Os dias que se seguiram transformaram-se em um borrão cinzento para Juliana. Longe dos olhares curiosos, a convivência com Nicola Moretti era marcada por uma polidez gélida, quase cirúrgica. Bastava que as portas se fechassem para que qualquer vestígio de calor desaparecesse. No entanto, o espetáculo mudava drasticamente sob os refletores. Nos jantares de gala, recepções da alta sociedade e reuniões da tradicional família Moretti, Nicola vestia com perfeição a máscara do homem atento e apaixonado.
Não havia química real entre eles, apenas uma encenação impecável. Cada abraço era calculado no milímetro, cada toque parecia ter sido exaustivamente ensaiado e os beijos traziam o sabor amargo da conveniência. Mas, para o mundo exterior, a ilusão era perfeita. Em questão de semanas, a narrativa do romance ideal caiu nas graças do clã Moretti, conquistou as colunas sociais de Milão e, em pouco tempo, estendeu-se como um fenômeno por toda a Itália. Juliana agora era a mulher ao lado de um dos homens mais influentes do país, vivendo sob um holofote implacável.
Visando um sopro de independência para sobreviver àquela pressão, Juliana decidiu se mudar. Seu novo refúgio era o antigo apartamento de sua amiga Antonella, um apartamento num condomínio simples, porém impecavelmente decorado, situada estratégica e convenientemente próxima ao seu trabalho.
— Desde que me casei com o Enzo, aquele lugar está trancado.
Dissera Antonella, entregando-lhe as chaves.
— Você terá a paz que precisa para respirar, e sua família também.
Mas a paz era apenas uma ilusão distante.
Enquanto o país suspirava com o falso conto de fadas, Caterina Visconti era consumida nas sombras. Nicola a mantinha confinada ao segredo, confinando o caso ardente entre eles a suítes de hotéis discretos e isolados nos arredores da cidade. Contudo, a clandestinidade cobra seu preço. Cada vez que abria um jornal ou via Nicola desfilando em eventos luxuosos com o braço entrelaçado ao de Juliana, uma onda de ciúme cego e rancor devorava Caterina por dentro.
Na mansão dos Visconti, o ar pesava com a conspiração familiar. Seus pais, Lucrécia e Stefano, assistiam à ascensão de Juliana com um desprezo mal dissimulado, alimentando constantemente a paranoia da filha.
— Você precisa colocar essa reles funcionária no devido lugar dela, Caterina.
Sentenciou Lucrécia, com a voz gélida e o olhar fixado na filha.
— Mostre a ela de uma vez por todas quem realmente dá as cartas nesse jogo.
Caterina estreitou os olhos, cruzando os braços com um sorriso sombrio nos lábios.
— Não se preocupe, mãe. Eu já tenho tudo planejado. Descobri recentemente o novo endereço da empregadinha... Pretendo fazer uma visita surpresa àquele apartamento muito em breve.
Stefano Visconti, que até então apenas observava a conversa servindo-se de uma dose de uísque, deu um passo à frente. Seu tom de voz carregava a autoridade rígida dos Visconti:
— Não adie isso, minha filha. Vá lá e dite as regras do jogo. Faça essa garota entender exatamente qual é o papel medíocre dela nessa história: ela é apenas uma namorada de fachada, uma peça descartável. Enquanto você... você é, e sempre será, o verdadeiro amor da vida de Nicola.
O silêncio que se seguiu na sala dos Visconti trazia a promessa velada de uma tempestade prestes a desabar sobre a vida de Juliana.
Dois dias. Esse foi o tempo que Caterina teve para tentar um encontro com Juliana.


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