A noite em Milão se estendia além da imensa parede de vidro do novo apartamento de Francesca. Lá fora, o mar de arranha-céus parecia uma constelação densa e caótica de luzes piscatórias, emoldurando o início daquele novo capítulo. Dentro, o silêncio era caro, interrompido apenas pelo zumbido discreto do ar-condicionado.
Francesca deslizou a ponta dos dedos pelo balcão de mármore nero. A pedra era fria, um contraste exato com o calor que subia por seu pescoço. Ela soltou um suspiro longo, uma mistura ácida de expectativa. Voltou-se para a sala de estar, onde Vittoria parecia um elemento nativo daquela opulência. Perfeitamente à vontade no sofá de linho cru, a amiga segurava uma taça de cristal transbordando espumante como se o lugar, e talvez o mundo já lhe pertencesse.
— Eu nem sei por onde começar a te agradecer, Vi.
Disse Francesca, os saltos ecoando timidamente no porcelanato enquanto se aproximava e erguia sua própria taça, as mãos levemente trêmulas.
— Sem a sua ajuda para conseguir esse contrato de última hora, com os designers, a decoração... Eu estaria mofando na suíte de algum hotel. Olha para este lugar. É um verdadeiro luxo. É surreal.
Vittoria cruzou as pernas elegantemente, o tecido de seda de sua calça pantalona caindo sem uma única dobra. O sorriso que exibiu era de pura satisfação, o sorriso de um general que acaba de conquistar uma colina estratégica. Ela inclinou a taça num brinde solitário no ar antes de tomar um gole lento.
— Ah, querida, por favor, poupe-me dos agradecimentos.
Desdenhou Vittoria, a voz aveludada transbordando uma autoconfiança quase magnética.
— Eu tinha certeza absoluta de que você iria amar este condomínio. É o mais exclusivo da cidade. Tem o esquema de segurança privada que você precisa e, bem... convenhamos, o padrão visual está finalmente à sua altura. Você não podia continuar vivendo como se estivesse na sua casa como antes.
O elogio, no entanto, funcionou como um gatilho reverso. O brilho de entusiasmo que ensaiava surgir nos olhos de Francesca vacilou, engolido por uma sombra súbita de dúvida. O peso da realidade desabou sobre seus ombros. Ela colocou a taça intocada sobre a mesa de centro.. O som do cristal batendo na superfície soou como um alerta.
— Vi...
Francesca começou, a voz caindo para um sussurro tenso, os olhos correndo instintivamente em direção à porta de entrada, como se as paredes guardassem microfones.
— Você tem certeza absoluta de que tudo isso vai funcionar Quero dizer... eu me mudar para este condomínio. Você acha mesmo que esse plano de ficar perto do Enzo vai dar certo? E se ele perceber? E se ele achar que eu estou... perseguindo ele?
Vittoria não conseguiu conter o riso. Não foi uma gargalhada vulgar, mas uma risada leve, moldada por uma segurança inabalável, que ecoou perfeitamente pelo teto de gesso rebaixado com iluminação embutida. Ela deixou a taça de lado e levantou-se com a graciosidade de um felino caçando. Caminhou até a amiga, pousando as mãos firmes em seus ombros tensos. O perfume importado de Vittoria, forte e amadeirado, invadiu o espaço de Francesca.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: O CEO Italiano e a Brasileira