O silêncio que se instalou na suntuosa sala da mansão Mancini aquela noite, era quase sufocante. Giorgio olhava para a esposa com uma mistura de decepção e incredulidade, enquanto Enzo mantinha os punhos cerrados, o maxilar tenso refletindo a fúria que tentava controlar.
— Lugar dela, mãe?
A voz de Enzo ecoou, fria e cortante como navalha. Ele deu dois passos em direção à mãe, ignorando o luxo que o cercava, um ambiente que agora lhe parecia sufocante.
— O lugar da Antonella é onde ela quiser estar. E, no momento, o lugar dela é ao meu lado. O que você fez hoje não foi defender a família, foi um ato de pura covardia pessoal e profissional. Usar o seu poder no Grupo Mancini para humilhá-la publicamente?
Ada não se moveu um milímetro. Cruzou as pernas com a elegância de quem foi treinada desde o berço para nunca perder a postura, embora seus olhos castanhos faíscassem de puro rancor.
— Covardia, Enzo?
Ela rebateu, a voz perfeitamente modulada, destilando veneno com suavidade.
— Eu chamo de limpeza de lixo. O Grupo Mancini tem um nome a zelar. O que você acha que o mercado vai dizer quando souber que o herdeiro da empresa trocou um noivado a quatro anos atrás com a herdeira dos Valli, e hoje está com uma... uma assalariada do departamento de relações públicas?
— Chega, Ada!
Giorgio interveio, a voz grave finalmente encontrando espaço no ambiente. Ele olhou da esposa para o filho, visivelmente desgastado pela eterna guerra de egos daquela casa.
— Você passou dos limites. O Departamento de Relações Públicas responde à diretoria, não aos seus caprichos pessoais. O que exatamente você fez?
Ada soltou uma risada curta, sem humor, e voltou seu olhar desdenhoso para o marido.
— Eu apenas lembrei àquela senhorita que a linha entre a vida profissional e a audácia pessoal é muito diferente. Sugeri que ela procurasse novos ares antes que sua permanência se tornasse... insustentável.
— Você a ameaçou!
Afirmou Enzo, a voz perigosamente baixa. Seus olhos fitavam a mãe com um distanciamento que machucaria qualquer outra mulher, mas que em Ada apenas alimentava o orgulho ferido.
— Você a ameaçou usando o nome da nossa família.
— Eu fiz o que seu pai deveria ter feito no momento em que você arrumou as malas para morar longe da mansão e da sua família.
Ada alterou o tom pela primeira vez, levantando-se do sofá de veludo. A fachada de calmaria trincou, revelando a indignação que a consumia.
— Olhe para você, Enzo! Você está sacrificando o seu futuro, e o coração de Francesca, uma moça de classe, da nossa altura! por um capricho! Uma aventura.
Enzo deu um sorriso amargo, balançando a cabeça.
— Você nunca vai entender, não é? Não se trata de um capricho. Eu saí desta casa porque cansei de respirar esse ar contaminado por aparências e contratos sociais disfarçados de amor. E quer saber? Você achou que me forçaria a voltar cortando as asas dela? Pois conseguiu exatamente o oposto. Eu não amo mais a Francesca, tudo entre nós acabou a quatro anos atrás. E seria ridículo mantê-la hospedada aqui enquanto tenho namorada.O que as pessoas iriam pensar? E minha namorada?

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