O relógio de parede no topo da sala da presidência marcava o fim de mais uma tarde exaustiva. Quinze dias. Quinze dias exatos haviam se passado desde que o Grupo Mancini mergulhara em uma rotina frenética de reestruturação, e a atmosfera no quartel-general de Milão refletia exatamente esse ritmo implacável.
De sua mesa envidraçada, com uma vista panorâmica que alcançava os guindastes e as novas silhuetas arquitetônicas da cidade, Enzo Mancini observava a movimentação do lado de fora. O CEO do grupo, sempre impecável e com o olhar afiado de quem comanda um dos maiores impérios da construção civil da Europa, mantinha os braços cruzados, exibindo um meio sorriso quase imperceptível.
Vittoria cruzou o corredor central carregando um tablet em uma das mãos e uma pilha de relatórios de conformidade técnica na outra. Nos últimos quinze dias, a rotina dela havia mudado drasticamente. Ela fora estrategicamente alocada no olho do furacão: o departamento de Consultoria e Auditoria Interna.
Aquele não era um estágio qualquer de observação. Era a área responsável por destrinchar e otimizar a prestação de serviços especializados da empresa, redesenhando a eficiência de canteiros de obras gigantescos espalhados da Itália até o leste europeu.
_ Se queremos continuar moldando o horizonte da Europa, nossa fundação interna precisa ser antissísmica.
Enzo costumava dizer. E ele garantiu que Vittoria sentisse o peso dessa fundação.
A jovem estava tão atarefada que, nos últimos tempos, mal conseguia parar para respirar. Era um ciclo sem fim de: Análise de planilhas de custos de insumos e matérias-primas/ Auditorias de prazos logísticos para os projetos de Milão/ Reuniões por videoconferência com engenheiros-chefes exigindo relatórios de sustentabilidade.
No final do expediente, a porta da sala de Enzo se abriu com um baque sutil. Vittoria entrou, desabando na cadeira de couro italiana à frente do irmão, soltando um suspiro dramaticamente longo.
— Enzo, eu juro por tudo que é sagrado, se eu tiver que revisar mais um balanço de eficiência de concreto armado para a filial de Frankfurt, eu vou enlouquecer.
Reclamou ela, massageando as têmporas.
— Eu não tenho tempo nem para almoçar direito. Você está tentando me matar de tanto trabalhar?
Enzo descruzou os braços, caminhou até a cafeteira expressa e serviu uma xícara, entregando-a à irmã com um olhar de falsa compaixão.
— Isso se chama construir caráter, sorellina.
Respondeu ele, o tom de voz calmo e ironicamente acolhedor.
— A eficiência do Grupo Mancini depende de uma auditoria impecável. Você está indo muito bem.
Vittoria semicerrou os olhos, bebendo um gole do café forte. Ela conhecia o irmão que tinha.
Por trás de sua postura de mentor corporativo focado no crescimento da empresa, Enzo escondia um motivo muito mais pragmático e pessoal para manter a irmã submersa em planilhas de auditoria.
A estratégia era o isolamento geográfico dentro da própria empresa.
Enzo sabia perfeitamente que, enquanto Vittoria estivesse soterrada por prazos, métricas europeias e relatórios de eficiência da construção civil, ela

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