Antes mesmo de Juliana colocar os pés na sala da presidência, Nicola Moretti já encarava o fundo do seu copo de Whisky como se procurasse ali uma resposta divina ou, pelo menos, uma desculpa decente.
Ele não a via desde sábado à noite, quando saíra em disparada do apartamento dela, atordoado e cruzando as ruas de Milão como um fugitivo da própria dignidade. No fundo, Nicola sentia um alívio covarde. A vergonha que o corroía era gigantesca, do tamanho do império financeiro da família Moretti. Contudo, seu plano genial de fingir demência e manter distância tinha um pequeno furo logístico: Juliana não era apenas a mulher que ele beijara surpreso; era sua funcionária e, para o resto do mundo, sua "namorada de mentira" por força de um contrato de um ano.
Ele sabia que precisava resolver aquele desastre. O impacto do beijo fora tão avassalador que Nicola nem sequer conseguira voltar para sua mansão. Procurara o refúgio habitual nos braços de Caterina, mas, pela primeira vez na vida, olhou para a mulher perfeita e sentiu a mesma emoção de quem olha para um prato de alface sem sal. Sem desejo. Assustado com a própria apatia, acabou se escondendo no seu apartamento funcional perto da sede do Grupo Moretti, um bunker projetado para reuniões intermináveis e para fugir do trânsito caótico de Milão, que agora servia de abrigo para o seu ego ferido.
Foi exatamente nesse momento de autoflagelação que a porta se abriu e Juliana entrou.
Ela parou quase de frente para a imponência da mesa dele. Nicola, mestre em ler pessoas, percebeu imediatamente o jogo: ela desviava o olhar com um atletismo invejável. Toda vez que as órbitas dos dois ameaçavam se cruzar, os olhos dela davam um cavalo de pau em direção ao teto, às cortinas ou ao tapete persa. Para um homem acostumado a ser o centro das atenções, aquilo não foi apenas humilhante; foi um golpe baixo. Nicola se sentiu caindo em um abismo sem fim de rejeição corporativa.
— Pronto, estou aqui!
Disse Juliana, com a voz tão fria que poderia congelar o Whisky dele.
— Sente-se!
Ordenou Nicola, apontando com um gesto rígido para a cadeira de couro ao lado.
Juliana acomodou-se e, finalmente, decidiu encarar o chefe. Seu olhar queimava.
Nicola pigarreou, tentando recuperar a postura de CEO inabalável:
— Te pedi para vir aqui para me desculpar por sábado. Eu bebi além da conta e, bem... acabei exagerando.
Juliana deu um dar de ombros magnificamente ensaiado:
— Tudo bem. Sinceramente? Para mim foi só um beijo qualquer, completamente sem emoção.
Nicola travou. A testa dele se franziu em vincos tão profundos que poderiam guardar cartões de crédito.
— Qualquer? Sem emoção?
— Sim!
Continuou ela, ajustando a postura com falsa despretensão.
— Eu já tinha até esquecido. Para falar a verdade, já tive beijos bem melhores.

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