SE ABRINDO COM A MÃE
O vento batia contra a janela do pequeno apartamento em Fieira, abafando o som baixo da TV ligada. O brilho da tela iluminava o rosto de Zoe, que estava encolhida no sofá, abraçada a uma almofada, com o olhar perdido em algum ponto entre o filme e seus próprios pensamentos.
Laura, sentada ao lado, não precisava de muito para ler o silêncio da filha. Ela conhecia cada vinco de preocupação naquela testa.
— É por causa do Mattia, não é?
Laura perguntou, quebrando o silêncio com suavidade.
— Aquele encrenqueiro está te tirando o sono de novo?
Zoe suspirou, balançando a cabeça devagar sem desviar o olhar do vazio.
— Não, mãe. Eu nem vi mais o Mattia depois que a senhora teve aquela conversa séria com o pai dele. Ele sumiu.
Laura franziu o cenho, deixando o controle remoto de lado. Se não era o problema de sempre, era algo novo, e talvez mais profundo.
— Então por que esse silêncio todo, minha filha? Você mal tocou na pipoca. O que está passando nessa cabecinha?
Zoe hesitou por um momento, ajeitando-se no sofá para encarar a mãe. Seus olhos brilharam com uma dúvida de menina ingênua.
— Mãe... como você descobriu que estava apaixonada pelo papai? Tipo, como você teve certeza? O que a senhora sentia?
Um sorriso nostálgico iluminou o rosto de Laura. Ela se recostou, parecendo viajar no tempo para os dias em que o marido ainda enchia sua vida com risadas.
— Ah, querida... eu percebi porque seu pai Zacarias virou o meu primeiro e o meu último pensamento do dia. Não importava o que eu estivesse fazendo, tudo me lembrava ele. Era uma inquietação boa, sabe? Uma vontade de compartilhar cada detalhe bobo da rotina.

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