POV: Alexander
Charlotte sempre foi uma distração para mim. Não qualquer distração.
A maior, mais caótica e inevitável fonte de distração da minha vida.
Desde a faculdade, esse fato era uma constante. Eu poderia estar focado no projeto mais importante da minha carreira, na decisão mais estratégica para os negócios ou em um momento crítico que exigia precisão absoluta, mas bastava Charlotte surgir para que tudo mais perdesse o sentido.
E foi exatamente isso que aconteceu no meu quarto ano na faculdade de administração.
Tive a rara oportunidade de fazer uma apresentação pública no grande teatro da universidade. Uma honra reservada apenas para os alunos do último ano, um evento que servia para exibir suas teses e, claro, ajudá-los a conseguir emprego.
Exceto que eu não era um aluno do último ano.
E definitivamente não precisava de um emprego.
Herdeiro da Speredo Corp., com um caminho traçado desde o berço, não havia razão lógica para que eu fosse escolhido. Por isso, no momento em que meu nome foi anunciado, me opus imediatamente, certo de que essa era apenas mais uma tentativa da faculdade de me exibir como um garoto prodígio ou, pior, de me colocar como alvo para a frustração dos meus colegas.
— Senhor Speredo, não estou te colocando na tribuna por causa do seu sobrenome — meu professor disse, com um olhar carregado de intenções. — Se eu me importasse com sua posição, jamais lhe daria um desafio tão grande. Mas desde seu primeiro ano, venho observando seu progresso. Sei reconhecer um talento quando vejo um. Se estou te dando essa oportunidade, é para que seus colegas tenham a chance de aprender algo enquanto ainda podem.
Tradução?
Se eu fizesse um bom trabalho, seria usado como um exemplo impossível de alcançar. Se falhasse, seria humilhado na frente de toda a faculdade.
Perder não era uma opção.
Passei semanas elaborando minha apresentação, analisando tendências do mercado, investindo com o pouco que tinha para obter dados reais. E quando digo pouco, quero dizer que literalmente comprometi minhas economias inteiras. Meu pai, Jackson Speredo, percebeu meu envolvimento e, pela primeira vez, viu-me buscar conselhos dele sobre negócios, algo que eu raramente fazia.
Aproximando-se o grande dia, Jackson demonstrou interesse incomum:
— Sua faculdade já me enviou diversos convites antes, mas sempre recusei. Se eu for agora, o reitor com certeza começará a insistir para que a Speredo Corp. contrate os alunos. Se eu disser não, pode gerar problemas para você. Você lida com isso?
Era quase engraçado.
Ele esperava que eu pedisse para ele não ir? Talvez que implorasse por suporte caso algo desse errado?
Eu apenas terminei minha refeição e respondi com indiferença:
— Se decidir ir, assista à apresentação e me dê sua opinião depois. O resto é problema meu.
Ele assentiu lentamente, mas vi a decepção em seu rosto. Meu pai sempre esperava que, em algum momento, eu pedisse sua ajuda. Sempre quis que eu agisse como um filho.
Antes que pudéssemos continuar o jantar, a empregada entrou na sala de jantar segurando o telefone fixo da mansão.
— Senhor Speredo, sua mãe está na linha. Ela disse que é urgente.
Jackson franziu o cenho ao pegar o telefone.
— Mãe? O que aconteceu?
No instante em que atendeu, a voz de vovó explodiu do outro lado:
— Venha agora, Jackson! É a Charlotte! Ela fugiu de casa!
Eu me engasguei. Senti meu corpo inteiro enrijecer, o coração martelando forte demais contra as costelas.
Minha mãe, sentada ao lado de meu pai, sussurrou alarmada:
— O que há com Charlotte?
Jackson ignorou a pergunta, ligando o viva-voz para que todos ouvissem.
— O que aconteceu? — perguntou, mantendo a calma.
— Eu só disse algumas palavras para ela, você sabe que às vezes não consigo segurar minha língua! Mas essa menina está cada vez mais rebelde, Jackson! Agora desapareceu, e não a encontro em lugar nenhum!
— Você verificou as casas das amigas dela?
— E você acha que eu sei quem são as amigas dela? Charlotte troca de amigos como troca de roupa! E se ela foi para a casa de alguém que não presta? Se ela estiver em perigo?
Jackson suspirou.
— Mãe, não tire conclusões precipitadas. Ela vai voltar para casa em segurança, eu prometo.
Enquanto os adultos discutiam sobre o paradeiro dela, um detalhe passou despercebido por todos.
Eu.
Eu, que geralmente era indiferente às conversas familiares, que raramente me manifestava na mesa de jantar, estava sentado ali, completamente imóvel.
O sangue drenava do meu rosto.
A respiração estava errática, pesada demais.
E se alguém tivesse me olhado naquele momento, teria visto algo que ninguém jamais imaginaria.
Pânico.
Eu não raciocinava.
Minha mente repetia, sem parar, todos os piores cenários possíveis.
Charlotte sendo atropelada. Charlotte sendo sequestrada. Charlotte em algum beco escuro, cercada por homens que não se importavam com os gritos dela. Charlotte assustada. Charlotte chorando.
E o pior de tudo.
Charlotte nos braços de outro homem.
O pensamento me atingiu como uma lâmina fria. Meu estômago revirou, e por um instante tive que fechar os olhos para não vomitar bem ali, na frente dos meus pais.
Por que diabos essa ideia era pior do que todas as outras?
Respirei fundo. Forcei meu cérebro a processar as informações de forma racional.
Mas não consegui.
O pânico era mais forte.
Precisei sair. Levantei-me bruscamente da mesa de jantar, ignorando os olhares confusos dos meus pais. Meu corpo se movia antes mesmo que minha mente acompanhasse.
Peguei o telefone e disquei para a casa de Charlotte. Vovó atendeu no segundo toque.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: O CEO Que Odeio Não Quer Dar O Divórcio!