No dia seguinte, o sol resolveu tomar uma decisão pessoal e violenta: atravessar a fresta da cortina diretamente para as pupilas de Juliana. Quando ela tentou abrir os olhos, a claridade bateu como um golpe de marreta no topo do seu crânio. Fechou os pálpebras instantaneamente.
A dor de cabeça não era um mero incômodo; parecia um pequeno grupo de duendes operando uma britadeira atrás das suas orelhas. O
que diabos ela tinha bebido ontem? Cimento? Química pura? O arrependimento amargo subiu pela garganta. E por falar na festa da noite anterior... cadê as memórias? A última imagem nítida que tinha era de si mesma era feliz pelos nomes das filhas de Zoe e Antonella. Depois? Apagão total. Não sabia como tinha saído de lá e muito menos como tinha chegado em casa.
Forçando a vista, finalmente encarou o ambiente.
O pânico travou sua respiração.
Aquele não era seu quarto. Aquelas lençóis não tinham a fragrância barata de amaciante de lavanda que ela usava. Aquilo era algodão egípcio. Os móveis era de luxo. Onde diabos ela estava?
O desespero dobrou de tamanho quando ela virou o rosto para o lado e deu de cara com um sofá. Sobre ele, largadas de qualquer jeito, estavam roupas masculinas. Uma camisa social amassada, uma calça pteta, um terno elegante e uma cueca box de marca cara.
_ Ah, não. Não, não, não.
Nesse exato momento, o som abafado de um chuveiro ligado ecoou por uma porta entreaberta. A ficha caiu com a força de um piano despencando do décimo andar: ela tinha passado a noite com um homem misterioso e sua memória havia apagado o arquivo completo do evento.
Tomada por um surto de adrenalina pura, o único remédio conhecido contra ressacas morais, Juliana pulou da cama como se o colchão estivesse em chamas. Agarrou sua bolsa de qualquer jeito, caçou as sandálias no chão e partiu em disparada rumo à saída. Ela não esperaria aquele sujeito sair do banho para dar explicações. Ela ia sumir!
Mas o universo adora uma piada de mau gosto.
Apenas dois passos antes de alcançar a maçaneta da porta principal, a porta do banheiro se abriu num estrondo leve de vapor. Cega de raiva, vergonha e puro pavor, Juliana nem pensou: virou-se e avançou contra o homem com o punho fechado, pronta para cometer um homicídio culposo por legítima defesa da sua honra.

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