Minha mãe me encarou com um olhar calculista, como se estivesse considerando onde eu cabia (ou melhor, onde eu não cabia) no seu grande plano. Então, disparou, sem hesitar:
— Vou começar minha vida com ele. Já perdi tempo demais nesta cidade e com essa… família. Quero ser feliz, Charlotte. Dá pra fazer isso por mim? E, por favor, não conte a ninguém. Saio daqui a dois dias. Quando estiver estabelecida, te mando dinheiro, e quem sabe até te trago comigo, quando tudo estiver resolvido.
Eu sabia que era mentira. Uma desculpa mal disfarçada para me manter calada. Ela nunca teve intenção de me levar. Naquele momento, aos quatorze anos, era óbvio que eu estava sendo oficialmente removida do seu mapa. Afinal, o que uma garota daquela idade entende sobre egoísmo? Naquela época, o ato mais egoísta que eu cometia era roubar o melhor pedaço de bolo. Mas naquele dia, aprendi o que significava o egoísmo de verdade. Era um troféu de uma mãe que escolhia seguir seu próprio caminho — sem mim.
Respirei fundo, mantendo um tom impassível.
— Quem é ele? Como ele se parece?
Não que eu estivesse interessada de verdade. Eu só queria ver o rosto do homem por quem ela estava me trocando. Ela sempre foi uma mulher tola, obcecada por aparência e superficialidades, mas ver aquilo, presenciar a falta de hesitação… ainda assim, partiu o que restava do meu coração.
Dois dias depois, ela sumiu. Sem um último adeus, sem deixar um bilhete. Era como se ela estivesse fugindo de mim — da garota que, talvez, nunca quis. E, como esperado, nunca tentou me contatar. Eu me virei sozinha, aprendi a sobreviver. Pensar nela? Claro que pensei, vez ou outra. Mas na minha mente, ela era apenas uma imagem distante, uma mulher bonita que me abandonou por algo (ou alguém) mais interessante.
Mas ao ver aquele nome e o rosto no documento, senti meu coração pulsar descontrolado, como se ele próprio estivesse me cutucando, me lembrando de que ainda doía. Era o mesmo homem. Eu me lembrava do nome e do rosto dele, e, mesmo que minha mãe nunca tenha me contado onde ele vivia ou o que fazia, reconheci-o imediatamente.
Talvez, se ela tivesse ficado, eu não teria acabado onde estou agora, casada com Alexander. Sim, ele foi a primeira pessoa em quem pensei ao ver aquele nome no papel — um dos poucos que realmente poderiam me ajudar a encontrá-lo. Ele era o único com poder e meios suficientes para fazer isso, se eu pedisse…
Decidi que o orgulho já me custara o suficiente. Respirei fundo e encarei a tela do celular — eu precisava da ajuda de Alexander. Não é como se eu pedisse coisas antes… só a chance de me divorciar dele.
Saí da minha sala em direção ao banheiro, o telefone apertado na minha mão enquanto tentava ligar para ele. Nada. Na terceira tentativa fracassada, minha paciência escorria pelo ralo, mas eu estava desesperada o suficiente para ir direto ao escritório dele e encarar a secretária. Eu sabia que ele era o único capaz de resolver essa situação com o advogado, mas… depois de tanto esforço para parecer calma, tudo que consegui foi um turbilhão de sentimentos — desde o pavor até o abismo sombrio que ameaçava me engolir sempre que eu lembrava dela.
Respirei fundo antes de me enfiar no escritório de Alexander, e falar com sua secretaria. Sem sucesso até com ela, fui ao banheiro, mas, antes de sair, o telefone tocou com um número estranho. Atendi, sem pensar duas vezes.
— Charlotte? Está tudo bem? — A voz dele atravessou a linha, firme, e o alívio me atingiu com uma força dolorosa. Alexander parecia preocupado, talvez porque minha insistência tivesse assustado até a imperturbável secretária dele.
Não segurei. Meu coração desmoronou de uma vez, e as lágrimas vieram como uma enchente.
— Alexander, você está no escritório? Preciso te ver… agora. — Minha voz mal passou de um sussurro desesperado, mas eu senti cada palavra implorar para que ele entendesse. — Se estiver no meio de uma reunião, posso esperar, mas… mas, por favor, me avise quando puder.
A última coisa que eu queria era chorar, principalmente na frente de Alexander. Aparentemente, isso era mais comum do que eu gostaria. Talvez minha fobia estivesse esgotando minha fachada de força; era a única explicação para eu ter chorado, pelo menos, quatro vezes na frente dele. Se isso não o assustava, nada mais assustaria.
A resposta dele foi rápida:
— Charlotte, você está com dor? Está ferida? — A voz dele baixou, fria e direta, como se estivesse tentando me diagnosticar por telefone.

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