Quatro dias depois, o ar condicionado no sétimo andar do Grupo Mancini estava no máximo, mas ninguém ali parecia sentir frio. O Departamento de Relações Públicas operava em ritmo de zona de guerra. Papéis impressos com o clipping da semana dividiam espaço com canecas de café.
Juliana ajustou os óculos e revisou a tela do notebook pela décima vez, conferindo o roteiro de perguntas e respostas que haviam preparado. Ao seu lado, Antonella terminava de organizar as pastas com os balanços financeiros e as projeções de expansão do grupo. Ambas eram estagiárias, mas o peso daquele dia as fazia se sentir no topo da hierarquia de crise.
— Se aquela jornalista da Construir & Evoluir vier com gracinhas sobre a vida pessoal dele de novo, eu mesma corto o microfone e enrolo no pescoço dela.
Murmurou Juliana, digitando furiosamente.
Antonella respirou fundo, tentando manter as mãos firmes ao alinhar os relatórios na mesa de centro. Ela ajeitou a saia de alfaiataria e olhou para o reflexo no vidro da janela. O estômago de Antonella dava nós. Publicamente, ela era a estagiária dedicada do RP. Nos bastidores, ela era o motivo pelo qual o homem mais poderoso da construção civil do país estava prestes a chutar o balde em rede nacional.
A porta da sala de reuniões principal se abriu num baque. Alessia, a Diretora de Relações Públicas, cruzou o recinto como um furacão. O salto agulha estalava contra o piso de porcelanato, ecoando o tamanho do seu nervosismo. Ela segurava um tablet que exibia a manchete de um portal de fofocas: Mancini e Valli: Negócios, Vinho e o Brilho de uma Antiga Aliança".
— Isso é uma fofoca sem fundamento!
Alessia exclamou, jogando o tablet na mesa.
— Somos a maior potência em Construção Civil do mercado, estamos abrindo três novas parcerias internacionais este mês, e a mídia só quer saber se o Enzo vai voltar para a herdeira dos Valli por causa de vinhedos italianos!
Ela parou diante de Juliana e Antonella.
— Meninas, me digam que o press kit focado estritamente na engenharia sustentável está pronto. O foco é a infraestrutura, a solidez do Grupo Mancini. Se a imprensa insistir no noivado que acabou há quatro anos, eu juro que peço demissão, isso é um absurdo, Antonella você é a namorada dele. Eles tem que aceitar isso.
— Está tudo pronto, Alessia!
Antonella respondeu.
— O foco principal está nas novas diretrizes de incorporação. Mas... você sabe como o senhor Mancini é. Ele não vai deixar que usem o nome dele para especulações falsas.
Alessia soltou uma risada nervosa.
— Eu sei bem. Enzo Mancini tem a paciência de um trator quando tentam controlar a narrativa dele. Ele exigeu essa entrevista justamente para colocar um ponto final nisso tudo.
Todos no mercado sabiam que a união entre os Mancini e os Valli na indústria vinícola era histórica. E quando Enzo e Francesca Valli ficaram noivos, parecia o casamento do século. Mas o romance havia evaporado quatro anos atrás, transformando-se apenas em burocracia corporativa e respeito entre familias.
Francesca estava de volta a Milão, já que os negócios da sua família era em Roma. Isso plantou rumores.
Quando o relógio marcou exatamente duas horas da tarde, a porta privativa do corredor da diretoria se abriu. Enzo Mancini entrou no departamento. Alto, vestindo um terno sob medida cinza escuro, ele exalava a autoridade natural de quem comanda milhares de operários e engenheiros. Seu olhar varreu a sala e, por uma fração de segundo, suavizou-se completamente ao encontrar os olhos de Antonella.
Antonella fizera questão de estar naquela sala, de ajudar a produzir aquela entrevista, não apenas pelo seu crescimento profissional, mas para ser a âncora dele. Ela queria estar presente para apoiá-lo no momento em que ele finalmente diria ao mundo que o passado era apenas poeira.
— Boa tarde, Alessia. Juliana, Antonella.
A voz grave de Enzo preencheu o espaço, cortando a tensão. Ele caminhou até a mesa, pegando o roteiro preparado pelas duas.

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