No quarto de hóspedes na mansão Mancini, a atmosfera era pesada. Vittoria segurava as mãos de Francesca, frias como duas pedras de gelo. Francesca mantinha os olhos vermelhos, transbordando lágrimas que caíam sem pressa.
A indignação que queimava no peito de Vittoria, contudo, não era apenas subproduto da empatia pela dor da amiga. Era egoísmo puro. Era o orgulho ferido da linhagem Mancini. Enzo havia cruzado todos os limites aceitáveis naquela tarde. O estalo seco do zíper das malas dele ainda ecoava na mente de Vittoria, uma afronta final após os pais terem se negado terminantemente a escorraçar Francesca dali para jogá-la em um hotel qualquer. Enzo tinha ido embora. Vittoria ajeitou-se na beirada do colchão de fios egípcios, os dedos longos e bem manicurados subindo para acariciar os ombros de Francesca. O gesto era uma mistura calculada de afeto genuíno.
— Fran, não fique assim... Não se rebaixe a esse ponto.
Começou Vittoria, a voz mansa, mas transbordando um veneno letal.
— A ex-copeira pode ter ganhado uma batalha insignificante, mas ela não ganhou a guerra. Guarde o que estou te dizendo: eu jamais vou aceitar uma criatura daquela estirpe como minha futura cunhada. Que vergonha, meu Deus... Que humilhação! Imagina o meu papel? O que os meus amigos vão falar quando eu circular pela alta sociedade com uma garota que até ontem servia cafezinho de bandeja na empresa dos Salvattore?
Francesca puxou o ar com dificuldade, usando os nós dos dedos para limpar uma lágrima teimosa que insistia em manchar sua maquiagem borrada. A menção ao passado ativou um gatilho doloroso, trazendo à tona o peso de um fantasma que ela tentava enterrar há anos.
— O Enzo jamais vai me perdoar pelo o que aconteceu, Vi...
Desabafou Francesca, a voz embargada, quebrada por um soluço agudo que ecoou pelo quarto.
— Mas... um filho não estava nos meus planos naquela época! Eu amava o Enzo, você sabe que sim, eu era louca por ele! Mas eu simplesmente não estava preparada para ser mãe. Eu entrei em pânico!
O sangue de Vittoria congelou instantaneamente naquelas veias. Os olhos dela se arregalaram em duas órbitas de puro pânico. Num reflexo violento, ela cravou as unhas no braço de Francesca, apertando com força o suficiente para deixar marcas, enquanto sua cabeça girava em direção à maciça porta de jacarandá do quarto, temendo a menor sombra no corredor.
— Fale baixo!
Vittoria sibilou entre dentes, a voz despencando para um sussurro urgente, cortante como uma lâmina.
— Fale baixo, pelo amor de Deus! Os meus pais não sabem dessa história. O Enzo escondeu isso de todo mundo!
A tensão no quarto subiu a níveis quase insuportáveis, o ar parecia rarefeito. Vittoria endireitou a postura de uma só vez, o peito subindo e descendo numa respiração descompassada enquanto sua mente calculava o risco catastrófico daquela confissão vazar pelas frestas da mansão.

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