreu meu corpo, e quando dei por mim, uma lágrima escorreu pelo meu rosto. Que saudade sinto delas. Meu pensamento foi arrancado, trazendo-me de volta à realidade quando Complicated, da Avril Lavigne, começou a tocar tão alto que me assustei e dei um grito. Ainda bem que não havia ninguém para ver. Devia ser aqueles jovens protestando, logo o silêncio voltaria.
Ia caminhando de volta à saída quando o tilintar de um copo me tirou a concentração. No mesmo bar onde eram servidas as bebidas na festa, onde anos atrás um amigo do Luck pediu um Uber para mim, estava um corpo. Ele estava prestando atenção em seu copo, os lábios molhados de bebida, e ele brincava com os dedos na borda. Seus olhos olhavam para trás de mim, não me encaravam. Eram olhos cansados e cheios de tristeza, algo que eu nunca havia visto neles antes. Confesso que senti pena. Nem imagino a dor de perder todos que amo.
Voltei ao meu caminho, mas antes que eu me virasse, ele me chamou.
— Sente-se aqui — ele falou com a voz embriagada. Seus lábios estão pressionados em uma linha dura.
— Seu irmão está te procurando — afirmei. — Acho melhor que ele saiba onde está. Vou avisá-lo.
— Não — ele disse calmo. — Sente-se aqui. — Seu tom é indiferente e frio.
Caminhei até ele e sentei ao seu lado, em um enorme sentimento de déjà vu. Estávamos na mesma cadeira de anos atrás. Só que agora, eu não o amava nem um pouco.

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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: O bebê do bilionário
Está faltando capítulos autora...
Cadê o resto dos capítulos?...