POV/ CLARA
As babás chegaram às seis em ponto. Eram três agora: duas para se revezarem com as pequenas Isadora e Helena, e uma dedicada exclusivamente à Geovana e Ângela, já que as meninas estavam em uma fase que exigia menos atenção física, mas muito mais presença emocional. Entreguei os bebês com o coração apertado, mas meu corpo finalmente implorava por trégua. Era hora de fechar os olhos e sonhar com o dia 21.
Tomei um banho quente, sentindo a água levar um pouco da tensão dos ombros, e capotei. Dormi um sono pesado, sem sonhos, até ser despertada por mãos pequenas cutucando meu braço.
— Clara... acorda... você prometeu — a voz de Geovana era um sussurro insistente, mas carregado de expectativa.
Abri os olhos devagar, sentindo cada músculo protestar. Eu ainda me sentia um bagaço, mas ver os rostinhos ansiosos delas me fez forçar um sorriso. Eu sentia uma culpa latente; desde que os bebês nasceram, parecia que eu só tinha tempo para fraldas, mamadeiras e consultas pediátricas. Minhas "primeiras filhas" acabavam ficando em segundo plano, e aquilo doía em mim.
— Promessa é dívida — murmurei, sentando-me na cama com o cabelo todo bagunçado, parecendo uma sobrevivente de um naufrágio. — O que vamos fazer hoje?
— Frozen! — as duas gritaram em coro, pulando na cama.
Eu suspirei internamente. Acho que aquela era a 14ª vez só naquele mês. Eu já sabia as falas da Elsa de cor, mas por elas, eu assistiria até a centésima.
Descemos para a sala de cinema. Com a nossa cozinheira antiga aposentada — uma perda que eu lamentava todos os dias —, a cozinha tinha se tornado um território perigoso para mim. Adrian insistia em contratar alguém à altura, mas por enquanto, estávamos vivendo de comidas prontas de alta gastronomia que as babás organizavam. Porém, eu queria fazer algo "de mãe". Algo simples.
— Vou fazer pipoca! — anunciei, entusiasmada.
Dez minutos depois, o som de "explosões" vinha da cozinha. Eu tinha errado o tempo no micro-ondas e, para completar, esqueci uma panela com óleo no fogo ao mesmo tempo. O cheiro de queimado subiu rápido e eu tive que rir da minha própria desgraça enquanto abria as janelas. Um ano como esposa do Imperador e eu ainda era uma negação absoluta nas tarefas domésticas. Graças a Deus pela equipe de limpeza, ou Adrian voltaria para encontrar a mansão em cinzas.
— Esqueçam a pipoca gourmet, crianças. Vamos de biscoitos prontos! — brinquei, voltando para a sala com o que consegui salvar e alguns pacotes de lanche.
Nos aninhamos no sofá imenso, que parecia uma nuvem. As meninas ficaram de cada lado, deitadas no meu colo. Enquanto a trilha sonora de Let It Go começava, eu fazia carinho no cabelo delas, trançando os fios como elas gostavam. Era o nosso momento de conexão.
— Você ainda gosta da gente, né? — Ângela perguntou de repente, com o olhar fixo na tela, mas a voz carregada de uma insegurança infantil que me partiu o coração.
Meu coração deu um solavanco. Apertei-a mais forte contra mim. — Mais que tudo no mundo, meu amor. Vocês foram as primeiras a me ensinar o que é ser mãe. Os bebês só aumentaram o nosso time, mas o lugar de vocês aqui — apontei para o meu peito — é único e ninguém tira.
Ficamos ali, naquela bolha de paz. Eu estava exausta, sim. Meu cabelo estava um desastre, eu usava uma camiseta velha e a casa cheirava levemente a pipoca queimada. Mas, enquanto elas riam das trapalhadas do Olaf, eu percebi que aqueles momentos "comuns" eram o maior luxo que o dinheiro do Adrian poderia me proporcionar.
O celular vibrou ao meu lado no sofá, iluminando o rosto adormecido de Ângela. Era uma chamada de vídeo de Isadora. Atendi no mudo e saí de fininho para a varanda, vendo a Torre Eiffel brilhando ao fundo da tela dela enquanto ela segurava uma taça de champanhe com uma elegância que eu nem lembrava mais como era ter.
— Amiga, você parece que foi atropelada por um caminhão de fraldas e ele deu ré — Isadora disse, rindo ao me ver.
— É o charme do "pós-parto eterno", Isa. É a nova tendência em Porto Alegre — brinquei, tentando ajeitar o coque desfeito. — O que manda, Parisiense?
Rimos e fomos para o jardim enquanto as crianças faziam a festa com o Mathew. Isadora me olhou de cima a baixo, os olhos semicortados em uma análise clínica.
— Clara, você está linda com esse loiro, mas seus olhos estão gritando "socorro". Você tem certeza que vai conseguir se desligar por uma noite?
Eu suspirei, sentando-me na espreguiçadeira. — Tenho medo, Isa. Medo de elas chorarem e eu não estar aqui. Medo de você surtar com quatro crianças. E... uma insegurança idiota de que o Adrian tenha se acostumado com essa minha versão "mãe em tempo integral".
Isadora segurou minha mão, o tom de voz ficando subitamente sério e acolhedor. — Escuta aqui: o Adrian é louco por você. Eu vi como ele olhava para você grávida, parecia que ele ia devorar o mundo só para te dar espaço para caminhar. Mas ele é homem, e é o seu homem. Vocês precisam desse território de volta. O Mathew e eu damos conta. Se a Helena tiver um ataque de gênio, o Mathew faz ela rir. Se a Isadora chorar, eu dou um doce... brincadeira! Eu sigo o cronograma da babá, prometo.
Eu ri, sentindo um peso sair dos ombros. — Você é a melhor amiga que uma mulher surtada poderia ter.
— Eu sei. Agora, vá para o seu quarto. O Adrian mandou entregar uma caixa lá. É para o dia 21. E Clara... — Ela deu um sorriso malicioso. — Use cada minuto. Não ouse me ligar para perguntar se alguém fez cocô.
Subi as escadas com o coração batendo rápido. No centro da nossa cama, havia uma caixa preta com o brasão dos Cavallieri em dourado. Abri com as mãos trêmulas e encontrei um vestido de seda líquida vermelha, tão fino que parecia uma segunda pele, e um bilhete com a letra firme dele:
"Uma noite só nossa. Sem bebês, sem interrupções. Só a minha Clara e a dívida que eu pretendo cobrar sem pressa alguma. Esteja pronta às 19:00."
Olhei para o vestido vermelho e depois para o espelho. Uma onda de nostalgia e desejo me atingiu. Que saudades que eu estava de mim mesma.

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