UMA PROMESSA E UMA DÍVIDA
O sol de domingo já estava alto quando o carro estacionou. Henry, ou melhor, Lucca, como ditava o seu disfarce, ainda estava se acostumando com um mundo diferente do seu, mas o sorriso vibrante de Zoe ao seu lado o fazia esquecer qualquer desconforto.
_"Chegamos!",
Anunciou ela, com os olhos brilhando de antecipação.
Eram quase onze da manhã. Quando Henry desceu do carro, foi atingido por uma onda de estímulos que ele não esperava. O local era uma mistura vibrante de restaurante e bar, com mesas de madeira ao ar livre e uma decoração colorida que exalava vida.
Henry paralisou por um momento na entrada. Em sua mente, o Brasil era um mosaico de cartões-postais de praias, multidões no Carnaval, lances de futebol e, infelizmente, as notícias cinzentas de violência que preenchiam os jornais internacionais. Mas o que ele via ali era... diferente.
Um cheiro inebriante de feijoada fresca, alho frito e o perfume cítrico de limões sendo cortados. As pessoas não apenas comiam; elas celebravam. Havia uma cadência nas conversas, uma alegria tátil.
Uma batida contagiante preenchia o ar. Henry reconheceu o ritmo acelerado da Banda Calypso e a voz potente de Ivete Sangalo. Logo em seguida, o clima mudou para o sertanejo de Gusttavo Lima e Michel Teló.
_"Isso é... barulhento. Mas de um jeito bom, o ritmo é contagiante",
Admitiu Henry, tentando não deixar o sotaque de 'Lucca' vacilar.
Zoe o conduziu até uma mesa perto do balcão de mármore, onde um barmen preparava caipirinhas com uma agilidade hipnotizante.
— Eu prometi te mostrar o que os guias turísticos às vezes esquecem, Lucca.
Disse Zoe, inclinando-se para frente.
— O Brasil não é só paisagem; é tempero e coração.
Ela pediu uma rodada de petiscos: coxinha, bolinho de feijoada e dadinhos de tapioca. Henry observava tudo como se estivesse diante de uma nova civilização. Quando a primeira caipirinha chegou, com o gelo estalando e o suco de limão perfeitamente misturado à cachaça e ao açúcar, ele deu o primeiro gole.
— Uau...
Ele murmurou, surpreso.
— É forte, mas é solar.
Enquanto observava Zoe cantarolar baixinho um refrão de Gustavo Lima, Henry sentiu uma peça do quebra-cabeça se encaixar. Ele sempre se perguntou de onde vinha aquela energia inesgotável dela, aquela capacidade de iluminar uma sala apenas por estar nela.
"Agora eu entendo", pensou ele, observando-a rir com o garçom como se fossem velhos amigos. "Ela não é apenas animada. Ela carrega esse Brasil com ela: esse calor que não vem do sol, mas das pessoas."
O disfarce de Lucca era pesado, mas ali, cercado por aquela música e pela alegria genuína de Zoe, Henry se sentiu, pela primeira vez em muito tempo, verdadeiramente leve.
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Já era quase noite, o crepúsculo de domingo tingia o céu de Milão com tons de violeta e laranja enquanto o carro deslizava suavemente pelas ruas. Dentro do veículo, o aroma do tempero brasileiro ainda parecia flutuar no ar, uma lembrança sensorial da tarde impecável que haviam compartilhado.
Henry, sob a fachada do humilde Lucca, sentia uma satisfação que raramente experimentava como o magnata Henry Salvattore. O riso de Zoe, a simplicidade do momento e a autenticidade daquela conexão eram luxos que o dinheiro nunca conseguiu comprar.
Ele reduziu a velocidade ao parar em um sinal vermelho e virou-se para ela, os olhos brilhando com uma sinceridade que quase o fez esquecer do disfarce.
— Eu adorei hoje, Zoe. Foi único.
Ele confessou, a voz baixa.
— Sabe, um dia... eu vou levar você ao Brasil de verdade.

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